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segunda-feira, 14 de agosto de 2017


Esta homenagem ao urubu, lembra-me do herói do livro de minha autoria: O pardalzinho desconfiado, cuja a mensagem é desconfiar do falso e dar valor ao que é bom em sua essência!
Lélio Costa da Silva é veterinário. A única coisa que fiquei sabendo a seu respeito. Amei ler o que escreveu sobre essa tão desprezada ave!




O URUBU EM SEU PRÓPRIO DIREITO
Lélio Costa e Silva

As vozes da natureza mandam dizer que não sou eu o símbolo do azar.
Quero continuar a remexer a cabeça nua nas carnes putrefatas, executando a minha tarefa biológica, mas anseio também ser entendido como uma ave super-higiênica, integrante das cadeias alimentares.
Quero continuar a por meus ovos nos buracos e pedras dos morros, mas não desejo ver meus filhotes apedrejados e mau vistos pela espécie humana.
Quero abrir as asas ao sol e voar em espiral com os meus companheiros e mostrar que a minha plumagem pode ter o mesmo esplendor das outras aves irmãs.
Quero dispensar do meu desjejum as carcaças contaminadas pelos venenos acumulados, espalhados pelo ser humano - verdadeiras bombas de efeito retardado, que destroem a mim e a toda vida do planeta.
Quero desconsiderar a vergonha e o constrangimento das pessoas com a minha presença em frente às suas casas - “todo urubu tem que ir onde o lixo está”.
Quero entender essa ecologia urbana, onde o lixo se acumula cada vez mais em lotes, ruas, praças e margens de rios aumentando excessivamente o meu trabalho.
Finalmente, agradeço os adjetivos concedidos à minha espécie: lixeiro da natureza, sarcófago alado, inspetor do lixo, necrófago...
E, em nome de uma possível linguagem universal, deixo aqui o meu último pedido:
- Pelo trabalho dobrado e pelo risco de vida, quero também receber as minhas horas-extras e o meu adicional de insalubridade.



sábado, 12 de agosto de 2017







                    O jornalista, escritor e poeta Mhario Lincoln  escreveu um comentário no seu Jornal Literário sobre este livrinho infanto-juvenil,  que muito me honrou. Esta obra ilustrada por Regina Miranda foi lançada na cidade do Porto em Portugal  em 2010 e adotada no ano seguinte para as Escolas Publicas de Belo Horizonte o que me deixou muito feliz! 






quinta-feira, 10 de agosto de 2017

                      O texto a seguir foi publicado na Antologia A cidade em nós da Editora Rosane Zanini, autora de vários livros em prosa e poesia. 
                     A Antologia em três línguas: alemão, espanhol e português, trata da cidade onde nasceram ou vivem. os 12 escritores que participam da mesma. Berlim, Zurich, Stuttgart, Paris e  São Luís do Maranhão. Mas o importante para Rosane Zanini é a cidade interna. O sentimentos, as emoções que unem as pessoas e são universais!




