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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Os olhos da gata preta



Maria J Fortuna


Eu estava às voltas com meus medos... Com o pesadelo da velhice e da morte. Regava fantasias sóbrias como num jardim de flores murchas. Tudo combinava com insônia, ou noite sem lua. Como uivo do lobo a distancia. Como quebra no espelho de uma dor sem sentido. Ou seja, tudo era buraco negro.
Debrucei-me no olhar da gata preta que me encarava sem cerimônias. Estava ali com seu corpo de veludo, os pelos brilhando por causa de uma réstia de luz prateada que os iluminava. Os gatos são sempre muito misteriosos e independentes. Sempre os amei, desde menina.
Os olhos verdes em que mergulhei por um longo tempo, pouco piscavam. Eram inteiramente intrigantes. Rasos, orvalhados e volúveis. As pupilas dilatadas como marés cheias ou poços sem fundo. Os bigodes enormes, brancos e expressivos, deslocavam-se para frente e para trás como antenas captando segundos. As orelhas mexiam-se a quaisquer sons distantes!
Decididamente Mia estava ali testemunhando minhas agruras no meio da madrugada. Fazia algum tempo ela me falava de sua dor. Como assim? Indagam muitos. Gata bem tratada, alimentada, dormindo nos colchões macios da casa... Mas é verdade. Faz algum tempo que ela, sem mais nem menos, solta no ar seus miados sem eco. Um miado de queixa e um olhar de suplica. Com certeza havia um protesto felino no ar.
Mia foi encontrada ainda bebe num estacionamento no centro da cidade. Fernandinha a trouxe carregada junto ao peito. Já estava em seu coração. Não havia jeito de devolvê-la a rua. Este nome Mia, era justamente por causa dos seus miados freqüentes e sem cerimônia. Minha filha partiu para Europa e me deixou esta herança.
Tivemos que castrá-la por causa dos seus violentos cios. Era um Deus no acuda! Os apelos da natureza são muito fortes para geração de outras vidas! Nós e os visinho agradecemos o bisturi que a impediu de gerar filhotes. Mesmo porque onde colocar mais gatos em apartamentos?
Mas estávamos falando de dor. Não sei como seria seu encontro com outros gatos. Ela é a única de sua espécie aqui em casa. Talvez, movida por esta solidão, ela estranhasse e até agredisse o semelhante. Diante dos fatos é fácil detectar onde está o sofrimento da gata.
Seus olhos verdes lembram as matas que gostaria de cheirar de perto. Rolar no chão, na terra. Comer capim, subir no muro ou no telhado e fazer parte do sarau das longas noites de lua cheia com um monte de gatos companheiros. Se a soltássemos neste mundo, ela não saberia como sobreviver. Por isso seu olhar de queixa, ao mesmo tempo de compartilhamento. Deve ter saudades daquilo que nunca vivenciou, mas que sua espécie o faz durante séculos... Tipo caçar, beber água numa fonte, cheirar um monte de pedras, plantas, animais e objetos largados por ai.
Eu e Mia, com seus belos e misteriosos olhos verdes, fomos cúmplices nessa noite de pesadelos, buracos negros, futuro obscuro e jardim de flores murchas... E em outras noites mais!...

Um comentário:

Tatá disse...

Poxa, que lindo seu texto. Me arrepiei toda.
Um beijo com carinho e que as dores não existam mais.

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