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sexta-feira, 29 de maio de 2009

A marca de Caim

Maria J Fortuna

Ela era de uma coragem a toda prova, mas tinha o coração de casca de ovo. Não era à toa que abria mão das coisas que poderiam fazer-lhe feliz... Talvez por isto, de vez em quando, tinha acessos de loucura. Havia dia que queria medir o vento. Noutro, queria ficar nua para beber água da chuva. Mas tinha consciência do seu estado emocional descompassado... Lambia seus sonhos como último refúgio para ficar um pouco contente. Tocava o sexo para aliviar tensões e esquecer o medo. Ah! As fantasias que corriam soltas como redemoinho em sua mente cansada... Depois... Bem, depois não sabia o que fazer de si mesma. Não podia esquecer que seu traço louco era sua marca de Caim. Deus puniu Caim, mas o protegeu. E ele foi pai de muitas gerações com nome na Bíblia e tudo. Deus podia protegê-la, mas não do seu traço doente, dos pensamentos obsessivos que lhe assaltavam a mente com tal intensidade que chegavam a paralisar seu curso de vida, já tão sacrificado. O jeito que tinha era acolher e conviver com a loucura, porque não tinha outra saída. Assim foi vivendo, esperando que a lua se apagasse com a chegada do sol. Com uivos de lobo aos seus ouvidos. Chegou a ponto de sentir apagada a Luz de Deus. E todo o seu universo ficou às escuras dias e dias... Quando indagava por que tanto suplício, a resposta era sempre a mesma: não tinha resposta.
Os anos se passando e a dor continuando. As amigas se casando, os filhos dos outros crescendo, e ela ali a ver navios... Louca para trançar seu corpo num corpo de homem em que, nus, podiam se abraçar e espantar seus pesadelos em noites sombrias... Mas não iria adiantar. Homem nenhum aguentaria presença tão distante quando a obsessão a carregasse do mundo em sua presença de sombra. Levantava à noite e escrevia: “- Por que é assim comigo? Que mal fiz , pelo amor do santíssimo nome de Cristo?” Até que um dia seu pensamento a seduziu com uma sugestão: “ Ignore seus delírios e diga para si mesma que você não se identifica com eles". De certa forma foi um alivio. "Não sou esta face doente que me atormenta, sou bem maior do que ela! “, repetia mentalmente. Mas o traço doente veio dos antepassados e tinha muito poder sobre ela! Trazia nos genes aquela loucura coletiva, herança maldita de algum antepassado... Avós, bisavós, tataravós... Quem? Alguém que tinha aquela marca de Caim. O que poderia nascer disso tudo? Seria escrava dos comprimidos que amenizavam apenas o medo que causava a maldição?
Aconteceu numa noite de insônia. Mergulhou as mãos numa argila que estava abandonada num fosso perto de casa. Pegou um bocado e começou a amassá-la. Primeiro com ternura, sentido-a fria e úmida. Depois, começou a apertá-la com força. Quanto mais a apertava, mais a massa lhe escapava pelos dedos. E mais os maus pensamentos lhe fugiam ao controle, como azougue, misturando-se ao barro. Aquela massa informe, fria e com odor de terra, era gostosa de apertar. Podia ocultar ,inclusive, todos os segredos do seu coração, deixando que sua ternura represada se misturasse a ela. Depois, veio o surgimento de uma forma. Alguma coisa nascia dali. No início, temeu que pudesse brotar da argila algo disforme, que pudesse aumentar o medo de si própria. Mas sentiu que teria, finalmente, um controle sobre o que não queria moldar. Surgiu de suas mãos lamacentas a forma de um feto. Misturou novamente a massa, retirando-lhe os pedaços em ritmo de rejunte. Apertava, beliscava, batia nela com ardor. Depois, moderando a ansiedade, viu outra forma nascer e, daí por diante, em muitas outras noites de insônia, buscava beleza na harmonia e pureza das formas que brotavam de suas mãos. Busca interminável! Todas as peças que, produzidas, eram ensaios, nunca estavam completas. Ela não estava completa. Nada é completo.
Ali estava a explicação para sua mente perturbada: seu tormento havia-lhe conduzido ao encontro com os loucos que haviam habitado o planeta e existem , numerosos e anônimos, por ele. Não estava mais sozinha. Era uma artista!