                                                   Minha Cidade

                                                                                               Maria J Fortuna


                    A cidade da gente é aquela que tem um cheiro especial, luminosidade só dela, clima que nos envolve desde os mais remotos anos e permanece na memória de cada célula. Assim sendo, dentro do meu coração está, linda e inteira, São Luís do Maranhão, uma doce Ilha no Nordeste do Brasil e Terra que me viu nascer!
                    A mais significativa lembrança da minha infância é o quintal do sobrado, onde comecei a desenrolar o fio de minha vida – o casarão de azulejos azuis que possuía mirante e porão, como muitas das antigas construções maranhenses. A cadeira de embalo, onde me deitava ao colo do meu avô, olhando as árvores que habitavam o grande quintal e sentindo o perfume das goiabas que caiam na sombra de suas copas cheirosas. O barulhinho do córrego, as margaridas e açucenas, compunham meu mundo encantado! Assim como o alento do sol e os mistérios das chuvas. No azul do céu meu avô apontava nuvens, chamando-as de urso, girafa, elefante e ainda havia o canto dos passarinhos, de modo especial do bem-te-vi, sabiá e alguns canários. Pombos e pardais gostavam de pousar nas telhas da casa. Em dias especiais o céu se enchia de carneirinhos... então meu avô desenrolava as histórias que moravam em sua alma bondosa. Era como se abrisse o peito, donde ecoava sua voz grave, e de lá saísse voando um panapaná* de borboletas azuis! Algumas, aos três anos de idade, eu não compreendi muito bem, mas eram como se fossem pétalas de flor retiradas uma a uma, até chegar no pistilo redondo, que esparramava seu pólen e fecundava mais e mais histórias...
                    Lá pelas tantas horas da manhã, recendia o cheiro dos pratos gostosos vindos da cozinha, onde eram preparados os mais saborosos quitutes como: arroz de cuxá**(mistura de gergelim, farinha seca e camarão seco e pimenta de cheiro). O ingrediente especial - a vinagreira – hortaliça africana, muito comum no Maranhão, dá o toque especial ao prato, ou arroz de jaçanã, uma ave nativa feita garça. A fritada de bobó de camarão e o cozido, não podiam faltar, entre outros pratos típicos da Ilha de clima tropical, quente e úmido. Enfim, abundavam frutos do mar no cardápio.
                    Lá pela tardinha, eu, minha irmã e a empregada da casa, íamos à Beira Mar, ver os navios que ancoravam distantes, por não haver, naqueles tempos, porto na Ilha. Havia tarde em que a gente ouvia música partindo do navio, o que estimulava nossa fantasia, de que poderia estar havendo algum baile. Ao pôr do sol as águas do mar dançavam, refletindo os últimos raios de sol. O inconfundível cheiro de maresia tornava-se mais forte à medida que ia escurecendo. E o mar ficava escuro, batendo na muralha de pedra,  quando não havia lua, aumentando seu mistério. Em outros pontos da Ilha, os pescadores estavam chegando de longa pesca, com camarão, peixe pedra, caranguejo e outros frutos do mar. Ali, conforme a maré, a gente conseguia compra-los fresquinhos. Às seis horas da tarde, o perfume de rosas, jasmins e incenso, anunciando a hora do Ângelus. As crianças partiam para o banho. Hora de receber o pai que chegava cansado da labuta diária. O jantar era servido. A empregada da casa tratava de arrumar a cozinha depressa, para finalmente descansar, contando historinhas de fantasmas e curupiras***para as crianças da família. Eram de arrepiar os cabelos! Depois cada um ****armava sua rede e o sono chegava bem cedo.
*Panapaná: coletivo de borboleta na linguagem indígena.

**Arroz de cuxá: um que pode ser considerado símbolo da culinária maranhense. Seu preparo mistura ingredientes como camarão seco, cuxá (chamado também de azedinha, quiabo azedo e vinagreira) e gergelim.
Vinagreira: hortaliça de origem agricana, com sabor acre, muito comum no Maranhão.
***Curupira – Ser fantástico que, segundo a crença popular, habita as florestas e é o protetor das plantas e dos animais. Referido desde o século XVI, o curupira é descrito com a estatura de um menino com os calcanhares para frente: suas pegadas enganam os caçadores e seringueiros, que se perdem nas florestas. O curupira também faz as pessoas se perderem imitando gritos humanos.
****Armar a rede: abrir a rede que fica pendurada no quarto dos solteiros, para dormir.

