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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

De quem era aquela saudade?








Maria J Fortuna

Despertou com saudade de alguém, mas não sabia de quem se tratava... Procurou relembrar os amigos, mas nenhum deles era responsável por aquele sentimento. Mesmo os que moravam distante. Depois ressuscitou a lembrança dos parentes e amigos falecidos... Nenhum retorno. Aquela saudade também não era de nenhum deles. Continuava a sensação de vácuo fundo dentro do peito. Aquele sentir não tinha cheiro e parecia mudo. Lembranças são quase sempre rumorosas. Por que aquela ansiedade de querer ver, de sentir o gemido oculto da ausência? E aquele era inteiramente silencioso: sem palavras, música ou perfume e muito menos tato que se desse a reconhecer. Não havia definição para aquilo e nem outra palavra além de saudade...
Estava cansada daquela vida de quebra cabeças. Dos esboços que não viravam desenhos, apenas se insinuavam. Enfastiada de expressões que não tinham sentido. E das meias palavras dos que lhe diziam amor. Saudade de alguém que ouvisse sua verdade por inteiro, de forma amorosa, sem julgamentos. Disso tinha certeza. Com quem ficasse à vontade... Mas talvez estivesse com saudade de Deus. Para alguns Ele só aparecia nos momentos gloriosos ou de tristeza profunda. Para ela, no momento sagrado de escrever. Mas não era ali o caso. Aquela incômoda saudade brotava como fio d´agua de um encanamento rompido, molhando seu caminho em tempo de estiagem.
Na verdade aquele sentir tinha a ver com gente encarnada que não tocava seu corpo ou sua alma há muito tempo... Queria repousar e confiar no colo de alguém que esperava durante toda a vida suspirando pelo encontro. Não gente que fizesse joguinhos de entra e sai nos seus dias na Terra, pois que não havia mais tempo para essas coisas. Alguém fiel, que pudesse deixá-la livre, sem cobranças ou pedidos de justificativa. Estava cansada de alimentar fantasias nas mentes que a interpretavam pelo que não era. Buscava alguém que soubesse reconhecer e acolher. E que fosse tão louco e imperfeito quanto ela, mas que o reencontro se desse a luz de dois olhares amorosos que se completassem. E que fosse um descanso na brincadeira de esconde-esconde dos jogos humanos.
Também não era do desejo de sexo, aquela saudade, apesar da carência de toque. O que mais se assemelhava com o tal sentimento, era a lembrança das mãos macias de sua mãe dando-lhe um banho de gamela, quando era menina. O jeito carinhoso de passar sabonete cheiroso em seu corpinho cheio das marcas e manchas deixadas pelas travessuras. E de massagear sua cabecinha de cachos loiros. E ainda do perfume que se desprendia do frasco de Alfazema, aplicado atrás das orelhas, toque final do banho. Mas aquela era saudade declarada. Sabia quando se deixava enlevar pelas lembranças da mãe. Ah! Se pudesse deixar seu corpo cansado cair no regaço materno ou de alguém a quem confiasse... Mas acontecia o contrário: a vida esparramava em seu colo, gente adulta, pesada demais para que ela tivesse condições de sustentar. Como buquê de flores dormidas. Mas se ela não estava dando conta de cuidar de si mesmo...
Tinha certeza de que seu coração sabia onde estava este alguém, mas era pirracento, não lhe revelava nem em sonhos...
Seria saudade de si mesma? Da moça destrambelhada, de cabelos esvoaçantes, que dançava de improviso e corria das tropas de choque na época da ditadura nos anos 60? Também não era isso. Sabia reconhecer seu caráter a cada nova fase, nas diversas metamorfoses que aconteciam nos laboratórios de sua alma. Tinha consciência de que ainda haveria muitas outras até que partisse deste mundo.
Não havia jeito. Precisava abraçar aquela saudade, sem rosto, tão incômoda ao seu coração. Aí pensou na eterna incompletude de si mesma e dos seus semelhantes... Graças à melancolia que aquele sentimento lhe trazia, poesias brotavam-lhe da alma aos borbotões. Como lágrimas...
Claro que aquilo passaria como das outras vezes e ela, como sempre, seguiria adiante...

5 comentários:

Ana Jácomo disse...

Às vezes eu acho, Mariinha, que a saudade maior da gente é daquilo na gente, perene, essência, que é alegre e independe de coisa alguma.
Beijos

norália disse...

Mariinha, só posso dizer desta crônica: brilhante! Brilhante mesmo!
Parabéns.
Norália

Monicapuccinelli@gmail.com disse...

Amiga amada, no inicio da leitura imaginei que fosse a saudade de algo não encontrado dentro de nos, mas quando vc chegou no ponto cricial, a emoção foi forte, chorei de verdade, senti tua emoção, olhei nossas vidas, as voltas redondas que a vida dá, suspirei, me recompus, para esperar, viver e deixar acontecer.
Obrigada de verdade Mariinha
bjs, mony

MJFortuna disse...

Ana e Norália, é muito bom para mim, receber comentário de vocês. Ainda mais sendo de duas escritoras maravihosas!
Grande abraço

Mariinha

MJFortuna disse...

Mony, não pensei tocar seu bondoso coração tão fundo... Escrevi este texto num clima de muita emoção também, minha querida!

Um grande abraço

Mariinha

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