Mais uma de mãe...


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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Rápida do cotidiano

Conversa em fila de Banco

- Pois é minha filha, Tonio apanha dela todos os dias, diz a mulher nº 1
- Aquela branquela é de lascar, diz a mulher nº 2 aparentando muito ódio.
(As duas são negras)
- E ele fica parado, não faz nada, afirma revoltada a mulher nº 1
- Bobo, fica apanhando a toa, sem mais nem menos, acrescenta a nº 2
- O que posso fazer? A mãe não educa, tenta explicar raivosa a nº 1
- Há muito tempo que eu vejo que ela não presta, afirma julgando a nº 2
Conversa vai conversa vem, indaguei
- Que idade tem seu filho?
- Quatro anos, responde a nº 1
- E a pessoa que bate nele?
- Tem um ano, respondeu a nº 1, não calculando o tamanho do absurdo!

Fiquei sabendo no andar da conversa que a criança de um ano apanha horrores da mãe e tem a fisionomia carrancuda como se fosse um adulto.
No mais fico aqui sem comentários...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Mulher de 50 ou mais...


Continuando no tema mães, neste mês de maio, aí está uma charge que retrata uma delas. Aliás muito comum... rsrsrsrsrs
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Que saudades do Dr. Djalma!

Maria J Fortuna

Está bem viva em minha memória a imagem do Dr. Djalma Marques! Magro, alto, com braços compridos e olhar bondoso, lá estava em seu consultório , que mais parecia uma oficina de artes. Meu pai dizia: "hoje é dia de ir ao Dr. Djalma". Quem estivesse doente ou indisposto em casa, preparava-se para a consulta. Minha mãe ,asmática , era sempre a primeira candidata. Depois vinha eu, que tinha surtos de bronquite, apesar de não ser asmática, e meu irmão mais velho, nascido prematuro, com saúde delicada. Em dois tempos estávamos lá. Dr. Djalma, que cheirava a naftalina e charuto cubano, estava sempre com um terno branco de casimira inglesa. Chapéu de coco pendurado num cabide ao lado de sua mesa. Após cumprimentar efusivamente todos nós, dava inicio às consultas. Um de cada vez. E começava por indagar se alguma coisa nos afligia ou algo não estava bem, por que estávamos doentes. Auscultava, apalpava e depois seguia para trás de uma parede improvisada, a fim de fazer as poções. E elas eram tiro e queda... Dr. Djalma sempre foi clínico geral e não mandava a gente procurar outros médicos para investigar ou complementar acerca de nossos males.
Não querendo generalizar, hoje em dia, apesar dos muitos “especialistas”, a simples possibilidade de ir a um médico desconhecido, causa-me pavor! Acho que não vai ser difícil encontrar pessoas que sentem a mesma coisa. Só nos cinco últimos anos “salvei” minha tia, entrada nos noventa, de um cardiologista (já escrevi muitas crônicas sobre esta figura), que prescrevia remédios para baixar a pressão, e lhe valeu um socorro de urgência, com ambulância e tudo. A empregada, cujo ginecologista dizia que ela estava muito bem, quando foi descoberto um enorme mioma uterino. A mulher quase morreu de tanta hemorragia! Uma prima, que fez plástica de abdômen e ficou com uma enorme cicatriz, que deixava os órgãos internos quase à mostra. Uma endocrinologista que, na pressa, prescreveu-me duas vezes o mesmo hormônio tireoidiano, provocando-me enorme taquicardia, e outros mais...
O que está havendo? Quem é o médico de hoje em dia? Refiro-me àquele que não conhecemos e a quem somos encaminhados numa emergência. O que significa o ser humano enfermo para este profissional? O que seria o estado psicoemocional para ele? Por um acaso olham nos olhos do cliente e cogitam em pesquisar a causa de sua doença? Tem interesse na leitura da alma humana? Na verdade não mais interpretam os sinais do corpo , de que algo não vai bem e deve ser mudado, como o faziam os médicos antigos. Não sabem interpretar os símbolos que o corpo envia. E não há discernimento para administrar um medicamento vendido pelo laboratório como eficiente, quase milagroso! Existia o médico da família, que recebia, acolhia e acompanhava as pessoas em suas dificuldades, sabendo por que tinham sido afetadas em sua saúde. Salvo honrosas exceções, atualmente temos profissionais mal preparados e mal remunerados, que correm de um hospital para outro e cobram os tubos para atender com mais cuidado o cliente particular, quando a maioria esmagadora da população não tem recursos financeiros. Atendimento de dez minutos, quando o cidadão provém das intermináveis filas do SUS. Se bem que na maioria dos casos, o paciente está desnutrido, e a fome adoece... Não seria problema apenas médico, mas do país, onde a grande população não tem recursos para sobreviver e educação para interpretar os sinais do seu corpo. No SUS nem há tempo para isto... No entanto, não justifica a incompetência, a falta de atenção, o desamor para com o próximo. Daí os inúmeros erros médicos. Seria o caso de questionar a formação profissional na Universidade?
Ah! Como tenho saudades das poções do Dr. Djalma, que decodificava nosso modo de expressar no corpo as agruras da alma... Infelizmente estamos entregues a mais um risco nesta vida cheia de riscos... De uma hora pra outra, podemos ser encaminhados a algum desses médicos e aí..