                     Quando comecei a frequentar a escola, fiquei sabendo mais a respeito da minha Terra Natal tão cheia de poesia!  Ela foi habitada por índios Tupinambás e fica entre a baía de São Marcos e São José de Ribamar, no Atlântico Sul. Nesta última, costumávamos passar as férias
escolares. Em 1612 chegaram os franceses e o nome São Luís foi colocado em homenagem ao Louis IX, rei de França. É a única capital brasileira colonizada por franceses. Por isso temos algumas palavras derivadas do Francês.  Esteve também sob o controle holandês 1641 a 1644, quando a economia tinha por base a exportação de cana de açúcar, tabaco e cacau. Por volta de 1860 exportava algodão para a Inglaterra. Depois vieram os portugueses que sempre brigaram pela posse daquela Terra e foram responsáveis por sua edificação. Hoje em dia a pecuária, agricultura e pesca artesanal fazem parte da economia do Estado maranhense. Além de ter aumentado a produção de soja, arroz e milho, a mandioca é muito cultivada.
                    Quando estive na cidade do Porto, Portugal, contemplei os azulejos da minha Terra nos velhos casarões daquela cidade! Talvez seja pela predominância do azul, ton sur ton, que até hoje a tenho como cor predileta para pintura de casas e edifícios. Um dia, já na década de 90, quando fui à casa de uma família em Belo Horizonte, Minas Gerais, lamentei profundamente ver os azulejos de São Luís, decorando a copa. Por isso São Luís corre o risco de perder o título de “Cidade do Azulejos”, como é conhecida por muita gente. As demolições hoje em dia são grandes e de muitos casarões foram retirados azulejos originais.
                    A Ilha é abastecida pelo rio Itapecuru. Existem ainda os rios Bacanga, cujo parque se encontra preservado até hoje e o rio Anil. Quando íamos para nosso sítio, um pouco afastado da Capital, eu me deliciava ao ouvir as canções das lavadeiras de busto nu, batendo roupa ensaboada nas pedras e taboas de madeira, a beira das águas que corriam por aquelas terras. O banho de rio, por causa do perigo de afogamento, era supervisionado por nossas mães. Quase sempre perdíamos uma peça da roupinha branca com que nadávamos ali, quando a correnteza se tornava mais forte. Quando comecei a ler Monteiro Lobato, tinha medo de que aparecesse por lá um peixinho atrevido que se apaixonasse por mim e me pedisse em casamento. Como aconteceu com a menina Narizinho, uma de suas principais personagens. Não era ideia mito boa ser carregada por aquelas águas escuras e frias, até o castelo do Príncipe que morava em suas profundezas, pensava eu. Do arrepio das águas geladas ao medo do peixe real, havia arrepios e tremores, até que minha mãe me enrolasse numa toalha macia e felpuda.
                   No sítio havia frutas maravilhosas, típicas da Mate Atlântica: murici, bacuri, abricó, jacama e outras. Era como se os deuses, brincando de guardar segredo, tivessem soprado delicias dentro de cada uma delas! No pós-guerra mundial, onde a recessão foi grande, meu pai ficou desempregado e, graças aos doces que minha mãe fazia daqueles frutos maravilhosos, sobrevivemos. Ela os vendia aos aliados que desembarcavam no estratégico aeroporto de São Luís.  Dentro de um velho tanque emborcado, de azulejos danificados, eu ficava brincando de boneca com a filha da caseira, ouvindo os babaçus caírem nas águas do poço.
          ***** - A Mãe D`Água está dormindo... falava a menina, falava a menina, e eu torcia para que o barulho dos babaçus não a acordasse a mulher peixe encantada**** Sabia que, além dos poços, ela costumava frequentar a Lagoa Janssen, com seis mil metros quadrados de área e diversos manguezais. Toda Mãe D´Água gosta de poços e lagos, dizia minha companheira de folguedos.

*****A Mãe d´Água - Trata-se de uma figura com mistura de mulher com peixe. No rio Itapecuru, ela aparece ás suas margens. Carrega crianças deixadas pelas mães na beirada. Penteia seus longos cabelos com pente de ouro recoberto de pedras preciosas que enlaçam os rapazes que são levados para o fundo dos rios e nunca mais voltam.

