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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Não foi em Honolulu que Gaugin viveu, mas no Taiti, onde pintou centenas de nativas. "Sua obra, longe de poder ser enquadrada em algum movimento, foi tão singular como as de Van Gogh ou Paul Cézanne. Mais do que um conceito artístico, representava uma forma de pensar a pintura como filosofia de vida".



Coisas da alma...



                                                                                                                       Maria J Fortuna



Era pra eu estar escrevendo sobre Barcelona... Mas hoje estou inquieta com as notícias que me chegam pela TV. Com isso, não sei onde escondi uma poesia que andei escrevendo durante * o passeio por aquelas paragens. Quando isso acontece, fico que nem leão, naquela jaula apertada, que eu nem sabia, quando pequena, porque o felino passava de lá para cá, até cair exausto, coitado... Era por causa da sua liberdade roubada pelos humanos... Os seres que buscam a liberdade, incluso o homem, não podem viver definitivamente sob a ditadura dos códigos da moral e bons costumes.

Por isso eu creio que minha aspiração por embarcar a outros recantos da Terra é muitíssimo válida. Meu ímpeto é de percorrer uma longa estrada sem curvas. Aquela que se perde no infinito... Até descobrir que o fascinante é dobrar nas curvas que a gente não sabe para onde vão, nas encruzilhadas que desafiam o espirito.

No meu caso, o ir e vir na jaula do leão é escrever sem parar, até que o sono chegue, já que, no momento, não posso viajar nem dentro de mim mesma. Mais uma vez renovo a promessa de que não vou mais ouvir os péssimos noticiários dos nossos canais de TV.. Poupar-me-ei das coisas que ferem o coração. E me indago por que temos tanta vocação para o sofrimento? Por que, de vez em quando, flagro-me entrando num beco sem saída. Por quê? A intuição me avisa, mas teimo em não ouvi-la, por quê? E aí penso nas minhas viagens...

Quando visitei os Jardins de Monet e as rosas de Versalhes, pensei: é muito ruim ir embora. Seria tão bom ficar ali, curtindo aqueles jardins da velha casa do gênio pintor e assistir * ao desabrochar das rosas de Versalhes... Como é boa a sensação de que * é importante viver e aprender, estando ali, naqueles recantos da Europa, inteiramente sem compromisso... Passear no Jardim de Luxemburgo, na França, assistir ao por do sol no canal de Florença, na Itália, assistir à dança * flamenca nas cavernas dos ciganos lá em Sevilla, na Espanha, ou navegar no mar azul rumo as Ilhas Gregas... E tantos outros belos recantos mais! Podia eu ficar por ali, esquecida de voltar, como se não existissem problemas, e a alma se alimentasse apenas de novos lugares com suas histórias... Com a beleza das novas pessoas e as magníficas obras de Arte dos diversos Museus.

Imagino que Gaugin resolveu abandonar a família para ir morar com as nativas de Honolulu, para salvaguardar-se da normose da sociedade onde vivia. Assim como os monges e monjas, deixam ainda vivos, a Terra, para viverem unicamente para o grande Amor Divino. Tal como Charles de Foucault partiu para o deserto e ali viveu até o final dos seus dias.

O que quero dizer é que estou um pouco cansada de solitárias viagens interiores, das grandes reflexões, dos parágrafos difíceis, das teorizações. Talvez seja por isso que não consigo encontrar aquela poesia escrita no caminho de Barcelona. Se bem que, em poesia, não se teoriza. Valeram os versos que fiz ao vivo, na viagem, em contemplação viva ao belo. No fundo, quero * libertar a poesia do papel. Deixá-la no coração, aquecida pelas boas lembranças.







domingo, 25 de setembro de 2011




"Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro se esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem o presente, nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido."


Dalai Lama

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Transmutação



                                                                                                                                                          Maria J Fortuna



A alma possui um corpo forjado por aqueles que participaram de sua formação como pessoa. Imagino a dança dos cromossomas trazendo, em cada um, sua carga genética que constrói o caráter dos que vem a este mundo. Gosto de pensar no sopro divino que anima cada um em particular, sua matemática cheia de lógica, o jogo genético que vai se delineando no ventre materno com traços que vem de tão longe... Cada um de nós é um poema escrito pela vida. E daí a pergunta: Quem será o próximo que está sendo preparado para vir ao nosso encontro? E o que trará consigo e o que deixará no mundo quando se for? Ou seja: Quem somos nós e o que deixaremos, em nosso planeta, para os que aqui estão e, em sua partida, o que irão deixar? O que vamos acrescentar, somar?

À medida que o tempo passa, alguns desses pensamentos suscitam várias formas de respostas. Ou será que elas são fruto dos anos que testemunham a luta pela sobrevivência? E do esforço por crescer na convivência com a insegurança, filha do medo? Mas é este sentimento de insegurança que nos faz mover em busca da luz. A vida é um paradoxo. Sinto-me na reflexão acerca de tais pensamentos. Sei que é necessária a consciência desse apelo cósmico para crescermos, tal como a semente rasgando o seio da terra para sentir a luz do sol. Um apelo intrínseco à natureza humana. Ultimamente venho sentindo, cada vez com mais intensidade, o quanto este nosso mundo é virtual! E quanto devo ser eu mesma para que não me perca do caminho. O drama da Terra parece palco onde se desenrola a história de amor de um temido bruxo por certa bela fada. Por isso temos necessidade da herança deixada pelos melhores seres humanos que viveram antes de nós. Porque sabemos que todos nós vivemos estas polaridades.

