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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Minha Cidade - Antologia A cidade em nós

 
 
 
Maria J Fortuna


               A cidade da gente é aquela que tem um cheiro especial, luminosidade só dela, clima que nos envolve desde os mais remotos anos e permanece na memória de nossas células. Assim sendo, dentro do meu coração está linda e inteira, São Luís do Maranhão, uma doce Ilha no nordeste do Brasil. E Terra que me viu nascer!
               A mais significativa lembrança da minha infância é o quintal do sobrado, onde comecei a desenrolar o fio da minha vida – o casarão de azulejos azuis que possuía mirante e porão, como muitas das construções maranhenses. A cadeira de embalo, onde me deitava ao colo do meu avô, olhando as arvores que habitavam o grande quintal e sentindo o perfume das goiabas que caiam nas sombras de suas copas cheirosas. O barulhinho do córrego, as margaridas e açucenas, compunham meu mundo encantado! Assim como o alento do sol e os mistérios das chuvas. No azul do céu meu avô apontava nuvens, chamando-as de urso, girafa, elefante e ainda havia o canto dos passarinhos, de um modo especial bem-te-vi, sabiá e alguns canários. Pombos e pardais gostavam de pousar nas telhas da casa. Em dias especiais o céu se enchia de carneirinhos... Então meu avô desenrolava histórias que moravam em sua alma bondosa. Era como se abrisse o peito, donde ecoava sua voz grave, e de lá saísse voando um panamá* de borboletas azuis! Algumas, aos três anos de idade, eu não compreendia muito bem, mas eram como se fossem pétalas de flor retiradas uma a uma até chegar no pistilo redondo, que esparramava pólen e fecundava mais e mais histórias...
Lá pelas tantas horas da manhã, recendia perfume dos pratos gostosos vindo da cozinha, onde eram preparados os mais saborosos quitutes como: arroz de cuxá* (mistura de gergelim, farinha seca, camarão seco, pimenta-de-cheiro). O ingrediente especial – a vinagreira – hortaliça de origem africana, muito comum no Maranhão, dá o toque especial ao prato, ou arroz de jaçanã, uma ave nativa feito garça. A fritada e o bobó de camarão, o cozido, não podiam faltar, entre outros pratos típicos da Ilha de clima tropical, quente e úmido. Enfim, abundavam frutos do mar no cardápio.




Lá pela tardinha, eu, minha irmã e a empregada, íamos à Beira Mar, ver os navios que ancoravam distante, por não haver, naqueles tempos, porto na Ilha. Havia tarde em que a gente ouvia música partindo do navio, o que estimulava nossa fantasia, de que poderia estar havendo algum baile. O confundível cheiro de maresia tornava-se mais forte à medida que ia escurecendo. E o mar ficava muito escuro quando não havia lua, aumentando seu mistério. Em outros pontos da Ilha, os pescadores estavam chegando de longa pesca, com camarão, peixe pedra, caranguejo e outros frutos do mar. Ali, conforme a maré, a gente conseguia comprá-los fresquinhos. Às seis horas da tarde, o perfume de rosas, jasmins e incenso, anunciava a hora do Ângelus. As crianças partiam para o banho. Hora de receber o pai que chegava cansado da labuta diária. O jantar era servido. A empregada da casa tratava de arrumar a cozinha depressa, para finalmente descansar, contando historinhas de fantasmas e curupiras*para as crianças da casa. Eram de arrepiar os cabelos! Depois cada um armava sua rede, porque não havia televisão e o sono chegava cedo.


Quando comecei a frequentar a escola, fiquei sabendo mais a respeito de minha Terra Natal tão cheia de poesia! Ela foi habitada pelos índios Tupinambás e fica entre as baías de São Marcos e São José de Ribamar, no Atlântico Sul. Nesta última costumávamos passar as férias escolares. Em 1612 chegaram os franceses e o nome São Luís, foi colocado em homenagem a Luiz IX, rei da França. É a única capital brasileira colonizada por franceses. Por isto temos algumas palavras derivadas do francês. Esteve também sob o controle holandês de 1641 a 1644, quando a economia tinha por base a exportação de cana de açúcar, tabaco e cacau. Por volta de 1860 exportava algodão para a Inglaterra. Depois vieram o portugueses que sempre brigaram pela posse daquela Terra e foram responsáveis por sua edificação. Hoje em dia a pecuária, agricultura e pesca artesanal fazem parte da economia do Estado maranhense. Além de ter aumentado a produção de grãos de soja, arroz e milho, a mandioca é muito cultivada.

