domingo, 1 de fevereiro de 2015

Quem tiver no Rio de Janeiro, não perca!

Espaços Culturais

Kandinsky: Tudo Começa num Ponto

 
  
 
A mostra, inédita na América Latina, revela as ideias do artista abstracionista. Organizada em cinco blocos, a mostra exibe também obras de outros artistas, que influenciaram e se relacionaram com Kandinsky. Entre os blocos, o público poderá observar as raízes de sua obra em relação à cultura popular russa, o universo espiritual do xamanismo no norte da Rússia, a experiência do artista na Alemanha...  mais
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De 30/01/2015 até 30/03/2015






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O quarto assombrado

Do filme Sombras da Noite
 
Maria J Fortuna
 
Moro num apartamento em um prédio que tem mais de 60 anos, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Na época da sua construção, eu era ainda criança. Lembro-me da alegria do simpático português que se casou com minha tia, ao ver o edifício quase concluído. Casaram tarde em idade para a época.  O certo é que a construção ainda não estava pronta para ser habitada, quando o consorte da minha tia morreu. Infarto fulminante! Dizem as más línguas que foi por contrariedade porque minha tia não apreciava as relações conjugais. Mas outros disseram que foi pelo esforço de subir as escadas do prédio ainda sem elevador, por várias vezes durante a semana.  Esse esforço era pra ver como ia o acabamento da obra. E talvez sonhar com o dia da mudança. O certo é que o português foi-se, com menos de um ano de casado com minha tia.   A escritura do imóvel demorou  a sair com sua morte, e por algum tempo esta dificuldade se prolongou, causando mal-estar em toda família. O apartamento ficou com maus fluidos, diziam alguns. Muito pesado, diziam outros. Não moro lá de jeito nenhum, falavam os que conheciam a história do mesmo.
Bem, mas voltando ao apartamento,  naqueles idos anos de 50,  uma vez pronto para ser habitado, mudaram-se para o imóvel, novinho em folha,  as três tias: a mais velha com mais de sessenta anos, também viúva, cujo marido havia deixado esse mundo de forma duvidosa:  ninguém ficou sabendo se fora assassinado pela tripulação do navio, que conduzia com mão de ferro, ou havia se suicidado. A primeira hipótese é a mais provável porque, segundo contam, ele era bem carrasco com seus comandados. A outra tia, solteirona, trabalhava nos Correios e Telégrafos, e tinha um velho namorado com quem ficava conversando no banco da praça, de mãos dadas, como se tivesse quinze anos.  Finalmente a viúva do português com quem viveu apenas nove meses.
Durante esses anos de vida no 602, as tias viveram bem. De vez em quando pintava  disputa afetiva entre as irmãs mais novas, que queriam ser preferidas da mais velha, mas nada grave. Depois de certo tempo, a tia solteirona teve um câncer no estômago e veio a falecer prematuramente. A mais velha, amorosa e saudosa da irmã, despediu-se dessa vida logo depois, com a mesma doença, ficando a mais nova sozinha no apartamento. Mas não por muito tempo. Apareceu outra irmã solteirona, professora aposentada e mais velha, que foi entrando e se aboletando no apartamento sob os protestos da tia solitária. Essa viveu alguns anos com a irmã e faleceu aos 102 anos de idade por causa de uma pneumonia.
Foi aí que eu entrei na dança. Vim morar com a tia sobrevivente, que agora está com 104 anos. Durante os treze anos em que estou vivendo no apartamento, nunca dormi no quarto grande da casa onde moraram as tias que se foram...  Como acompanhei de perto a dor e agonia dessas pessoas ali entre as quatro paredes daquele cômodo, as lembranças ficam muito vivas quando ali penetro e não consigo dormir. Lembro-me da fala de uma, o andar da outra, os gestos e até o olhar das três. Preferi então ampliar o quartinho da empregada e morar ali. Até que chegou o verão 2015! O quartinho não tem ar refrigerado e o ventilador de teto não é o suficiente para espantar o tórrido calor que se fez sobre o Rio de Janeiro. Resisti o que podia! Fiz tudo para não dormir no quarto em que viveram minhas antepassadas... Mas  lá tem ar refrigerado!  Achei melhor então fazer balanço das qualidades e virtudes de todas elas. Procurei sentir a afetividade com que me envolviam desde que nasci. O carinho, o cuidado, as gentilezas. A bondade que existia no coração de cada uma. Como eu e meus irmãos fomos ajudados por aquelas criaturas! Bobagem pensar apenas no lado do sofrimento; elas viveram bem à moda delas... Eram pessoas doces.
Na primeira noite foi difícil, confesso. Mas a partir da segunda o ambiente foi ficando mais leve. Afinal, ter passado para o outro lado da vida não quer dizer que deixaram de me amar e quem sabe têm agora, sem seus corpos, outra forma de estar presente amorosamente ou nunca mais vieram por ali, o que é mais provável. No mais o que elas fariam entre quatro paredes com todo o espaço para voarem livres e soltas?
Ah! Calor do Rio de Janeiro faz a gente superar até medo de fantasma!

