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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Para os que não leram














Olhares


Maria J Fortuna

Quando eu era menina, as freiras do meu colégio colocaram na parede do banheiro:
“Olha que Deus te olha
Olha que Ele está olhando
Olha que vais morrer
Olha que não sabes quando...”
Parece que o maior pecado que existia no mundo acontecia no banheiro. Fiquei com medo do tal olhar divino, que me agredia e congelava a alma. Que parecia vigiar até minha sombra e, muitas vezes, quando eu cometia algum pequeno deslize, vinha a frase fantasmagórica e ameaçadora: “Olha que Ele está olhando...” E ainda dizem que Deus é amoroso... Pensava eu. Acho que foi aí que adquiri enorme percepção daqueles que me cercam. Toda revelação está nos olhos. Esta leitura parece esquecida pela maioria das pessoas que acreditam mais no que ouvem do que naquilo que veem.
Cresci ouvindo dizer que os olhos são janelas da alma. É verdade. Os olhos da minha mãe eram de veludo, como os de Omar Sharif. Olhos bondosos, profundos, cheios de misteriosa forma de dizer que nos amava. Ela sabia transmitir, através deles, a linguagem da ternura.
Já experimentei o toque expressivo do olhar de quem tem um só olho, como foi o de um dos meus irmãos. Traduzia timidez, interrogação e tristeza. Um olho enevoado, mas com vida; o outro, da prótese, era intruso, com pálpebra aberta demais. Um acidente, que lhe deformou o rosto, levou-lhe o olho esquerdo, quando tinha apenas dezoito anos e era um belo rapaz! Daí manifestou psicose bipolar e, na fase da depressão, tudo o que queria era fechar o olho verdadeiro para dormir, enquanto que o esquerdo - o artificial, passava a noite inteira fitando o teto. Parece muito engraçado, mas não era.
Já o olhar do meu irmão mais velho era sempre de lado, quase nunca de frente. Era o chamado olhar enviesado. Nunca quis saber o porque daquele olhar, mas era inocente e eu achava divertido.
Minha irmã tem, até hoje, um aspecto inteligente ao mesmo tempo triste, no olhar que, às vezes, se torna desafiador. Há certa magoa boiando dentro deles, como se tivesse sempre sendo vítima de injustiça eterna.
Meu pai era um homem que se fazia de duro. Era implicante, às vezes injusto. No entanto, próximo a sua morte, seu olhar se modificou, desde que nossa mãe foi para o outro lado da vida. Quando entrei pela porta do seu pequeno apartamento, exclamou referindo-se a mim: - você está toda iluminada, minha filha. No que percebi pela primeira vez, amor em seus olhos!
O olhar das crianças é transparente como asa de libélula. A visão de um mundo colorido, cheio de bolhas de sabão. Quando eu era uma delas, não havia coisa que me encantava mais do que ver cores do mundo refletido naquelas bolhas! Eu ficava me interrogando por que elas acabavam tão depressa. As crianças, mesmo quando estão doentes ou foram maltratadas, tem olhar interrogativo, não compreendem a violência. Os adolescentes têm olhos de esperança, mesmo com ar de rebeldia
Olhos da maioria das prostitutas denunciam volúpia não consentida pela alma, mas que trazem o pão de cada dia. Olhar embargado, na maioria delas por uso de álcool e drogas, que lhe permitem fugir, mesmo por pouco tempo, de seus corpos alugados e macerados.
Já senti o arrepio de ser vista pelos olhos suplicantes do ser humano com fome. Não só de alimento, mas de amor e reconhecimento.
Algumas pessoas têm olhar fugidio. Elas me fazem sentir aflição. Parece que dentro do portador há algum culpa prestes a ser denunciada no fundo dos olhos. Talvez escondam alguma coisa até pequena, mas que a autoacusação velada transforma em grande.
Já me deparei com o olhar de um santo no elevador do Maracanãzinho no Rio de Janeiro. D. Helder Câmara estava ali, sorrindo feito uma criança. Olhar que lembrava estrela em céu escuro, anjo azul, nuvem branquinha, amor brincando de roda, simplicidade, despojamento, pureza.
Um dia tentei libertar um preso que estava tuberculoso, contaminando os companheiros de cela. Eu era uma jovem assistente social, estagiária. No cárcere, os olhares em revolta partiram como lanças em minha direção, quase uniformes! Havia um ar indecente, zombeteiro e debochado no ar. Olhos que pareciam despir, punir, cuspir e babar em cima de mim. Apesar de tudo, alguma coisa inóspita mexeu comigo. Cheguei a pedir perdão pela boa condição social e profissional que contribuiu para que eu nunca estivesse atrás das grades.
Durante longo período de nove anos, trabalhei no setor de Psiquiatria. A maioria dos “pacientes” tinha olhar vago, imbecil. Outros eram uma espécie de quebra-cabeça, cujas peças não se encaixavam. Havia o olhar correndo de um lado para outro, como azougue de termômetro. Durante uma entrevista, eu esperava longamente por um momento de lucidez que poderia ser doloroso, quando voltavam do muito longe, sabe Deus de onde... Lembrava a frase de D.Quixote de Cervantes: “Viver assim me mata; morrer me dá a vida”
Passaram pela minha vida olhares confiantes e desconfiados. Cheios de alegria, dor, medo, gratidão, desespero e esperança. Alguns trazem graça e bênçãos; outros só conseguem enxergar o lado obscuro das pessoas, como se proibido fosse ver a luz.
Que posso dizer do meu olhar no espelho? Quantas pessoas reconhecem o que sou e o que estou sentindo? O que pareço aos olhos do outro? E aos olhos de mim mesma? E quanto aos olhos de Deus? São tão terríveis como diziam as freiras?

Um comentário:

Cacarina disse...

Que coisa mais querida sua percepção de tantos olhares diferentes... Suspirei de emoção!
Um abraço,
Claudia

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Sou alguem preocupado em crescer.

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