               Quando estive na cidade do Porto, Portugal  contemplei os azulejos de minha Terra nos velhos casarões daquela cidade! Talvez seja pela predominância do azul, ton sur ton, que até hoje a tenho como cor predileta para pintura de casas e edifícios. Um dia, já na década de 90, quando fui à casa de uma pessoa em Belo Horizonte, Minas Gerais, lamentei profundamente ver os azulejos de São Luís decorando a copa. Por isto São Luís corre risco de perder seu título “Cidade dos Azulejos”, como é conhecida por muita gente. As demolições de hoje em dia são grandes e de muitos casarões foram retirados azulejos originais.


                                                               Casarões de azulejo

A Ilha é abastecida pelo rio Itapecuru. Existe ainda os rios Bacanga, cujo parque se encontra preservado até hoje o rio Anil. Quando íamos para nosso sítio, um pouco afastado da capital, eu me deliciava ao ouvir as canções das lavadeiras, de busto nu, batendo a roupa ensaboada nas tábuas de madeira, na beira das águas que corriam por aquelas terras. O banho de rio, por causa do perigo de afogamento, era supervisionado por nossas mães. Quase sempre perdíamos as roupinhas brancas, como que nadávamos ali, quando a correnteza se tornava mais forte. Quando comecei a ler Monteiro Lobato, tinha medo que aparecesse por lá um peixinho atrevido que se apaixonasse por mim e me pedisse em casamento. Como aconteceu com a menina Narizinho, uma das suas principais personagens. Não era ideia boa ser carregada por aquelas águas escuras e frias, até o castelo do Príncipe Encantado que morava em suas profundezas, pensava eu. Do arrepio das águas geladas ao medo do peixe real, havia arrepios e tremores, até que minha mãe me enrolasse numa toalha macia e felpuda.

 
Rio Anil 
No sítio havia frutas maravilhosas, típicas da Mata Atlântica: murici, bacuri, abricó, jacama, juçara, cupuaçu, e outras. Era como se os deuses, brincando de guardar segredo, tivessem soprado delicias dentro de cada uma delas! No pós-segunda guerra mundial, onde a recessão foi grande, meu pai desempregado e, graças aos doces que minha mãe fazia desses frutos maravilhosos, sobrevivemos. Ela os vendia aos aliados que desembarcavam no estratégico aeroporto de São Luís. Dentro de um velho tanque emborcado, de azulejos danificados, eu ficava brincando de boneca com a pequena filha da caseira, ouvindo os babaçus caindo na água do poço.
Cupuaçu
 
Goiaba pera
 
Abricó
 
- A Mãe d´água* está dormindo... Falava a menina, e eu torcia para que os babaçus não acordasse a mulher peixe encantada. Sabia que além do poço, ela costumava frequentar a Lagoa Janssen, com seis mil metros quadrados de área de diversos manguezais. Toda Mãe d’água gosta de poços e lagoas, dizia minha companheira de folguedos.
`
Mãe dÁgua
 
 
 Poeta Ferreira Goulart
 
Aprendi também que no século XVIII, fase de ouro da economia maranhense, São Luís viveu grande efervescência cultural. Era a cidade que mais se relacionava com as capitais europeias e com outras capitais brasileiras.  A literatura e poesia germinaram com grandes escritores e poetas como Graça Aranha, Raimundo Correia, Aloisio Azevedo, Humberto de Campos, Coelho Neto e tantos outros a partir de Gonçalves Dias.  Mais recentemente Josué Montello e Ferreira Goulart.  Não é a toa que São Luis recebeu o epíteto de Ilha do Amor, por tantos famosos da literatura que a louvavam em prosa e verso.  Nesta capital, considerada na época “Atenas Brasileira” , foi editada a primeira gramática da língua portuguesa no Brasil.
 