sábado, 24 de janeiro de 2015

Luzes acesas


 
Maria J Fortuna
 
 
São tantos acontecimentos tristes nos últimos tempos... O que constitui na verdade a cultura de um povo? Por que as pessoas estão por demais submissas a credos e dogmas? Por que a falta de questionamento interno e obediência tão cega ao que vem de fora? E a capacidade de ouvir a voz interior, o coração, onde está? Será fruto do medo o que estamos presenciando em relação aos atentados que acontecem com tanta frequência pelos Estados Unidos e Europa? Aos horrores do Oriente Médio? Medo de perder a identidade cultural, respondendo com ódio de morte ao que é considerado blasfêmia? Por que tanta provocação? Interesse da indústria de armamento?
 Lembro-me que em minha formação católica de berço, algum tipo de dúvida e  descrença era considerada sacrílega. Isso incluía questionar a respeito dos valores religiosos ou dogmas da Igreja, o que nos levava à punição de ficarmos excluídos de receber a Comunhão, isto é, Jesus em corpo e alma na Hóstia Consagrada! Tínhamos pesadelos horríveis se comungássemos sem antes termos passado pelo confessionário.  Pagaríamos o “pecado” indo direto para as labaredas do inferno. As freiras contavam histórias horrorosas dos que cometeram tal sacrilégio! Espírito das pessoas que voltavam e deixavam marcas de mãos queimadas nas paredes da Igreja, frade que submergia da terra ao ser enterrado, para que lhe tirassem da boca a hóstia que não havia merecido comungar. Espíritos  que não permitiam que a Missa fosse rezada por eles porque “já estavam perdidos...” Um horror! Ao mesmo tempo, quando crianças, tínhamos medo dos judeus que mataram Cristo e olhávamos com reprovação, os evangélicos que celebravam seu culto em frente a minha casa e  ainda dos espíritas que recebiam a alma dos mortos. Tudo isso nos foi ensinado.
Quando saí de casa aos 22 anos, sacudi um pouco a poeira da religião que me fora imposta, mas o medo do inferno continuava... Então, passei uma grande fase da minha vida ouvindo as pessoas, aproximando-me das outras crenças, entrando em outros templos e me tornei irmã de alguns budistas, evangélicos, messiânicos, judeus, espíritas, etc...  Dentre todas, a mais perturbadora presença para mim era a do ateu.  Era algo desconcertante não crer em Deus!  Mas me refiro ao ateu legítimo! Não o que considera “a religião o ópio do povo”, por modismo, nem do que faz do ateísmo outra religião, depreciando a fé dos outros, mas aquele pacífico, tranquilo, como foi Betinho em sua jornada contra a fome, como Dráuzio Varella, médico muito lúcido que publicou um livro surpreendente sobre os prisioneiros aos quais dava assistência. Causavam-me estranheza.  Hoje em dia os compreendo e aceito com tranquilidade.
Por causa dessas convivências, os preconceitos começaram a caducar dentro de mim  porque tornei-me autocrítica e  capaz de perceber esse mundo muito louco com os olhos da compaixão.  Não digo a grande Compaixão de Cristo, Buda, Maomé e outros iluminados, mas aquela que procura compreender o outro em seu código. Contanto que a linguagem seja amorosa.   Este foi o grande ganho que obtive ao sair do meu lar católico, onde exceto a presença da minha mãe, sempre doce, havia sérios conflitos  entre pai e filhos. Motivo pelo qual migrei para outro Estado.
Mas a mudança que se operou dentro de mim foi bem maior que tudo isso. Passei a sentir e valorizar o que têm em comum as diversas religiões,  como a sentir que só no núcleo do meu ser, no centro da grande mandala, ocupada por todas elas,  posso encontrar-me plenamente com Ele, o Cristo.  De tal forma internalizado que  só nesse colóquio único e verdadeiro,  chego à  caverna do coração onde, como diziam os sufis, a alma, nobre dama, toma o vinho do amor com seu Amado.  
Gosto sim de participar de rituais das várias religiões por causa da oração em conjunto, da energia que vem da comunhão entre elas, do significado de cada gesto. Aprecio o Papa Francisco, Dalai Lama e outros seres a caminho da iluminação. No entanto, sinto que minha fé é solitária. Mais solitária ainda que a de Charles de Foucauld no deserto, em frente ao Santíssimo Sacramento.
É muito bom destituir-se de todo e qualquer preconceito, vestir uma túnica branca, ficar descalço e penetrar no templo que fica no interior de si mesmo e sentir a Luz que dele emana para todos.  Sentido uma vela acendendo outra vela no que têm em comum e comungar da mesma Luz que ilumina a todos  os corações, sem distinção de raça, gênero ou religião.
 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Aos leitores de Artes e artes


