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sábado, 24 de janeiro de 2015

Luzes acesas


 
Maria J Fortuna
 
 
São tantos acontecimentos tristes nos últimos tempos... O que constitui na verdade a cultura de um povo? Por que as pessoas estão por demais submissas a credos e dogmas? Por que a falta de questionamento interno e obediência tão cega ao que vem de fora? E a capacidade de ouvir a voz interior, o coração, onde está? Será fruto do medo o que estamos presenciando em relação aos atentados que acontecem com tanta frequência pelos Estados Unidos e Europa? Aos horrores do Oriente Médio? Medo de perder a identidade cultural, respondendo com ódio de morte ao que é considerado blasfêmia? Por que tanta provocação? Interesse da indústria de armamento?
 Lembro-me que em minha formação católica de berço, algum tipo de dúvida e  descrença era considerada sacrílega. Isso incluía questionar a respeito dos valores religiosos ou dogmas da Igreja, o que nos levava à punição de ficarmos excluídos de receber a Comunhão, isto é, Jesus em corpo e alma na Hóstia Consagrada! Tínhamos pesadelos horríveis se comungássemos sem antes termos passado pelo confessionário.  Pagaríamos o “pecado” indo direto para as labaredas do inferno. As freiras contavam histórias horrorosas dos que cometeram tal sacrilégio! Espírito das pessoas que voltavam e deixavam marcas de mãos queimadas nas paredes da Igreja, frade que submergia da terra ao ser enterrado, para que lhe tirassem da boca a hóstia que não havia merecido comungar. Espíritos  que não permitiam que a Missa fosse rezada por eles porque “já estavam perdidos...” Um horror! Ao mesmo tempo, quando crianças, tínhamos medo dos judeus que mataram Cristo e olhávamos com reprovação, os evangélicos que celebravam seu culto em frente a minha casa e  ainda dos espíritas que recebiam a alma dos mortos. Tudo isso nos foi ensinado.
Quando saí de casa aos 22 anos, sacudi um pouco a poeira da religião que me fora imposta, mas o medo do inferno continuava... Então, passei uma grande fase da minha vida ouvindo as pessoas, aproximando-me das outras crenças, entrando em outros templos e me tornei irmã de alguns budistas, evangélicos, messiânicos, judeus, espíritas, etc...  Dentre todas, a mais perturbadora presença para mim era a do ateu.  Era algo desconcertante não crer em Deus!  Mas me refiro ao ateu legítimo! Não o que considera “a religião o ópio do povo”, por modismo, nem do que faz do ateísmo outra religião, depreciando a fé dos outros, mas aquele pacífico, tranquilo, como foi Betinho em sua jornada contra a fome, como Dráuzio Varella, médico muito lúcido que publicou um livro surpreendente sobre os prisioneiros aos quais dava assistência. Causavam-me estranheza.  Hoje em dia os compreendo e aceito com tranquilidade.
Por causa dessas convivências, os preconceitos começaram a caducar dentro de mim  porque tornei-me autocrítica e  capaz de perceber esse mundo muito louco com os olhos da compaixão.  Não digo a grande Compaixão de Cristo, Buda, Maomé e outros iluminados, mas aquela que procura compreender o outro em seu código. Contanto que a linguagem seja amorosa.   Este foi o grande ganho que obtive ao sair do meu lar católico, onde exceto a presença da minha mãe, sempre doce, havia sérios conflitos  entre pai e filhos. Motivo pelo qual migrei para outro Estado.
Mas a mudança que se operou dentro de mim foi bem maior que tudo isso. Passei a sentir e valorizar o que têm em comum as diversas religiões,  como a sentir que só no núcleo do meu ser, no centro da grande mandala, ocupada por todas elas,  posso encontrar-me plenamente com Ele, o Cristo.  De tal forma internalizado que  só nesse colóquio único e verdadeiro,  chego à  caverna do coração onde, como diziam os sufis, a alma, nobre dama, toma o vinho do amor com seu Amado.  
Gosto sim de participar de rituais das várias religiões por causa da oração em conjunto, da energia que vem da comunhão entre elas, do significado de cada gesto. Aprecio o Papa Francisco, Dalai Lama e outros seres a caminho da iluminação. No entanto, sinto que minha fé é solitária. Mais solitária ainda que a de Charles de Foucauld no deserto, em frente ao Santíssimo Sacramento.
É muito bom destituir-se de todo e qualquer preconceito, vestir uma túnica branca, ficar descalço e penetrar no templo que fica no interior de si mesmo e sentir a Luz que dele emana para todos.  Sentido uma vela acendendo outra vela no que têm em comum e comungar da mesma Luz que ilumina a todos  os corações, sem distinção de raça, gênero ou religião.
 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Aos leitores de Artes e artes


Queridos leitores,
 
Finalmente estou de volta. Problemas pessoais e de pessoas a quem amo, necessitaram da minha presença esses últimos meses. Além do que fiquei sem minha máquina por muito tempo. Mas ai está o que lhes prometi: escrevi com muito carinho sobre a artista plástica Elis Pinto, por quem tenho grande admiração.
Espero que neste ano a participação dos leitores e dos que seguem Artes e artes , seja maior. Em presença, comentários e tudo o mais.