quarta-feira, 20 de maio de 2009



Maria J Fortuna



Nesta noite

O leite da lua

Adoça meus lábios

E tudo o quanto é suave

Comunga em meus poros

Alguém revelou às estrelas

Que elas brilham por causa do sol

E meu coração sentiu o pulsar de todas elas...


Quero gritar feito louca

Deixar que o uivo do lobo

Contráia-me o útero

E o cálice da noite transborde

Em fecundação

E toda a magia do mundo

Descerá pelos fios escuros

Dos teus cabelos

Nesta noite...

sábado, 9 de maio de 2009

Ausência


Isso é lá charge para este dia tão especial?
Acontece, cara, que como mãe temporona já ouvi isso... hehehehehehe

Feliz Dia da Mães para todas as leitoras de Artes e artes com muito carinho!
Porque difícil é encontrar uma mulher que não seja mãe... Mãe-tia, mãe-professora, mãe enfermeira...
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Ausência






“Por muito tempo achei que a ausência é falta.E lastimava, ignorante, a falta.Hoje não a lastimo.Não há falta na ausência.A ausência é um estar em mim.E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,que rio e danço e invento exclamações alegres,porque a ausência, essa ausência assimilada,ninguém a rouba mais de mim.”


Carlos Drummomd de Andrade




Maria J Fortuna

A palavra me soa como vácuo, cavo, vazio... Sempre que nos referimos à lacuna, algo que era bom, prazeroso e se foi de repente ou nunca existiu como imaginávamos.
Há ausências provisórias, outras permanentes em nosso universo de relações. Há as que doem mais e as que doem menos... Mas sempre irão existir em nosso dia a dia. Há aquelas que se transformam em feridas na alma – o chamado vazio afetivo.
No campo do positivo a melhor, mais difícil e desafiadora é a ausência do medo. Acredito que em certas circunstâncias, outras não. Por melhor estrutura que o ser humano possua. Isto me faz lembrar que desde criança venho observando os animais que tem medo dos seres humanos por terem sido maltratados. Corpo e olhar mostram claramente o que sentem o que na maioria dos casos costuma ser dissimulado por nós.
Mas na verdade o que nos traz maior dor certamente é a ausência de amor. Este é um tema que se reproduz em milhares de textos, e é grande aspiração de toda a ecologia interior e exterior. O que leva um astronauta a ficar pasmo diante da beleza do planeta azul, sem encontrar nenhum sentido para guerra ou destruição da natureza. Apesar de que os povos da Terra necessitam de leis e crenças para se organizarem, em sua maioria são ensinados a mais temer que amar, um ser Criador que buscam mais fora do que dentro de si mesmos. O que se poderia dizer a respeito disto? Que a maioria das tradições leva o ser humano ao fundamentalismo na aplicação de suas leis, na ausência da graça?
No mundo cristão onde fui criada, poucos pais tenho visto que ensinam o filho a sentir dentro de seu coração a presença silenciosa do Criador amoroso. Nunca vi Papai do céu tornar-se Amor que vem do meu coração, Amor que faz amar. Fomos ensinados a pedir tudo ao Pai e atribuir a Ele, todas as coisas que acontecem. Um movimento sempre para fora, quase nunca partindo de dentro. Somos cercados de crenças em dogmas e promessas.
Estamos aí há tantos séculos no planeta e ainda somos crianças que brigam por um pedaço de terra, aumentando a barreira preconceituosa entre as nações. Que mata seu semelhante com a mesma facilidade e prazer de uma criança moderna jogando vídeo game. Que rotula, discrimina, fere, marginaliza o outro considerado diferente. Sem consciência do perecível, com grandes dificuldades para enfrentar o desconhecido, a morte. Que destrói seu habitat – a Terra, para ter maior poder financeiro. Tenho esperança que em tempos longínquos, como Teillard de Chardin havia previsto, o homem consiga chegar à conclusão de que todo motivo do seu sofrimento é esta grande ausência do que está tanto fora como dentro, e deixe de fugir de si mesmo.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Manias femininas...