Queridos leitores,
 
Finalmente estou de volta. Problemas pessoais e de pessoas a quem amo, necessitaram da minha presença esses últimos meses. Além do que fiquei sem minha máquina por muito tempo. Mas ai está o que lhes prometi: escrevi com muito carinho sobre a artista plástica Elis Pinto, por quem tenho grande admiração.
Espero que neste ano a participação dos leitores e dos que seguem Artes e artes , seja maior. Em presença, comentários e tudo o mais.

Elis Pinto e as mulheres




 

 
 
 

Maria J Fortuna

 

Quando conheci a obra de Elis Pinto no Parque Lage, a princípio senti certa estranheza, pelo fato de até então ainda não ter visto pinturas retratando, com tanta força, o lado agressivo da mulher. Algo que parecia uma quebra da sagrada imagem do feminino de outrora. Foi impactante, porque na grande maioria das pinturas que dantes eu havia conhecido, a mulher era representada apenas em seu lado santo, maternal, amoroso ou erótico.  Outras imagens íam para outro extremo: a presença do feminino apresentada em forma de demônios ou bruxas. Algo completamente desumano.

Eu, mulher vivida, juventude na década de 60, onde se inicia o movimento feminista, a liberação sexual da mulher com o aparecimento da pílula anticoncepcional, vivenciando dias cinzas na ditadura militar, em plena geração Woodstook , leitora das colunas e livros trepidantes de Rosie Marie Muraro e de Heloneida Studart , ainda não havia me deparado com pinturas em que a mulher fosse retratada  em seu lado  agressivo, com facas e revólveres e expressão de vingança! A propósito, procurei no Google “Pintura de mulheres violentas.” Aí me apareceu “Pintura de mulheres violentadas...”  Ou seja, a sociedade vê sempre a mulher frágil, susceptível à agressão dos outros,  incapaz de qualquer tipo de revide ou violência. Ainda vista como necessitada  do homem para livrá-la de  situações de abuso.

Elis Pinto vai resgatando a sombra da mulher em cada uma de suas obras. O tão necessário negativo que nela existe, para que haja a síntese bem x mal,  formadora de qualquer  criatura humana.
 

Tecnicamente não tenho condições para avaliar sua obra, apesar de senti-la intensamente forte e bela, mas o que posso falar se limita ao  representativo que  ali está. E como a sinto. Contemplo a força da pincelada e a feliz escolha do tema e das cores. Em cada uma delas que se inicia,  eu a vejo  lançando-se com tudo ao desafio, no calor da paixão, tão necessária na formação do artista.

             A artista Elis, cujo nome é Elisangela Pinto dos Santos, contou-me que aprendeu a sentir a arte ainda em criança,  na convivência com a mãe que trabalhava com artesanato. Seu pai era pintor de parede, de onde da combinação desse colorido artesanato x pintura veio o talento de Elis, que começou como autodidata,  usando como até hoje somente a imaginação para traçar seus desenhos e se lançar à pintura. Mais tarde ingressou no Parque Lage onde continua com as aulas dos Prof. Luiz Ernesto e Chico Cunha. Casou-se com o cineasta Vicente Duque Estrada, seu grande incentivador,  e tem um filho de três anos – o Vítor.

