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segunda-feira, 21 de março de 2011

No espelho





Maria J Fortuna

Ela não sabia quase nada a respeito de si mesma. Não sabia se era menina, mulher feita ou anciã. Eli, o terapêuta, a havia colocado em frente ao espelho de sua grande sala, onde recebia os que estavam náufragos vestidos de deuses para se proteger.
O espelho lhe contava alguma meia verdade a respeito de si mesma, como aquela de que ela era uma aparente donzela de vinte e poucos anos, vestindo uma saia godê estampada, calçando meias de lã até os joelhos, como as crianças, e usava blusa preta própria das senhoras de mais idade. Trazia cabelos desalinhados, nos ombros, em cachos. Olhos negros brilhantes e uma imensa expressão de tristeza no rosto sem pintura. Dificil até advinhar-lhe a idade.
Aquele confronto consigo mesma, por mais penoso que fosse, seria mais do que recolher seus pedaços rasgados ao vento, mas a luta pela própria sobrevivência! Ela não tinha a transparência das asas da mariposa, mas o que pudera enxergar de si mesma era como uma imensa borboleta azul, aprisionada ao silêncio, em meio do vozerio. A fragilidade de suas asas não queria ver a luz do sol! O que movia a ação não era poesia, mas a nostalgia de uma beleza perdida.
Uma hora diante do espelho nada lhe dizia... Já estava cansada, queria sair dali, o mais depressa possível! O difícil não era olhar tanto tempo para sua própria figura, mas não compreender quem ela era à luz da verdade. Por que se escondia tanto de si mesma? Onde havia se perdido? Em que tempo, em que esquina ou túnel da vida havia trocado as vestes da alma?
Definitivamente, não dava para se perceber a si própria diante do espelho... Foram anos no cárcere e a perspectiva de mudança congelava-lhe o coração. Quebrar o espelho não resolveria. Em cada pedacinho dele sua falsa imagem seria refletida. Sair de frente do cristalino também não seria a solução: perderia pra sempre a oportunidade de ver-se, com verdade e inteireza, e continuaria para sempre a vivenciar a superficialidade em sua caminhada existencial. O que é motivo para muito mais sofrimento...
Mas aquelas horas não estavam perdidas. Graças à fluidez do tempo. Seria a primeira vez que se via como interrogação ou incógnita. Fora-lhe lançado o desafio de trocar as asas pelas mãos e, com elas procurar, no fundo do seu poço interior, sua verdadeira identidade. Mesmo que durasse toda uma vida! Em nome disso, seriam rompidos vários fios da teia que a sustentava. Os fios mais grossos eram mais fáceis de serem rompidos. Escondiam os mais tênues, perigosos, encobertos por um brilho falso e sutil. Estes sim eram assustadores e dolorosos de serem rompidos, devido a que ocultavam a face da beleza de se ser o que se é.
Esse confronto com o espelho, como sinfonia cheia de acordes, pinceladas com borrões, e tudo mais, a fez observar a mulher, lutando para mostrar-se a si mesma, aos pouquinhos, no silêncio, no que há de verdadeiro, no que é.

Um comentário:

Eliane Accioly disse...

Fiquei muito curiosa com a mulher que não sabia se era menina, mulher, anciã. Tantas vezes me vejo assim, sem saber/sentindo...
Adorei a crônica e o terapeuta...

Bjs

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