                    Aprendi que no século XVIII, fase de ouro da economia maranhense, São Luís viveu grande efervescência cultural.  Era a cidade brasileira que mais se relacionava com as capitais europeias e com outras capitais do Brasil.  A literatura e a poesia germinaram com grandes escritores e poetas como Graça Aranha, Raimundo Correia, Humberto de Campos, Coelho Neto, Gonçalves Dias Mais recentemente tivemos Josué Montello e Ferrreira Goulart, dentre outros. Não é à toa que São Luís recebeu o epíteto de Ilha do Amor, por tantos famosos da literatura que a louvaram em prosa e verso. Nesta Capital considerada na época de Atenas Brasileira, foi editada a primeira gramática portuguesa no Brasil. Mesmo no século XX estava eu em casa do meu avô, com grande laço de fita na cabeça, declamando poesias em cima do piano. Eram os saraus que minha família proporcionava aos intelectuais frequentadores do sobrado. Ali nasceu um jornal literário famoso no Maranhão – O Ateneu.
                    Em 1997 quando a cidade foi tombada pela UNESCO, considerada Patrimônio Cultural da Humanidade, eu tinha vindo para o Rio de Janeiro e depois para Minas Gerais.  Além de ter deixado toda aquela magia, tinha saudades das festas da Ilha. Particularmente o Bumba meu boi, tradição folclórica afro indígena, que aflora no mês de junho. Junto com as festas juninas em louvor a Santo Antônio e São João. Estas festas iluminam São Luís, por várias noites! Minha mãe costumava compor pequenas canções para que meus dois irmãos participassem do evento. Eu me lembro de um pedacinho de uma delas: “Boi mimoso do curral, quem te ensinou a dançar, foi no palácio da rainha, onde o rei foi passear...! Na minha memória poética ainda sonho com o boi vestido de negro com miçangas prateadas e douradas, cheio de esvoaçantes fitas coloridas nos chifres, dançando ao clarão da lua. Os homens abriam a roda cercando o boi que dançava girando. Alguns eram homens rudes, bêbados de tiquira******, que ficavam alegres com suas fantasias multicores, do mesmo tecido e enfeite da roupa do boi. Outros faziam parte da festa usando penas de índio. Eram enormes os cocares! *******Dançavam até de madrugada ao redor do boi, que, através dos movimentos do homem que o representava, fazia evoluções em círculo, enquanto alguém contava sua estória. Dependendo do lugar, iluminado por uma fogueira. Era o tempo em que a gente ainda contava as estrelas perdendo a conta...

******Tiquila: bebida que surgiu da tradição indígena de aproveitar a mandioca para quase tudo, inclusive para fazer agua ardente
*******Cocares: Um leque de pena que os índios colocam em suas cabeças. As disposições das cores do cocar não são aleatórias. Além de bonito, ele indica a posição do chefe dentro do grupo e simboliza a própria ordenação da vida em uma aldeia Kaiapó.
Candomblé: religião afro-brasileira.
Assombração: Alma do outro mundo

