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sexta-feira, 27 de junho de 2014

A dentadura de Joaquim - Capítulo 3



Passado menos de uma semana, DoMaria recebeu um telefonema do Hospital Imaculada. Era a respeito de Joaquim. A Assistente Social responsável por seu caso naquele Hospital participava que sua dentadura havia sumido e ele solicitava outra.  Ninguém dava notícia de onde estava a recém-adquirida prótese. Procuraram por toda a enfermaria! Joaquim estava inconsolável!
DoMaria requisitou transporte para visitá-lo. Chegou a  sua enfermaria na hora da medicação dos clientes daquele Hospital.   Joaquim estava moquecado num canto do corredor com a cara emburrada.  Ao ver sua já querida Assistente Social esboçou um sorriso de esperança!
- DoMaria, estou no inferno sem minha dentadura. Não alembro onde foi que ela foi parar. Se minha dona já me viu com ela, o que vai sê de mim sem ela? Indagou com a voz meio embolada, já que havia tomado psicotrópicos para amenizar os efeitos do Trecator.
- Bem Joaquim, se não aparecer mesmo, a gente tem que esperar um pouco para conseguir outra, disse DoMaria, carinhosamente. E continuou: - Agora fique tranquilo. Você vai voltar para o Hospital Julia Kubistchek logo que estiver melhor e a gente vai conversar a respeito.
- Tá bom, mas a senhora me promete mesmo? Indagou aflito.
- Vou fazer todo esforço para conseguir outra, afirmou a moça.
Realmente teria que fazer um longo relatório mencionando o acontecido e justificando a atitude do paciente, com embasamento no atestado do psiquiatra responsável pelo caso, para fazer outra solicitação. Era um pouco complicado já que o primeiro pedido tinha sido recente.  Mas o mistério do desaparecimento da dentadura continuava. Atendentes, auxiliares de enfermagem, pessoal da limpeza, enfermeira, médico, ninguém sabia o que Joaquim havia feito para aquela engrenagem bucal cheia de dentes sumir. Afinal se tratava de uma doação cara  que outros pacientes estavam na fila solicitando. O jeito era aguardar mais um pouco até que alguém  que tivesse  alguma  pista desse uma notícia.
Passaram-se três meses, quando Joaquim voltou ao Hospital Julia Kubistchek. A Assistente Social  disse-lhe da dificuldade que estava encontrando para a concessão de nova prótese, porque realmente sem justificar o que ele havia feito com a mesma, ficaria uma lacuna no relatório, além de comprometer a administração do Hospital Imaculada, o que ela não queria que acontecesse. Em várias entrevistas com o paciente a resposta era a mesma:
- Não sei mesmo, DoMaria, onde botei o trem...
Uma tarde daquele verão quente,  um novo telefonema do Hospital Imaculada dando noticias recentes de um fato que envolvia Joaquim: No prontuário da primeira enfermaria de onde ele havia chegado naquele dia fatídico, estava escrito: O paciente Joaquim da Silva, que deu entrada nesse nosocômio em crise psicótica jogou sua dentadura no vaso sanitário e deu descarga. Assinado:  Auxiliar de Enfermagem Valfrido Sitardino, que logo em seguida ao fato, soubemos que foi transferido para um Centro de Psiquiatria no bairro Padre Eustáquio. E devido à transferência do paciente para outra enfermaria, ninguém mais havia lido o prontuário.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A dentadura de Joaquim - capítulo 2








              A dentadura de Joaquim estava a caminho... 

Já havia se passado três meses quando a Chefe de Enfermagem mostrou à Assistente Social o prontuário do paciente em questão, onde estava escrito:
- Primeira prova da prótese ortodôntica do interno Joaquim Silva, da Ala H, no consultório dentário da Ala B.
Feliz com essa concessão, DoMaria, como chamava o Joaquim,  foi à enfermaria   onde o mesmo se encontrava,  participar-lhe  a grande notícia
            A Assistente Social há muito não via uma pessoa tão alegre!
- Êta, DoMaria, eu nem credito nisso que tá aconteceno...Ô trem bão!

No dia seguinte chegou à sala dizendo que o dentista havia prometido que a prótese ficaria pronta na outra  semana .

