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segunda-feira, 30 de maio de 2011

A rua suspeita...



Maria J Fortuna







Eu estava atenta para duas questões importantes: a primeira delas é que na década de 60 eu não conhecia bem Belo Horizonte. Outra, de como iria encontrar o ponto de ônibus que me levaria até meu novo endereço.
Já havia rodado vários quarteirões e nada... Havia muito poucas pessoas por ali, naquela rua sombria. Meu coração começou a acelerar e bater descompassado. Lembrei-me daquele fato assustador da minha primeira infância: Na cidade onde passávamos as férias larguei as mãos de minha mãe, para ver o cavalinho de pau na vitrine. E quando de repente olhei para trás, não vi minha mãe. Só parei de chorar quando meu irmão, que comtemplava tudo de longe, apareceu. Deu-me a mão e fomos juntos, procurá-la. Mas aquela rua estranha, já ao cair da noite, fazia-me sentir cada vez mais só.
Apertei junto ao peito os livros que trazia do meu trabalho no Hospital sentindo que ali, definitivamente, não era lugar para ser frequentado por moça séria. E tive certeza disto quando passei por três homens que me olharam de forma desenvergonhada, de cima a baixo, e murmuraram algumas palavras que lhes fizeram gargalhar.
Pouco depois, quando encarei a descida da ladeira, comecei a ver mulheres estranhas, sentadas na mesa de alguns bares, cheios de homens. Elas estavam muito pintadas, quase desnudas, e olhavam de forma provocante para os homens que alisavam as coxas nuas e palpavam-lhes os seios.
Não havia mais dúvida! Eu estava numa famosa rua daquela cidade, chamada de Guaicurus, na zona boêmia de Belo Horizonte, onde se desenrolou a tumultuada vida pregressa de Hilda Furacão, personagem interpretada por Ana Paulo Arósio na TV Globo.
Lembrei-me que, quando criança, tinha inveja dos meus irmãos mais velhos, logo que fiquei sabendo, entre risos e sussurros, que eles frequentavam estranhas paragens, cheias de mulheres... E quem seriam elas? O que havia de tão proibido ali? O que faziam com eles? Eu ficava com a pulga atrás da orelha! Na época, ir à zona boêmia para os meninos, significava provar que haviam se tornado homens. Uma espécie de ritual de passagens da adolescência para a vida adulta. Por que eles tinham tanta liberdade e nós, mulheres, não? Fantasiava vestir-me com roupa masculina e visitar, noite daquela, a tal zona, para perscrutar o que acontecia por lá.Mais tarde, a curiosidade chegou ao máximo! Queria conversar com as prostitutas, fazer amizade, saber o que sentiam quando homens, conhecidos ou não, as abordavam. Se não podiam escolher um, em especial. Elas poderiam me falar como eram os homens que as procuravam. Seriam brutos, degenerados em suas relações sexuais, ou algum deles seria mais carinhoso...
Mas era chocante aquele lugar! Tive tempo para reflietir sobre o que me havia feito favorecida, com tantas oportunidades na vida e aquelas mulheres, talvez, sem nenhuma?
Tudo o que queria era sair correndo dali. Até que me apareceu um rapaz, alto e magro, bem vestido, que me falou para segui-lo sem olhar para trás. Eu me senti a mulher de Ló, citada na Bíblia. Se olhasse para trás poderia virar estátua de sal. Ali a chaga da doença social era muito mais viva!
Subindo a ladeira em silêncio ao meu lado, o moço falou-me bem sério:
- Aqui não é lugar para a senhorita!
Agradeci e peguei o primeiro ônibus que ia passando. Por sorte, era justamente o que me levou para casa.
E o rapaz que me havia feito companhia? O que fazia por lá? Não podia imaginar fazendo sexo com aquelas mulheres... Ou estava enganada? Esta indagação faz parte, até hoje, de minhas lembranças...

Um comentário:

MJFortuna disse...

Maria Helena Lyrio, por email:


Li muito emocionada este texto lindo, lírico...
Sinto-me feliz de ter vc omo irmã.
Alma sensível...pessoa pura...terna...
Vc as vezes fala o que me vem na alma e eu não consigo expressar...

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Sou alguem preocupado em crescer.

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