                    Em julho, durante as férias escolares, nossa família partia para São José de Ribamar. Lá eu esperava ansiosa pela Festa do Divino em louvor ao Espírito Santo, culto marcado pelo sincretismo religioso. A tradição foi trazida pelos portugueses e recebeu contribuição de culturas indígenas e africanas. Começa na Igreja Católica e termina no Terreiro de Candomblé. Eu adorava ver as crianças vestidas de Imperador e Imperatriz, herança portuguesa, com a imagem da pomba branca na almofada de veludo com a figura do Espirito Santo bordada na bandeira branca e vermelha. Há partilha de alimentos durante o evento. A criançada fartava-se de bolos e doces com glacê colorido e guaraná Jesus, uma refrigerante cor de rosa que só tem no Maranhão. Pela fé do seu povo cuja a etnia vem do branco (em sua maioria portuguesa) índio (povo nativo) e negro (que veio da África para ser escravo), não conheço povo mais messiânico do que o maranhense! Quanto ás festas profanas o carnaval era a mais famosa na Ilha. Havia muita alegria pelas ruelas e ladeiras estreitas da cidade, durante aquela festa! Muitos blocos de rua e alegria nos clubes! As crianças tinham medo de uma figura típica do carnaval maranhense – o fofão! Eram foliões com macacões estampados e fofados, com máscaras horrendas, grunhindo sons igualmente horríveis! Passavam o carnaval pulando, gemendo e se divertindo com o medo dos pequenos. Pareciam assombrações! Quantas vezes, quando menina, eu tinha pesadelos com os fofões! Lembram palhaços da Comédia Del Arte. Essa tradição é bem forte no Maranhão, onde os blocos populares se misturam aos brincantes e ás bandinhas tradicionais. Fiquei sabendo que os carnavalescos fofões estão sendo proibidos atualmente no carnaval maranhense, o que vai descaracterizar bastante a tradição desta festa na cidade.
                    São Luiz era muito católico em meus tempos de menina! As Igrejas coloniais superlotadas para as Missas de domingo. Até hoje gosto de entrar na Igreja lembrando o perfume das angélicas misturado ao incenso do altar-mor!  Ainda ouço a voz do padre, rezado em latim, ecoando nas encruzilhadas do meu passado.  Durante a Missa ou Adoração ao Santíssimo a magia dos santos me deixava completamente embriagada de misticismo! Lembro-me devota, com a cabeça coberta por um véu branco, acompanhando os meus pais nas procissões. Ou no meio das meninas vestidas de anjo.  Não tinha procissão sem anjo. Minha mãe de matilha preta, dedilhando o terço e meu pai segurando uma vela, todo de branco em seu terno de linho. Durante o Natal havia a Pastoral onde as crianças vestidas de roupas típicas de diversos países, em par, adoravam Jesus Menino. O sincretismo religioso estava sempre presente. Havia grandes “Terreiros” em que nossa empregada cabocla, no meio da noite ou para a madrugada, se unia em surdina, aos irmãos do Tambor de Mina e ao Tambor de Crioula, religião afro-brasileira. O Maranhão foi importante núcleo de atração de mão de obra africana, sobretudo durante 1750 a 1850. No Terreiro, as pessoas entravam em transe e possessão. Diziam que elas estavam “atuadas”... o que dá na mesma. Certo dia implorei aquela moça que me levasse com ela para a festa do Tambor, no que ela concordou desde que eu não dissesse a minha mãe.  Pude então contemplar de perto, com os olhos cheios de surpresa e encantamento, a dança daquelas mulheres com saia de chita rodada, cantando misteriosas cantigas numa língua que eu não compreendia, girando ao som das batidas dos tambores tocados pelos homens. Tudo aquilo acelerava meu coração infantil, no meio de uma clareira no mato. Era uma experiência fascinante! Guardo com carinho, uma bolsinha de fibra de buriti até hoje usada para produzir peças artesanais como tapetes e chinelos. Assim como o Tambor de Mina, no Tambor de Criola as pessoas também se reúnem em círculos que chamam de Terreiros, e é de origem afro indígena, em homenagem ao santo negro São Benedito, muito venerado pelos católicos e umbandistas maranhenses. O toque pitoresco é que as mulheres, saias rodadas e torços na cabeças, cumprimentam umas ás outras pela “umbigada”. Quero dizer, batem com a barriga, na que está no centro da roda, convidando-a para dançar. Assim por diante. Essas são doces lembranças...
                    Ah! São Luís! São Luís! Tive que deixá-la ainda menina em botão, mas quando retornei há uns dez anos atrás, me vi envolta pela mesma atmosfera de sonho que me viu crescer até os oito anos de idade. Lá estão as palmeiras, ladeiras e ruas com nome pitoresco como: rua das Flores, dos Enforcados, do Alecrim, da Alegria, da Saudade.... Creio que fruto de um povo que vive em nostalgia romântica e é profundamente sonhador e poético. Como diz o grande poeta maranhense Gonçalves Dias:

                    Em cismar sozinho, á noite,
                    Mais prazer eu encontro lá
                     Minha Terra tem palmeiras
                     Onde canta o sabiá
                    
                    Não permita Deus que eu morra,
                     Sem que eu volte para lá
                     Sem que desfrute os primores
                     Que não encontro por cá;


                    Por mais que eu tenha trilhado outros caminhos neste imenso Brasil, jamais a esquecerei, tão impressa se encontra em minha alma! Sempre a reconhecerei! Basta recordar o cheiro e o sabor dos alimentos, o colorido da paisagem, a chuva de hora marcada, o sotaque tão familiar e, sobretudo, o toque afetivo dos conterrâneos! 