Elis Pinto e as mulheres




 

 
 
 

Maria J Fortuna

 

Quando conheci a obra de Elis Pinto no Parque Lage, a princípio senti certa estranheza, pelo fato de até então ainda não ter visto pinturas retratando, com tanta força, o lado agressivo da mulher. Algo que parecia uma quebra da sagrada imagem do feminino de outrora. Foi impactante, porque na grande maioria das pinturas que dantes eu havia conhecido, a mulher era representada apenas em seu lado santo, maternal, amoroso ou erótico.  Outras imagens íam para outro extremo: a presença do feminino apresentada em forma de demônios ou bruxas. Algo completamente desumano.

Eu, mulher vivida, juventude na década de 60, onde se inicia o movimento feminista, a liberação sexual da mulher com o aparecimento da pílula anticoncepcional, vivenciando dias cinzas na ditadura militar, em plena geração Woodstook , leitora das colunas e livros trepidantes de Rosie Marie Muraro e de Heloneida Studart , ainda não havia me deparado com pinturas em que a mulher fosse retratada  em seu lado  agressivo, com facas e revólveres e expressão de vingança! A propósito, procurei no Google “Pintura de mulheres violentas.” Aí me apareceu “Pintura de mulheres violentadas...”  Ou seja, a sociedade vê sempre a mulher frágil, susceptível à agressão dos outros,  incapaz de qualquer tipo de revide ou violência. Ainda vista como necessitada  do homem para livrá-la de  situações de abuso.

Elis Pinto vai resgatando a sombra da mulher em cada uma de suas obras. O tão necessário negativo que nela existe, para que haja a síntese bem x mal,  formadora de qualquer  criatura humana.
 

Tecnicamente não tenho condições para avaliar sua obra, apesar de senti-la intensamente forte e bela, mas o que posso falar se limita ao  representativo que  ali está. E como a sinto. Contemplo a força da pincelada e a feliz escolha do tema e das cores. Em cada uma delas que se inicia,  eu a vejo  lançando-se com tudo ao desafio, no calor da paixão, tão necessária na formação do artista.

             A artista Elis, cujo nome é Elisangela Pinto dos Santos, contou-me que aprendeu a sentir a arte ainda em criança,  na convivência com a mãe que trabalhava com artesanato. Seu pai era pintor de parede, de onde da combinação desse colorido artesanato x pintura veio o talento de Elis, que começou como autodidata,  usando como até hoje somente a imaginação para traçar seus desenhos e se lançar à pintura. Mais tarde ingressou no Parque Lage onde continua com as aulas dos Prof. Luiz Ernesto e Chico Cunha. Casou-se com o cineasta Vicente Duque Estrada, seu grande incentivador,  e tem um filho de três anos – o Vítor.

Na série de pinturas que se intitula Elas também matam, procura desmistificar o que a sociedade faz em relação às mulheres que não tem a ver com o feminino em sua essência, mas com a igualdade entre os gêneros.  Bons e maus todos nós somos, independente do gênero. Invoca o  catolicismo com suas rígidas regras.Lembra as “santas de pau oco” em sua tela Ascention,  representando o tema que vai contra as regras rígidas da Igreja Católica sobre a mulher, em uma  de suas exposições que  chamou Elas também vão para o céu.
 
 

Procura, então, resgatar a autoconfiança feminina, experimentando fantasias e  denunciando o sexo desejado, mas reprimido, questionando ideias machistas. Em sua obra, a gente sente a transparência da mulher rebelando-se contra o passado de ser “objeto de cama e mesa”, apesar de que muitas  sustentam a casa e criam o filho como machão, como diz Elis.

 A artista nos diz que cada vez que expõe, mais observa o que faz. Em sua experiência   busca texturas numa mesma tela. Um comprometimento com os direitos de ser mulher com liberdade absoluta de expressão.
 

                 Tem feito várias exposições. Como por exemplo no Armazém Cultural, Cine Clube de Caxias, Sesc, em São João do Meriti, etc.

                  Fiquei imensamente satisfeita de ter o privilégio de conhecer Elis Pinto e presenciar nos corredores do Parque Lage,  a luta corporal com suas grandes telas,  para objetivar sua proposta de humanização da mulher, resgatando-a de uma imagem caduca em que a sociedade ainda a vê.

Quem sou eu

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Sou alguem preocupado em crescer.

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