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domingo, 31 de março de 2013

Comentário de Maria do Céu Ripoli,

Uma das raríssimas pessoas que comentam minhas crônicas, está Maria do Céu Ripoli,amiga que considero filosofa nata. Todas as vezes que recebo um dos seus comentários, aprendo alguma coisa e reforço o que já sei. Não posso deixar de compartilhar com meus leitores, que são poucos mas assíduos, este último a propósito da crônica O falso e o verdadeiro:


Maria do Céu Ripoli, por email:
Muito linda e oportuna sua crônica O FALSO E O VERDADEIRO. Obrigada!
Uma “aula” leve e poética da Parábola do Joio e do Trigo, aplicada aos nossos dias.
Misturados, o bem e o mal tornam difícil, - para a maioria, ou para os que não gostam de pensar... ou os que não ligam para nada, - fazer a melhor escolha.
Vivemos em um mundo de gente cheia de noite nos olhos, um universo de escolhas trágicas que acabam por nos levar a situações parecidas como a ilusória fraternidade suicida dos átomos.

Resta torcer, rezar, escrever, “pregar” que existe a possibilidade de Luz, que o prazer barato e rápido não soluciona nada; que o consumo é como uma injeção de heroína entorpece e remete ao vazio...

Vale apostar na poesia, no amor, no sonho – ainda que utópico, cultivar a sensibilidade para não perder de vista a ESPERANÇA.!



FELIZ PÁSCOA, querida amiga!

Beijo de afeição fraterna, Cecéu.
31 de março de 2013 10:54
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sábado, 30 de março de 2013

O falso e o verdadeiro



Maria J Fortuna

“Os trabalhadores lhe perguntaram:
_ Senhor, queres que vamos, agora mesmo, arrancar o joio?
O senhor, porém, lhes respondeu com uma explicação:
_ Não é possível fazer isso agora. Vocês sabem que o joio é muito parecido com o trigo. Se vocês quiserem arrancar o joio, que foi plantado junto com o bom grão, arrancarão também o trigo, pois as raízes de ambos muitas vezes se entrelaçam. Deixem que cresçam juntos o joio e o trigo. Na época da ceifa, eu direi aos ceifeiros que colham primeiro o joio e o atem em feixes para queimá-lo; e depois juntem o trigo no meu celeiro.”
(Mateus, 13:24- 30, 36- 43)
Ai está a síntese de toda a dificuldade que temos em nossos relacionamentos, na forma de perceber e distorcer o que se nos apresenta, conforme a necessidade de sobrevivência material ou afetiva. Desde que crescemos, aí está o desafio que envolve nossas próprias emoções e sentimentos. O que é joio e o  que é trigo? Essa percepção e consciência da verdade são a base de nossas escolhas. E nossa vida depende delas. Jesus nos mostra isso nessa parábola. .
O que sentimos a respeito de nós mesmos? O que somos deixa- nos felizes  ou sabemos que não somos bem o que pensamos ser e tentamos ignorar? O que existe de trigo e de joio dentro de nós? A parábola diz que suas raízes se entrelaçam. Por isso fica difícil separar uma coisa da outra. Temos feito boa colheita do trigo que nos alimenta de verdade? Temos encarado o verdadeiro dentro de nós mesmos? E se admitimos que o joio tenha se espalhado, temos coragem de arrancá-lo por mais que cause dor? E se chegarmos à conclusão de que para louvar o trigo é necessário conservar o joio? O que é uma coisa ou outra? Sabemos distinguir bem? É complicado, admitamos.
Certamente o primeiro desafio é da percepção. Num mundo tão desfocado, que embala a mentira, como vamos proceder à colheita? Como disse Jesus, o joio e o trigo se entrelaçam...
Quando estamos diante de uma obra de arte não figurativa, por exemplo, o que daquele autor é trigo? Será que ele tenta nos iludir e seduzir com um punhado de formas e cores sem nexo? Ou tenta passar legítimos conceitos, intuições e sentimentos para os que contemplam seu trabalho? Será que preciso entender de arte moderna para saber se aquela obra é apenas joio? Ou o autor realmente não tem nenhuma intensão de ludibriar o espectador? Conheci um tapeceiro que ficou famoso na década de 70. Mas já não estava mais presente na elaboração do seu trabalho. Cheio de si, rabiscava o projeto de qualquer jeito e o entregava ás tapeceiras fiadoras. Sabia que os venderia pela sua assinatura. Ele era reconhecido! Muitos se orgulham, até hoje, de ter seu tapete em suas paredes. Que ficaram mais valorizados depois de sua morte. E aí?
A vida é o espaço que temos para sermos nós mesmos. Podemos ocultar dos outros o que realmente somos, mas não de nós mesmos. Só que no burburinho dos dias que passam apressados, pouco tempo temos para o mergulho em nosso interior. No núcleo da alma. Então ficamos na periferia do ser e dizemos ‘_” No fundo sei que não sou ou não quero isso ou aquilo.” Como é difícil a gente enxergar o óbvio! É preciso ser criança para entrar no reino dos céus, dizia o Cristo.
Hoje é sexta feira santa. O dia em que um homem foi crucificado por amor à verdade. Alguém que nunca se traiu. Que sabia Quem Era.. Hoje é o dia em que, junto a Ele, centenas de verdadeiros heróis de todas as raças, crenças e nacionalidades, morreram por serem coerentes consigo mesmos. Por defender sua ideologia, fé, ponto de vista filosófico ou científico. Negaram-se a ser como a grande maioria de pessoas, que julgam e maltratam o próximo com seu ódio e preconceitos. Por causa deles muitos foram presos, torturados, queimados em praça pública, difamados, vilipendiados e mortos.
Hoje é dia de contemplar a plantação de trigo em nossos corações e, se não der para retirar o joio, que pelo menos saibamos admitir a presença dele e cuidar para que não sufoque o trigo que há em nós. Porque ele é nosso alimento e esperança!