                                          






Documentário São Luís do Maranhão

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Major Pirola

Maria J Fortuna


                    


                     Correu boato na cidade que o velho Major Pirola gostava de conversar com a Mãe D´Água no quintal de sua casa, onde havia um ancestral poço de pedra. Pois era lá que ela costumava aparecer.  A menina Maria, de nove anos, ficou muito interessada nessa história... ou estória, não sei. O fato é que quando ela passava pela casa dele, do major, sentia certo arrepio. Na verdade , era intrigante saber que o velho militar aposentado tão sisudo e cansado de guerra, tinha tempo e prazer em bater papo e se deslumbrar com tal controvertida figura, que ninguém sabia se veio de Deus ou do demônio... Era mãe, o que lhe dava garantia de ser amorosa, mas ao mesmo tempo sedutora, coisa que não ficava bem a uma mãe. E por que ele, o Major, ainda não tinha caído no poço como todos os homens que se deslumbravam com a lendária e perigosa figura?  Interrogava a menina a si mesma.  A Mãe D´Água, pelo que todo mundo ali sabia, encantava os homens e os chamava para as águas, soltando sua bela voz de outro mundo, numa doce e desconhecida canção, que inflamava os corações de suas vítimas com incontrolável paixão!    Daí eles ficavam obcecados e não mais voltavam para suas casas e seus entes queridos.  Sumiam no poço como se o mesmo os sugasse todos como se fosse canudinho de refresco gigante. Só que ao contrário.  Talvez nada tivesse acontecido até aquela data com o Major Pirola devido a que, a tão magnífica e paradoxal entidade, metade moça, metade peixe, tinha dó daquele velho.   Pois era sabido que ela só encantava com sua faceirice, jovens fortes e corajosos, de preferência pescadores que, navegavam e pescavam pelos rios e, portanto, mais expostos aos seus encantos...     Na realidade a sereia teria percebido que aquele velho não serviria pra nada no fundo do poço...  Além disso era difícil de acreditar que um militar ex-combatente da primeira guerra mundial, que fumava charuto e andava de bengala, cederia às armadilhas sedutoras daquela fatal criatura!  Pelo que tudo indicava a tal Mãe das águas queria divertir-se com o ancião. Criaturas da água, elas são livres, soltas e divertidas, mas também tinham aquele toque perverso de querer possuir e descartar o sujeito encantado. Não gostavam de redes ou cabrestos e adoravam brincar, livres e soltas...

                      Mas os comentários continuavam a perder de ouvido... Disseram que o Major Pirola, após permanecer algum tempo olhando pras águas escuras do poço, havia pegado “quebranto”, algo que só acontecia com criança pequena e que só era curado por mulher benzedeira.  -  Deve ser porque quanto mais velho a pessoa fica, mais vai virando criança, pensava Maria. Mas nem uma mulher, pelas redondezas, que praticava aquele oficio, queria benzer o pobre major. Ele era muito sisudo para se submeter à magia das curandeiras.    Esse era outro motivo pelo qual o velho continuasse sofrendo de quebranto... estava ficando magro e com cor amarelada. A menina achava que a sereia não o levava profundo do poço porque não se judia de velho que cada dia virava mais criança...
                       O tal boato do major corria solto de que o velho combatente estava encantado,  ganhou  ainda mais espaço quando sua empregada, tão idosa quanto ele, dizia que hipnotizado pela Mãe D´Água, o coitado ficava gelado e com febre. Mudo o dia todo... não falava uma só palavra, nem para lhe dar ordens, o que ele mais gostava!

                      Mas aquilo era mentira, pois o pai de Maria, quase todas as tardes, jogava gamão com Major Pirola e nunca disse que ele ficava mudo o jogo todo, apesar de ser um homem introvertido e resmungão.    Mas o pai da menina sabia e amava jogar gamão, com isso conquistou o ancião, que não tinha família ou amigos.

                      Quando a menina passava pela casa do longevo senhor, via sua silhueta de costas para a rua e o seu pai de frente para ele. Portando voltado para rua. No meio, o tabuleiro de gamão.  Ele tinha esse costume: deixar a porta bem aberta porque dizia não ter nada a temer, pois além do mais andava armado o tempo todo.  Só fechava a porta da rua quando a veste escura do céu ficava cheia de pingos de luz piscante, que eram as estrelas.