  Poeta Coelho Neto
 
Mesmo no século XX estava eu em casa do meu avô, com grande laço de fita na cabeça, declamando poesias em cima do piano. Eram os saraus, que minha família proporcionava aos intelectuais frequentadores do sobrado. Alí nasceu um jornal literário famoso no Maranhão ´O Ateneu. Lembro do meu poema preferido As duas sombras de Olegário Mariano, poeta pernambucano: Na encruzilhada silenciosa do destino/quando as estrelas se multiplicavam/duas sombras errantes se encontravam...
Em 1997 quando a cidade foi tombada pela UNESCO. Considerada Patrimônio Cultural da Humanidade, eu tinha vindo para o Rio de Janeiro. Além de deixar toda aquela magia, tinha saudade das festas da Ilha. Particularmente o Bumba meu boi, tradição folclórica afro indígena. Que aflora no mês de junho. Junto com as festas juninas, em louvor a Santo Antônio e São João., estas festas iluminam até hoje São Luís, por várias noites! Minha mãe costumava compor pequenas canções para que meus dois irmãos participassem do evento. Eu me lembro de um pedacinho delas: “ Boi mimoso do curral, quem te ensinou a dançar, foi no palácio da rainha, onde o rei foi passear...” Em minha memoria poética ainda sonho com o boi vestido de negro com miçangas prateadas e douradas cheio de esvoaçantes fitas coloridas nos chifres, dançando ao clarão da lua. Os homens abriam roda cercando o boi, que dançava em roda. Eram homens rudes e bêbedos de tiquira*, que ficavam alegres ao se vestirem com suas fantasias multicores. Outros faziam parte da festa usando penas de índio. Eram imensos cocares* Dançavam até de madrugada ao redor do boi, que se movia através de um homem escondido nos panos coloridos e fazia evoluções, enquanto alguém contava sua história.  Dependendo do local, iluminados por uma fogueira.  Era o tempo em que a gente ainda contava as estrelas!
                                                                         Bumba meu boi
Em julho nas férias escolares, nossa família partia para São José de Ribamar. Lá eu esperava ansiosa, a Festa do Divino em louvor ao Espirito Santo, culto marcado pelo sincretismo religioso. A tradição foi trazida pelos portugueses e recebeu contribuições da cultura indígena, principalmente a africana. Começa na Igreja Católica e termina no Terreiro de Candomblé*. Eu adorava ver as crianças vestidas de Imperador e Imperatriz, herança portuguesa, com a imagem da pomba branca numa almofada de veludo com a figura do Espirito Santo bordada na bandeira branca e vermelha.  Há partilha de alimentos durante o evento.  A criançada fartava-se de doces e bolos com glacê colorido e guaraná Jesus, um refrigerante cor de rosa que só tem no Maranhão. Pela fé do seu povo, cuja etnia vem do branco(em sua maioria portuguesa),índio (povo nativo) e negro( que veio da África para ser escravo), não conheço povo mais messiânico do que o maranhense!
 