- DoMaria, quero vê só a cara da minha dona! Falou com um sorriso misterioso deixando à mostra as gengivas, que brilhavam de tanto que salivava, como se tivesse pensando numa comida gostosa.  E expressou sua profunda reflexão concluindo:
 - Percisava deu interná pra mode ganhá uma dentadura...
A semana se passou rápido, quando a porta da sala cheia de samambaias da Assistente Social se abriu, e esta se deparou com uma das figuras mais estranhas que até então havia  visto!  Quase desconheceu Joaquim em seu novo visual!  Por causa do  rosto fino e magro do moço,  os dentes pareciam enormes e muito mais numerosos que a arcada humana comum. Com muita dificuldade procurou rapidamente palavras que pudessem dar-lhe uma boa impressão do que sentia em relação ao que acabava de ver e acabou dizendo:
- Que beleza Joaquim,  está quase chegando o dia  de  surpreender  sua esposa!
- É messss. Será que ela vai gossstá DoMaria? Indagou indeciso.
O que havia acontecido foi que quando falava palavras com a letra “s” saía um ligeiro som de apito. Perturbava quem ouvia, mas não Joaquim, que parecia que em pouco tempo havia se acostumado com aquele estranho som.
E  assim ele se foi para passar o domingo com a família. Mas quando voltou da tão esperada visita,  chegou com febre e positivou o escarro. Havia se tornado novamente foco de contaminação. Nem teve tempo de contar para sua benfeitora o que havia acontecido em sua casa. Falar de como tinha sido a surpresa pra sua mulher, nada, nada!
Na segunda feira, após a consulta de rotina com o médico, acompanhado da enfermeira, sua medicação foi modificada para a terceira linha de tratamento. Havia na época saído um remédio que abreviava a presença do paciente no hospital, mas era fortíssimo! Só tomava o medicamento aquele que se encontrava sem resposta para o tratamento de primeira e segunda linha. Era chamado Trecator e causava alucinações e surtos repentinos para os que  eram mais sensíveis a sua fórmula. Infelizmente foi o caso de Joaquim.
Depois de uns três dias, quando a Assistente Social passou por sua enfermaria, viu o pobre homem esperneando para não tomar uma injeção, segurado  por dois possantes atendentes de enfermagem.      As dentaduras superior e inferior pareciam castanhola abrindo e fechando, batendo os dentes e Joaquim gritando, muito louco, que queria ir embora do hospital.  Negava-se a tornar ser espetado pela agulha do medicamento que o auxiliar de enfermagem queria aplicar. Então ela, sua Assistente Social  resolveu intervir. E com a doçura que não cabia naquele momento, disse confiante em si mesma:
- Joaquim, dê-me sua mão. É para o seu bem!
-  Não dou nada procê  DoMaria, não dou mão,  não dou pé, não dou cabeça, não dou nada procê! Gritou esbaforido de tanto fazer força para se libertar dos homens que o segurava.
Aí tiveram que chamar a ambulância para que ele fosse ser tratado no Hospital Imaculada Conceição, que tinha enfermaria para pacientes com diagnóstico de doença psiquiátrica.
A  Assistente Social, com tristeza, ouviu quando a ambulância se distanciou com seu alarme ligado levando Joaquim totalmente dopado.

 

 

(Na próxima semana o restante do conto)

domingo, 8 de junho de 2014

A dentadura de Joaquim


 
 

Maria J Fortuna

 

Naquele fevereiro de 1964, Joaquim chegou ao Hospital Júlia Kubistchek em Belo Horizonte, atacadíssimo pela tuberculose. Ele era mulato feioso e magrinho feito vara de bambu, desdentado como criança recém-nascida, mas tinha sempre um sorriso na beiçola, e com isso era por demais simpático e comunicativo.

Todos os dias, após tomar a medicação, alguns pacientes do Hospital faziam uma filinha na porta da Assistente Social reivindicando algum auxílio em forma de conversa para acalmar angústia que trazia a internação hospitalar por meses, ou para serem encaminhados a algum setor como Escola, Alcoólicos Anônimos, Laborterapia, Psicologia ou algum outro recurso qualquer. Às vezes o pedido era para visitar a família ou  conseguir alguma órtese ou prótese como muletas, perna mecânica, cadeira de rodas, dentadura, etc.  Havia uma verba destinada  pelo INPS da época para essas concessões.   Foi o caso de Joaquim.

A Assistente Social que atendia  os  pacientes era muito jovem, magrinha, carinha de criança, mas muito querida e respeitada por seus 80 clientes da Ala masculina do nosocômio. 

- DoMaria ( que quer dizer dona Maria) eu vim aqui pro mode a senhora deixá eu ir em casa visita minha familha, pediu Joaquim.

- Não posso permitir Joaquim, porque em seu prontuário consta que você está com exame de escarro positivo e assim poderá contaminar  sua mulher, filhos, vizinhos. Terá que esperar um pouco.

- Mas DoMaria quando eu digo que perciso é porque tô carecendo muito, falou recolhendo o sorriso na boca desdentada.

- Quem sabe no próximo exame, Joaquim, quando negativar seu exame de escarro.

- DoMaria quando digo que perciso é porque perciso, insistiu.

- Mas pense bem, o médico não lhe explicou como acontece a contaminação?

Nisso chega o médico, afobado para ir embora após sua jornada no Hospital. Ao vê-lo Joaquim se iluminou!

- Doutô, chegue aqui por favô.

- Sim, Joaquim, o que está havendo?

- DoMaria não quer deixá eu ir em casa... O senhor sabe doutô, o senhô é home e DoMaria uma mocinha, não posso falar certas coisa prela.

- O quê Joaquim? Indagou o médico apressado.

- Ela não sabe que perciso  molhá o biscoito!

A Assistente Social não conseguiu segurar a risada que foi  acompanhada pelo médico.

Não havia passado uma semana Joaquim estava parado na porta da Assistente Social novamente.

- E então Joaquim, sabe que agora você pode ir a sua casa? Está tudo bem com seus exames.

- DoMaria eu andei pensando... Queria fazer uma surpresa pra minha dona, falou encabulado.

- Diga, Joaquim

- Queria que a senhora me desse uma dentadura.

- Sim Joaquim, é possível providenciar. Só que vai demorar um pouco.

- Percisa agora não, DoMaria. Isso minha dona pode esperá.
 
(A história da dentadura de Joaquim vai ficar para a próxima semana)
 

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