                    Certo dia, quando o sol estava de partida, deixando seus últimos raios amornando os telhados das casas daquela pequena cidade no interior do Maranhão, Maria foi comprar pão na Venda da esquina, como o fazia todos os dias a mando de sua mãe.  O vento estava soprando de um jeito estranho, como se o zumbido dele sacudisse as palmeiras de babaçu. A menina ouviu uma doce voz murmurando canção desconhecida... Um pressentimento estranho tomou conta de seu coração.Quando passou pela casa do Major Pirola, um frio percorreu seu mirrado corpinho diante de uma cena inesperada!   Pela porta aberta da casa, no lugar da pequena mesa rústica de gamão, havia um caixão em meio a duas velas. Ela viu a careca do major, reluzindo ao clarão das duas pequenas chamas.  Ninguém estava lá.  Nem seu pai que havia viajado para a Capital. A menina fez esforço para superar o medo e rezou ali, baixinho.... Apressada pegou os pães na Venda e saiu correndo para casa. Mas ainda deu para ouvir uma voz dizendo:

                    - Coitado do Major Pirola! Nem foi a Mãe D´Água que o levou; foi a tuberculose... 
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segunda-feira, 24 de julho de 2017

A cor do anjo



Maria J Fortuna 



                    A menina, vestida de anjo, subiu ao andor de Nossa Senhora do Carmo para seguir em procissão com os fiéis.  Estava ali para cumprir uma promessa da sua tia à Virgem, pelo fato de, aos quatro anos, ter saído viva de uma hepatite das mais violentas!  Ela era muito pequena para pedir o milagre da cura, mas a tia, filha de Maria Mãe de Deus, correu para a Igreja quando soube do diagnóstico, e fez a promessa.
                    E então, tornou-se a primeira menina, naquela cidade, a usar asas de penas na procissão!  A vestimenta não era aquela clássica, de bordado casinha de abelha, como nos anos anteriores e como a maioria das meninas usavam. Seu modelo, de muito bom gosto, foi copiado da foto de alguma pintura antiga.  Cópia perfeita da roupa dos “anjos de verdade” como diziam as crianças, e que a gente costumava ver em santinhos de primeira comunhão, vindos da Europa. Aquelas asas fizeram sucesso, apesar de que a menina nem estava muito ali para elas. Roupa e asas brancas evocavam pureza e o cetim da veste brilhava á luz das velas que as mulheres carregavam nas mãos, cercando o andor em que estava a imagem da Virgem que vinha, por sua vez,  rodeada por anjinhos.  Na cabeça, um estilo novo de diadema.  Em vez de florinhas tecidas de pano e enroladas em arame, eram feitas de folhas brancas longas e acetinadas.
                    A tia havia conversado com a catequista da Igreja para que a sobrinha seguisse bem na frente do andor, armado sobre uma carroça, de forma que exibisse a grande novidade: asas de penas! Enquanto outras meninas traziam nas costas asas de papel celofane ou crepom brancas, azuis ou rosas. Eram as cores dos anjos. Algumas eram confeccionadas em arminho, tingido ou não, que tornavam as crianças mais etéreas e fofinhas.
                    A procissão seguia mergulhada em doce cheiro de angélicas com incenso. Parecia, para a menina, que ela estava pertinho do céu! Como era pequena para a idade e trazia os cabelos cacheados, muita gente já a chamava de anjinho no dia a dia.   Naquele momento, sentia-se como se de fato não pertencesse à Terra. Dali a pouco começaram os hinos... E o andor da santa com seus anjinhos, empurrado por homens da Congregação do Carmo, começou a se movimentar.

                   - Com minha Mãe estarei, na santa glória um dia,
                    Junto á Virgem Maria, no céu triunfarei!
                    No céu, no céu, com minha mãe estarei, no céu,
                    No céu, com minha Mãe estarei! ”