terça-feira, 19 de março de 2013

Maria do Carmo Secco

 Desenho da aluna  Rosana Diuana


Maria J Fortuna
Minha busca pelas artes me fez parar no Parque Lage, no Rio de Janeiro, onde funciona a Escola de Artes Visuais – EAV. Expliquei meu caso na Secretaria: -
- Quero ilustrar meus livros, falei.
– Ah! Vou encaminhá-la para Maria do Carmo, falou a mocinha sorridente.
Dia seguinte, estava eu ansiosa por conhecer a mestra e iniciar o aprendizado, quando avistei uma figura alta, franzina, com seus cabelos soltos, olhar ao mesmo tempo firme e doce e um sorriso inesquecível, apanhando sol antes da aula. Era minha futura mestra Maria do Carmo Secco, que me indagou o que eu ali buscava. Repeti o que havia dito na Secretaria. Então começou a  jornada rumo a meu objetivo.
Eram bastantes alunos em sala. De várias idades. Desde o adolescente fazendo vestibular ao ancião. Começamos com riscos soltos no papel-jornal. Senti que estava presa há muitos anos num desenho medroso, com poucas linhas, muito infantil, que não me levava a nada. Antes de abrir o coração para as cores na pintura, eu precisava deixar que a mão se soltasse no desenho. Era a proposta da Mestra. E esta seria a base de tudo. Foram longas horas de trabalho, para quem, displicentemente, brincava em querer fazer arte sem muito esforço. Na verdade eu não havia deixado de lado essa paixão antiga, mas com a vida difícil que sempre levei para sobreviver, tinha que estabelecer prioridades. É bem mais fácil escrever um texto que passar horas desenhando, pintando ou esculpindo. Mas no correr das horas, dias e meses, havia naquela sala de aula no Parque Lage, uma alma forte em sua aparente fragilidade, mostrando o caminho. Alguém com amor e muita paciência para conduzir e dizer ao aluno que o erro faz parte, que o trabalho em arte exige paciência, e que vale sempre a pena recriar. Dizia também que no meu caso, a indefinição por um estilo era boa, pois abre um leque maior de possibilidades para buscar, pesquisar, experimentar. Foi assim que compreendi seus ensinamentos.