Na série de pinturas que se intitula Elas também matam, procura desmistificar o que a sociedade faz em relação às mulheres que não tem a ver com o feminino em sua essência, mas com a igualdade entre os gêneros.  Bons e maus todos nós somos, independente do gênero. Invoca o  catolicismo com suas rígidas regras.Lembra as “santas de pau oco” em sua tela Ascention,  representando o tema que vai contra as regras rígidas da Igreja Católica sobre a mulher, em uma  de suas exposições que  chamou Elas também vão para o céu.
 
 

Procura, então, resgatar a autoconfiança feminina, experimentando fantasias e  denunciando o sexo desejado, mas reprimido, questionando ideias machistas. Em sua obra, a gente sente a transparência da mulher rebelando-se contra o passado de ser “objeto de cama e mesa”, apesar de que muitas  sustentam a casa e criam o filho como machão, como diz Elis.

 A artista nos diz que cada vez que expõe, mais observa o que faz. Em sua experiência   busca texturas numa mesma tela. Um comprometimento com os direitos de ser mulher com liberdade absoluta de expressão.
 

                 Tem feito várias exposições. Como por exemplo no Armazém Cultural, Cine Clube de Caxias, Sesc, em São João do Meriti, etc.

                  Fiquei imensamente satisfeita de ter o privilégio de conhecer Elis Pinto e presenciar nos corredores do Parque Lage,  a luta corporal com suas grandes telas,  para objetivar sua proposta de humanização da mulher, resgatando-a de uma imagem caduca em que a sociedade ainda a vê.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Atenção!

QUERIDOS LEITORES DE ARTES E ARTES, ESTOU PROVISORIAMENTE SEM PC, MAS PROMETO QUE NA PRÓXIMA SEMANA TEREMOS UMA ÓTIMA MATÉRIA SOBRE A ARTISTA PLÁSTICA ELIS PINTO. PRINCIPALMENTE AS MULHERES QUE FREQUENTAM ESTE BLOG, VÃO GOSTAR MUITO.

Em setembro de 2014 digo a mesma coisa:

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Em tempos de eleições sempre é bom repetir




Maria J Fortuna






É complicado lidar com nosso impulso, agressivo e provocante, de querer submeter ao outro nosso fundamentalismo interior. Tenho certeza de que toda resposta agressiva, desproporcional à realidade do fato, é fruto disto. Assim começam as guerras pessoais e se dilaceram os relacionamentos. É a sede do poder ter mais razão do que o outro e querer que seu desafeto seja também desafeto do outro. Onde está a percepção de tal absurdo, gente?
Quando teremos um pouco de sabedoria para um diálogo tranquilo? Partir pra cima do oponente com toda efervescência, como se os hormônios do corpo de repente pululassem, o sangue circulasse com enorme rapidez, e os pulmões se dilatassem não faz de ninguém um ser humano respeitável. A verbal fica abusada, grosseira, aguda como lança, querendo convencer o outro da superioridade de seus argumentos. Confesso que já fui assim na minha adolescência e um pouco como jovem adulta. Mas não tenho saudade alguma daquele tipo de indignação, dessa intolerância! Fiz pessoas que, poderiam ser hoje amigas, nunca mais querer olhar para minha cara. Salvo que talvez tenham se transformado de alguma forma, como aconteceu a mim. Quero acreditar de todo coração nisto. Mas nem todos crescem com a idade. A mim, soa ridículo, o vomitar de impropriedades desrespeitosas, no gritar e gesticular, ou escrever palavras venenosas, trazendo argumentos verídicos ou suspeitos, no caso de pessoas adultas. Quanto a mim, houve alguns retornos em que, eu e o amigo, conseguimos colar o fio partido da amizade, que ficou solto ao sopro do tempo. Houve renovação. Chegamos até a rir da linguagem predatória que usávamos uns contra os outros. Mas infelizmente para com alguns, não consegui remendar os trapos que restaram da antiga relação. Infelizmente, isto é fruto de alguma discussão provocativa e acalorada, quando no fundo a luta maior e não percebida, era contra a excessiva autoridade interna dos nossos egos feridos.
Ai do mundo se não houvesse indignação contra a injustiça social que assola nosso planeta! Graças a Deus, todos os dias sou possuída por este sentimento, mas a lucidez que adquiri com os anos, não tolera mais provocação e desrespeito. Tanto é que, em caso de discussão política, não dou nenhum crédito a candidato cuja campanha eleitoral se faz depreciando o adversário.

Quem sou eu

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Sou alguem preocupado em crescer.

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