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Maria J Fortuna
foto: furiousgeorge81

Ontem, assisti a um filme surpreendente: “ Into the wild,” em português “Na natureza selvagem” com Emile Hirsch, um ator que eu não conhecia. Trata-se de um rapaz cheio de conflitos familiares, que rompeu com a sociedade, queimando até sua própria identidade, dinheiro, roupas, fotos, tudo o quanto tinha para “ser livre”. Quantas vezes a gente não tem essa tentação? Nesta minha breve viagem pelo tempo na Terra, conheci pessoas que levaram quase ao extremo a busca da liberdade. Eu mesma fui uma delas. Saí de casa aos 22 anos e nunca mais voltei. Hoje em dia, com a filha distante, moro com uma velha tia de 99 anos que, obedecendo à ordem natural das coisas, está partindo para o desconhecido.
O filme despertou-me grande interesse porque as situações que se apresentavam a cada novo momento eram surpreendentes! E o tempo todo há que um teste constante dos limites do personagem. Será que vai conseguir continuar? Até que ponto vai ainda aguentar? Os desafios eram imensos! Mas como sei que despertei curiosidade, não vou ser desmancha- prazer. Não vou contar o final do filme que me levou a grandes reflexões, mas o momento que mais me tocou e, acredito, trouxe à síntese a mensagem, a razão de ser da história, foi a frase conclusiva que o protagonista escreveu num pedaço de papel: “A felicidade só existe quando é compartilhada.” Além do desejo compulsivo de sair em busca da liberdade está a consciência de que nunca somos felizes sozinhos. Como diz Thomas Merton em seu livro” Homem algum é uma ilha”.
Estou vivendo meu momento de inverno, consciente de que sem os velhos amigos, seria difícil existir. Quase todos estão com grandes problemas de saúde, alguns rabugentos, outros fixados em idéias malucas, inseguros financeira e afetivamente, mas são os meus amigos. De vez em quando sai briga. Mas a gente acaba rindo junto de nossas mazelas, levando para o lado humorístico das limitações inevitáveis! Ah! Não posso viver sem eles! Faço uma viagem de seis horas e meia quase todos os meses para estar com essas criaturas contemporâneas, que me trazem tanto conforto! Alguns já se foram. A cada um que, como vela, vai se apagando, a doce lembrança dos momentos de juventude, quando tudo podíamos, e éramos fortes o suficiente para aguentar os trancos da vida. Agora estou sabendo dar valor aqueles momentos ensolarados. E, acredito cada vez mais, que “os ficantes” em nossas vidas, têm grande identidade recíproca, na imensa rede onde as consciências se buscam e compartilham amorosamente a existência.
O jovem do filme é atemporal. O desejo de fuga continua dentro de nós, graças a Deus!

Quem sou eu

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Sou alguem preocupado em crescer.

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