Desenhamos, entre outras coisas, cento e vinte árvores. A criatividade foi estimulada como se abrisse uma caixa de surpresas cheia de longos caracóis dourados, pós de borboleta, segredos recortados, colados e revelados. Arriscávamos lançar as sementes de uma nova figura a cada momento. Cobríamos papeis-jornais de arabescos dos mais variados, na viagem interior de cada um pela fantasia. Alguns descobriam estilo. Maria estava ali, proporcionando toda aquela liberdade de criar, vigilante para saber onde cada um chegaria e lembrando-nos as regras do desenho e das cores. Foi difícil para mim deixar o modelo referencial da árvore. Tão difícil quanto esquecer o marrom na pintura. Parece que suprimindo essa cor da terra, a gente fica no ar, insegura para se lançar em traços e pinceladas mais soltas que podem trazer pensamento e sentimento entrelaçados.
Outra característica da Mestra era a aceitação do aluno trançada no acolhimento. Ela era a única professora do Parque Lage que aceitava alunos especiais.  Para todos a mesma dedicação. Com a notícia do seu afastamento por recomendação médica, fiquei pensando de como seria para nós e, particularmente para aqueles alunos, ficar sem aquela querida presença.
Neófita no mundo das artes plásticas, não ouso falar ou escrever sobre a obra de Maria do Carmo Secco. Posso apenas me encantar e deixar que críticos abalizados falem por mim. Ano passado, fui a uma de suas exposições e me perdi em suas retas, na harmonia de suas cores e na profundidade do movimento de suas telas. Além de ficar muito tempo parada, tentando perceber as colagens que tanto me intrigaram e mergulhar nas grandes telas com sua pintura. Finalmente, fiquei diante de uma de suas colagens que, não havia dúvida, expressava tudo o quanto eu queria dizer num poema escrito há alguns anos. Havia sintonia entre sua obra e aquele poema.

Sinta-se à vontade
sol que penetra nas fendas
da porta lacrada por meus sonhos
Hoje te dou bom dia!
De braços aberto
rompo a túnica do silêncio...

Quando sorrateira
a noite se arrastar
Trarei a donzela inocência
Com vestido bordado de raios de lua
levando a lua mãe consigo
E tu te casarás com ela


Li uma crítica interessante de autoria de Fernando Cocchiarale a respeito da obra de Maria do Carmo Secco, há algum tempo atrás, onde estava escrito que “a articulação entre desenho e pintura é não só uma decorrência lógica em seus trabalhos como também a questão central de sua obra”. Mais adiante ele escreve: “Percebe-se claramente o que é pintura e o que é desenho, que coexistem articulados sem que um suprima o outro. E prossegue adiante: (...)” Nas pinturas agora apresentadas, culmina um processo de transformação da obra” dessa imensa artista , com seu amor, talento e dedicação. Era o que sempre ela nos recomendava: trabalho e mais trabalho. Continuando, Cocchiarale acrescenta: “Na proposta anterior, cujo núcleo consistia na discussão da relação desenho/pintura, a artista muitas vezes desenhava sobre tela. Agora aparece um caminho pictórico que se tangenciam na busca de um contato questionador o que claramente a afasta dessa discussão. Espaços possíveis – reais “
Naquela última exposição de 2012, ela mostrou a síntese do seu trabalho em longa jornada. Fruto de escolha corajosa ao se decidir pelas artes plásticas. Guerreira dos anos 60, quando participou do movimento modernista Tropicália, que influenciou as artes plásticas naquela época. Passado dez anos, utilizando o desenho como meio de expressão, retorna em 1980 à pintura interrompida desde o final dos anos 60. Breve teremos uma exposição retrospectiva de suas obras.