                     Cantavam as desafinadas senhoras devotas vestidas de branco, algumas cheirando a naftalina, com seus véus brancos e outros pretos, cobrindo-lhes a cabeça. Algumas traziam além da vela, o Missal nas mãos.
                    De repente, o carro que carregava o andor parou! Era um anjinho retardatário que vinha chegando.... As crianças mudas, na expectativa...  Ali viria um anjo vestido de qual das três cores tradicionais?  Será que também tinha asas de penas? Como seria a roupa?  Com ou sem estrelinhas salpicadas? E o diadema...
                    O pai da criança a ergueu nos braços e a colocou, bem pertinho da menina vestida com a roupa da promessa. Imaginem!  Era um anjinho vestido de verde! As meninas olharam assombradas para a menininha com aquela veste cor de abacate dissolvido em leite. Verde clarinho, transparente, jogada por cima do forro de cetim verde um pouquinho mais escuro, como folha madura. Que anjinho diferente!  Mas anjo pode vestir roupa verde? Mas claro que sim. Aquele não estava lá?  A menina de asas de pena desejou ardentemente ter uma roupa de anjo cor de folha...  E pensou, esquecendo do sucesso de suas asas de pena:

                     - Queria tanto que tia fizesse promessa de me vestir de anjo verde na próxima procissão...


sexta-feira, 7 de julho de 2017

O livro de João Bosco
 
Maria J Fortuna
 
 


                    Hoje acabei de ler "POR DENTRO DA TORRE", memórias de um controlador de  voo, de autoria de João Bosco Rocha. Para mim, foi uma agradável surpresa saber que o silencioso e querido amigo de outros tempos, é autor de um assunto que desperta tanta curiosidade quanto ao que se passa dentro daquela elevada Torre de uma só coluna. Quando menina, eu ficava embrulhada em meus pensamentos, interrogando como se subia ali. Havia um mistério naquele cogumelo gigante que diziam estar repleto de homenzinhos e  a dúvida do que eles faziam ali. Mais tarde fiquei ciente da importância dos controladores. Após a leitura do livro, uma luz se acendeu na velha Torre da minha memória!
                    A leitura de "POR DENTRO DA TORRE é por demais agradável desde que João Bosco procurou aproximar o texto da compreensão dos leigos. Afinal ele é psicólogo.  Escreve com linguagem clara, divertida e cheia de informações. Além das remotas lembranças daqueles “anos de chumbo” cuja política de esquerda discriminava militares, sendo o mesmo um deles, pertencente a Aeronáutica.
                  Acho que está na memória do povo a colisão da aeronave Legacy com o avião da Gol em 1907, bem como o caso do misterioso voo 447 da Air France, entre outros acidentes aéreos. Por que lembrar dos controladores só quando há acidentes?  Poucos tem noção da seriedade do trabalho, da responsabilidade que cada um daqueles profissionais deve ter no exercício da profissão. Poucos sabem o que se passa por dentro da Torre, onde é controlado o tráfego das aeronaves.  João Bosco escreve como profundo conhecedor do assunto, pois exerceu esta função durante muito tempo, e mesmo aposentado, continua apaixonado pelos “pássaros gigantes, ” os quais sempre cuidou que partissem e chegassem bem aos aeroportos durante o exercício de sua profissão.  Ele exerceu essa atividade antes de surgirem novas tecnologias, quando era importante que os aviões fossem pilotados “na mão”, como diz em seu livro. E ressalta os resultados do bom relacionamento e comunicação entre Controlador e Piloto das aeronaves. Presta assim grande favor aos seus colegas, aos demais profissionais do setor aéreo e a nós todos que viajamos nessas máquinas voadoras durante boa parte de nossas vidas. Publicando essas memórias, João Bosco valoriza os que no dia a dia, noite a noite, estão com os olhos pregados nos computadores, muitas vezes em stress, exercendo essa atividade.          
                     Em 2013,  foi realizada uma pesquisa que mostrou que os controladores de tráfego aéreo estão na oitava posição do ranking das profissões mais estressantes da América, como  consequência de erro, pressão, stress e o salário atual.  É de muita importância que esses profissionais, que parecem invisíveis, apareçam merecendo todo nosso reconhecimento.
                    Além disso, o livro é repleto de boas histórias! João Bosco nos apresenta uma enorme gama de pessoas dos mais diversos tipos de caráter, que conviveram com ele durante sua permanência na Torre. O leitor fica preso ao relato e desfile dessas personagens interessantíssimas! E finalmente ele nos faz conhecer sua própria história amorosa.
                    Na verdade, amei este livro e recomendo para todos os que voam por   esse mundo afora.

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