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sábado, 28 de junho de 2008

a chupeta



Maria J Fortuna

- Quero meu pipo, gritava a criança no colo do irmão mais velho.
- A barata fez cocô nele todo, que pena... Olha!
O menino grande apontava para o objeto encima da geladeira.
Pipo é nome de chupeta no nordeste. Especificamente no Maranhão
- Pega ele! Gritava a criança aumentando volume de choro
- Assim mesmo, cheio de cocô de barata?
- Não! Não quero, gritava mais alto, a menina em desespero decepcionada com o que via.
- Então deixa o pipo ai, falava o irmão mais velho
- Mas eu quero! Insistia a menina
- Cheio de cocô de barata?
- Não quero não! Soluçava bem alto a criança
Já estava roxa a pequena de tanto chorar e a vozinha já rouca. Até que começou a ficar com sono e se rendeu a ele, exausta.
Ultimamente aquela cena era cotidiana. Hora de largar a chupeta. A mãe havia pingado cera de vela naquela borracha macia.
E quando a repugnância venceu a vontade mastigar a chupeta na boca uma forte anorexia abateu a menina. Às vezes comia arroz com manteiga. Era só. A enurese também se manifestou. Passava as noites dormindo em rede com uma enorme bacia embaixo para aparar xixi noturno. A menina às vezes chegava a sentir a aquela aguinha morna saindo dela. Depois ficava muito frio. Não havia Papai Noel quer fizesse ela parar de urinar na rede. Ela foi apelidada pelos irmãos de Maria Mijona
Foram momentos dramáticos aqueles! Mas o que é um pequeno objeto de satisfação oral para uma criança? Por que retirar daquela forma perversa seu primeiro deleite oral?
Diversas vezes Maria procurava sua chupeta camuflada e repelente. Havia um clima sado-masoquismo no ar. Havia sempre espectadores na hora do suplicio! Uns olhavam com cara de dó; outros de maldade mesmo. Alguns riam e outros tentavam confortar a menina.
De qualquer maneira a garota parecia inconsolável, porque quem sempre a consolava era a chupeta.
Eu disse quem porque aquele objeto de plástico com uma borracha macia na ponta representa para um número significativo de crianças , principalmente as mais solitárias, o substituto materno. A chupeta acaricia-lhes a língua descobrindo o macio no céu da boca onde maravilhosas cosquinhas embalam seus dentes recém nascidos e lhes adoçam a saliva. Principalmente quando a mãe se declara “seca” e nunca lhes dá o seio. É como peixe que se contenta com aquário quando na verdade amaria viver no oceano.
A menina cresceu e ficou sabendo de como seu pipo foi sabotado. Mas era muito tarde! Aconteceram relacionamentos afetivos em sua vida, mas todos marcados pelo mesmo padrão – queria amar mas repugnava o objeto de afeto.
Era patético! Não sabia o que fazer para conservar seus relacionamentos. Teoricamente sabia o que estava acontecendo, mas não tinha sossego para ser feliz.
Atração e rejeição simultâneas. Tocada por alguma coisa que não queria desenterrar e que lutava para emergir e é imediatamente sufocado. Mesmo que quando tocada por algo de bom que a memória aprova. Algo como o cheiro, a textura, o toque que dá sabor as coisas a sua volta.
Imaginem... Todo o universo explodia em sua boca em ondas de prazer trazendo o instinto de vida e alguém diz que aquele objeto, responsável por tanto aconchego, era uma coisa suja, fedorenta, atolada na podridão!
Como lutar contra o sentimento de perda que se repetia invocando a perda original? Não havia nem de leve a consciência de que as perdas sempre trazem um ganho. Nem que seja este o preço do amadurecimento. Mas nada que nos empurre goela abaixo pode ser bom.
Agora estava ali, sem saber como sugar o leite da vida. Engolir a sensação de vomito no desejo do seio infectado. E retirar os lábios cheios de prazer, do mamilo contaminado por fezes de barata. Amar e rejeitar o objeto de afeto! Arranhando as seringueiras da vida que dão leite de borracha, querendo cuidar de uma gata prenha para ter prazer de ver os filhotes sugando suas tetas. Com uma sensação de ausência, de buraco negro, de vertigem das alturas.
Com sensação de infinita incompletude
Coisa esquisita o que uma chupeta com coco de barata é capaz de fazer com a gente...








Um comentário:

Clevane_em_Pessoa disse...

Antológico, Mariinha.Psicóloga, de raízes nordestinas e tendo eu própria morado no Maranhão, conheço signifiados e significantes de cada palavra escolhida por você para compor essa crônica, na verdade, um conto, cujo protagonismo foi vivenciado por muitas crianças.
Um texto eivado de simbolismos e relaidade.
Parabéns.
E obrigada por suas palavras a meu respeito na sua página anterior a esta.
Um abraço amigo:
Clevane

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