Quando pensei em escrever esta crônica, partilhei meu desejo de expressar reconhecimento e gratidão pelo tanto que recebemos.  Alguns dos  seus ex alunos  com quem tenho ainda contato, mostraram  interesse e a ideia foi alvo de grande aprovação.  E todos reconhecem o privilégio de terem sido discípulos desta Mestra tão especial em respeito, carinho e competência.


quarta-feira, 6 de março de 2013

Conchas e lembranças...



  Maria J Fortuna
Como milagre, as marés chegavam manhosas e frescas à praia de São José de Ribamar, no Maranhão. Era lá, frente ao mar a céu aberto, que eu costumava correr e brincar de cavar poços de  onde, no fundo das escavações minava água, e a construir castelos que mal duravam cinco minutos. Na maioria das vezes eu estava sozinha. A não ser que surgisse no poço um pequeno caranguejo amarelo que não chegava a assustar. Por isso mesmo era fácil fantasiar sobre a espuma das águas que rendavam a borda das ondas. Eu via filhotes de sereia que se escondiam ao movimento delas, assanhadas pelo vento. Havia um rastro de amor divino a cada passo que meus pezinhos molhados davam, quando eu procurava o maior tesouro do mar: as conchas. De preferência aquelas fechadas, onde morada de alguma lesma que as arrastava como casa. Alguma era grande suficiente para que eu a colocasse nos ouvidos e escutasse o canto do mar. As crianças desconhecem o tempo... Por isso, mesmo uma menina solitária como fui, descobre joias no meio de suas fantasias e, com isso, se torna momentaneamente feliz. Havia muitas conchinhas coloridas de vários formatos e desenhos. Isso era o que eu podia imaginar de fantástico! Já tinha em casa uma coleção delas. Mas sempre encontrava outras e mais outras desenhadas de forma diferente. O mar era um grande artista! Preferia aquela fechada que interpretava como mansão do segredo. Era pequena, para comportar tão imenso som redondo! Misterioso também era o destino do bicho que a habitava. Por que teria abandonado sua casa? Onde andava agora sem nada para protegê-lo? Será que havia retornado ao mar? Ou fora engolido por algum peixe? E por que a concha reproduzia tão fielmente o som das marés? Tudo soava como enigma com cheiro de maresia...
As boas lembranças moram na concha do coração. Não há como não sentir o mesmo som, a mesma música e perfume, quando nos aconchegamos ao eco dos bons momentos. Tão invisíveis e tão presentes!
            Tal como no caso da concha, temos nossa mansão de segredos! Sua existência só é revelada através do olhar. Uma forma de expressar tristeza e plenitude que a gente traz dentro de si quando recorda. Na magia do seu eco, figuras amadas e curtidas reaparecem, todas as vezes que, com o impulso das ondas, a memória resgata. Assim como as marés que se vão e voltam, a cada lua cheia. Não há necessidade de proteção para as boas lembranças. Ninguém nos ameaça quando tudo já se passou. Resgatamos o som maravilhoso que um lugar, sem espaço e fora do tempo onde o mar cresce e se torna ainda mais imenso! Faz reaparecer o eco das conchas, contendo a voz das lembranças escondidas no mistério. Talvez por isso, Botticelli, que viveu à beira-mar em Portovenere, pintou O Nascimento da Vênus que emerge de uma concha empurrada pelos ventos. Para muitos autores é a representação da paixão espiritual, que nada tem a ver com sua nudez.
Cada um de nós tem suas conchas. Até o dia em que elas se quebrem, o que é difícil, pois são muito resistentes! Aí outros  pezinhos molhados pelo mar, irão encontrá-las e ouvindo  sua música,  recomecem a brincar com suas fantasias ... Então o mar e a vida se renovam.

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Sou alguem preocupado em crescer.

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