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sábado, 15 de março de 2008















Máscara

Maria J Fortuna

Tenho-as penduradas na parede da minha sala. Imitação canhestra da face humana. Elas me fascinam... Impávidas, com um ar de indiferença. Estão por lá muito belas. Pintadas com tintas suaves. São brancas, douradas ou prateadas. Com incríveis arabescos desenhados meticulosamente, no fio de um pincel miraculoso! Mas tem os olhos vazados... Como se a alma tivesse fugido. Com isto ficam com semblante empedernido, retratando o que seria total ausência de emoções e sentimentos.
De onde veio este meu fascínio desconheço... Talvez no exercício de não demonstrar sentimento que agrida ou transborde em ternura. Das dores suportadas sem gemidos e lamentações. Do fechar-se ao olhar agudo e provocante daqueles que são incapazes de decifrar código de amor. Da necessidade de ocultar-se como um gato dentro de um armário escuro. Ou de esconder os espinhos sob as folhas de uma roseira triste.
O silencio da máscara é instigante, marmóreo, encerrado em si mesmo. Expressão parada no tempo. Imobilidade, eterno disfarce do que nunca quer se mostrar.
A máscara é um grito solto no ar. Ou na parede... Encima de um móvel. Onde estiver. Se tiver um sorriso pregado nela, este deboche ficará congelado. Bizarrice enrijecida no estático. Na não ação, no sem sentido. Se tiver chorando retratará um momento de dor perene, sem esperança, sem nenhuma possibilidade de mudança. Se tiver um sorrido doce, soará ainda mais falsa nos momentos em que o ódio invadir nosso ser por algum motivo. Parece que zomba do que é frágil e mutável. Do que é humano e reativo.
Por trás da máscara tem sempre uma infância interrompida. Mão carregando pedra com flor, sem saber como fazer uso delas. Peito asmático, pássaro ferido, pranto suspenso na dor.
Um dia o tempo resolve se vingar dela, da máscara... O branco de fundo pode perder seu brilho opaco, desbotar as cores. Rachaduras podem aparecer cravando suas unhas no barro ou de repente o metal se veja amassado. Pode se espatifar no chão, quebrar ou amassar. E o que pode aparecer por trás dela, só Deus sabe!

Um comentário:

Ana Jácomo disse...

Nossa, querida, amei! Que texto intenso, verdadeiro.
Linda, a sua prosa poética.
Beijo pra você.

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