Festa do Divino Espírito Santo
 
Quanto às festas profanas, o carnaval é a mais famosa da Ilha! Havia muita alegria pelas ruelas e ladeiras estreitas da cidade durante aquela festa! Muitos alegres blocos de rua e foliões nos clubes.  As crianças tinham medo de uma figura típica do carnaval maranhense –o fofão! São foliões com macacões estampados e fofudos, usando máscaras horrendas, grunhindo estranhos sons. Passavam o carnaval gemendo e pulando como assombranção*! Lembram palhaços da Comédia Del Arte. Esta tradição é bem forte em São Luís, onde os blocos populares se misturam aos brincantes e às bandinhas tradicionais. Fiquei sabendo pelo noticiário da TV Globo do Brasil, que os fofões agora estão sendo proibidos, o que vai descaracterizar bastante a tradição do carnaval da cidade.
                                                                                 Fofões
São Luís era catoliquíssima no meu tempo de criança! As Igrejas coloniais superlotadas para as Missas de domingo. Até hoje gosto de entrar na Igreja lembrando o perfume das angélicas misturada ao incenso. Ainda ouço a voz do padre, rezando em latim, ecoando nas encruzilhadas do meu passado. Durante a Missa ou Adoração do Santíssimo Sacramento a magia dos santos me deixava completamente embriagada de misticismo. Lembro-me devota, com a cabeça coberta por lindo véu branco, acompanhando meus pais nas procissões. Ou no meio das meninas vestidas de anjo. Fui anjo de roupa azul e rosa com asas brancas. Não tinha procissão sem anjo. Fazia parte. Minha mãe de mantilha preta, dedilhando o  terço e meu pai segurando uma vela todos de branco em seu terno de linho. Durante o Natal havia Pastoral, onde as crianças vestidas de roupas típicas dos diversos países, em par, adoravam o Menino Jesus. Mas o sincretismo religioso estava sempre presente. Havia grandes terreiros em que nossa empregada cabocla,  no meio da noite para a madrugada, se unia, em surdina, aos irmãos do Tambor de Mina e Tambor de Crioula, religião afro-brasileira. O Maranhão foi importante núcleo de atração de mão de obra africana, sobretudo durante 1750 a 1850.As pessoas entravam em enorme transe de possessão. Certo dia implorei à moça que me levasse com ela para a festa do tambor, no que ela concordou. Pude então contemplar de perto, com os olhos cheios de surpresa e encantamento, a dança daquelas mulheres de saia de chita rodada, cantando misteriosas cantigas numa linguagem que eu não compreendia, girando ao som  das batidas dos tambores e cabaças, tocadas pelos homens. Tudo aquilo acelerava meu coração de menina, no meio da clareira no mato. Era um mundo fascinante! Guardo, com carinho, uma bolsa de fibra de buriti, que ganhei no terreiro do Tambor de Mina.  Não sabia o que contar à minha mãe quando me visse com a bolsa. Fibra de buriti até hoje é usada para produzir pelas artesanais como tapetes e chinelos. Assim como o Tambor de Mina, o Tambor de Crioula também se reúne em circulo e é de origem afroindígena, em homenagem ao santo negro São Benedito, muito venerado pelos católicos e umbandistas maranhenses. O toque pitoresco é que a mulherada de saia estampada e rodada, com torço nas cabeças, cumprimentam umas as outras pela “umbigada”. Quero dizer, batem com a barriga na que está no centro da roda, convidando-a a dançar.
Tambor de Mina
Ah!  São Luís! São Luís! Tive que deixa-la ainda menina, mas quando retornei há cinco anos atrás, me vi envolta pela mesma atmosfera de sonho e poesia que me viu nascer até  os oito anos de idade. Lá estão suas palmeiras, ladeiras e ruas com  nomes pitorescos como: rua das Flores, dos Enforcados, do Alecrim, da Alegria, da Saudade, etc. Creio que por isto o povo da Ilha tem uma espécie de nostalgia romântica e é profundamente sonhador! Como diz o grande poeta maranhense Gonçalves Dias:
               Em cismar, sozinho, à noite
               Mais prazer eu encontro lá;
               Minha Terra tem palmeiras,
               Onde canta o Sabiá
               Não permita Deus que eu morra,
               Sem que eu volte para lá;
               Sem que desfrutes os primores
               Que não encontro por cá;
               Por mais que eu tenha trilhado outros caminhos neste imenso Brasil, jamais a esquecerei, tão impressa se encontra em minha alma! Sempre a reconhecerei! Basta recordar o cheiro, sabor dos alimentos, colorido da paisagem, chuva quase de hora marcada, o sotaque tão familiar e, sobretudo o toque afetivo das pessoas.
 
 
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Artes e artes


Artes e artes faz cinco anos de idade!
Maria J Fortuna
Na verdade não sei como dei conta de mantê-lo por tanto tempo... Mas posso lhes dizer que nesses últimos anos este blog, além de proporcionar-me o aprendizado da disciplina, fez-me refletir imensamente ao reler o conteúdo de cada texto que me veio, mais das vezes, das veias do coração. Tive momentos de desânimo. Quase desisti de continuar. Afinal não deixa de ser um caminho muito solitário. No entanto expressar o que nos vai à alma ajuda-nos a exercer a liberdade de pensar, interpretar e transmitir algo, que julgamos especial para transmitir.
Contudo, como sou humana, gostaria que Artes e artes fosse mais dinâmico,  e recebesse comentários das pessoas que o visitam.  Pelas estatísticas, sei que foram muitos, mas sem interagir com uma pequena amostra que seja dos leitores, a sensação é de que fico ouvindo apenas o eco da minha própria voz interior. A solidão é legado dos que escrevem. Para a maior parte, é impossível saber da recepção de suas obras. Mas, como tudo tem dois lados da moeda, trabalhei bastante alguns momentos de  frustração, o que me foi bem positivo.
Mas os poucos comentários trouxeram-me alegria, sentimento de realização, novas amizades e vontade de melhorar.
Houve um momento em que fiquei pensando que, por se chamar Artes e artes, eu poderia pesquisar e noticiar o que anda acontecendo por aí em relação à grande família de escritores e artistas, mas como tenho inúmeras outras urgentes tarefas diárias, fica quase impossível.. Só vez por outra consigo.
Pensei em também postar as poesias que escrevo e guardo no baú da alma, mas são mais difíceis de serem lidas que crônicas e contos semanais. Eu compreendo. Também tenho dificuldades para ler poesias.  A não ser que alguém me recomende o autor. Ou, por um acaso, descubro algum  que acaba me seduzindo.
De qualquer forma agradeço as inúmeras visitas que Artes e artes têm recebido durante esses cinco anos, prestigiando seu existir Convidando-os a apagar, alegremente, as cinco velinhas!

Quem sou eu

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Sou alguem preocupado em crescer.

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