Existimos e passamos para os outros a experiência de vida impressa em nossos corações. Ação e suas consequências. Percebo que há um apelo forte para reconhecer e acolher aquele que nos referencia como pessoa. E a importância do discernimento: ser, e não ter e parecer, para que não nos percamos no falso, na ilusão. Coisa difícil no mundo capitalista. É como se o bem e o mal fossem trançados pelos cabelos da vida definitivamente. Saber conviver com os ganhos e perdas. Ter coragem mais para ganhar do que para perder... Vigiar e orar para que os momentos amorosos não se percam por causa do medo e da negação de si mesmo, é fundamental. À medida que o mundo proporciona às pessoas a perda de si mesmo, mais aumenta o apelo para a busca e encontro com o nosso eu verdadeiro.

O que fazemos com os traços de caráter que estão impressos na alma, desde a fecundação? E o que faremos com nossas lembranças? Se boas, é bom que fiquem aninhadas no coração; se más, temos o ímpeto nos livrarmos delas o mais depressa possível. Muito difícil transformar dor de mágoa em gozo de amor... Quando a alma suga muitas tempestades e fica encharcada, há uma grande necessidade de desaguar. Mas isto só ocorre se não nos apegamos àquela dor que, com o tempo, torna aquelas águas insalubres. Só o pranto, às vezes, não dá para que esvazie e dê lugar às coisas vivas, por causa do apego, porque este, como a insegurança, é também filho do medo. Mas é preciso escoar, torcer as mágoas como o fazemos com borra de café. Para que nos transformemos, como aqueles grãos colhidos, amassados e triturados, mas transformados em bebida acolhedora em sua negritude morna e gostosa. Por isto o gosto de se reinventar, criar!

Cada um há de encontrar suas respostas. Mas é certo que sinto que, de uns tempos pra cá, tenho pensado muito que sou responsável, não só pelo meu próprio crescimento, mas também pelo o do outro. É a consciência, cada vez maior de que somos iguais em nossas diferenças. E agradecida às pessoas que colaboraram pelo que sou. Tanto de bruxa quanto de fada, pois o sangue venoso e arterial ocupam o mesmo corpo que se transforma a cada momento. Por isso gosto tanto do que disse o filósofo Sartre: “Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço como o que fizeram de mim!”.







terça-feira, 20 de setembro de 2011





"Não creia que os animais sofrem menos do que os seres humanos. A dor é a mesma para eles e para nós. Talvez pior, pois eles não podem ajudar a si mesmos." (Dr. Louis J. Camuti)


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Um pássaro é um pássaro...



foto e texto
                                                                                                                 Maria J Fortuna



Um pássaro é um pássaro, uma flor é uma flor. Por que para o ser humano é tão difícil ser ele mesmo? Parece uma pergunta idiota, de quem não conhece sua própria natureza e as dificuldades cognoscíveis ou não, por que tem que lutar para conseguir tal intento? A pergunta poderia ser: por que criamos, ao longo do tempo, tantos obstáculos para a realização plena da nossa natureza humana? Sabemos que logo que a luz se faz a nossos olhos, já estamos às voltas com nosso próprio temperamento, que se a princípio não aceito pelos pais, contribuirá para nos transformar num desastre! Depois vem a família, religião, valores culturais que ajudam ou dificultam o autoconhecimento. Isto todo mundo sabe, mas aí me vem outra pergunta: que espaço temos para sermos livres de dogmas e preconceitos em nossas vidas? Sim, porque para que haja autoconhecimento precisamos, acima de tudo, de liberdade.

Durante muito tempo li muitos livros e textos de Jiddu Krishnamurti. Este Mestre foi o grande responsável pela quebra de paradigma de muitos dos meus companheiros na década de sessenta. E o que me encantou nele foi a força interior que o fez se negar a ser o veículo para o "Instrutor do Mundo". Krishnamurti, no entanto, não tinha compromisso com nenhuma linha filosófica ou religiosa, não sendo do Oriente nem do Ocidente, mas para o mundo todo. Declarou ser a verdade "uma terra sem caminhos", à qual nenhuma religião formalizada, filosofia ou seita daria acesso. Só tinha compromisso com ele mesmo. Imagine a revolução interior, a ausência de referência quando, de repente, uma pessoa referenciada por crenças e dogmas judaico-cristãos, se depara com tal proposta de liberdade? Krishnamurti afirma que é possível produzir mudanças fundamentais na sociedade, apenas pela transformação da consciência individual. Isto me lembra a proposta de Paulo Freire sobre a importância da necessidade de uma pedagogia dialógica emancipatória do indivíduo oprimido. O que nos oprime afinal? Por que temos tanto medo da liberdade?

Neste mundo moderno está cada vez mais difícil o indivíduo ser autor de sua própria história. No apelo do consumismo, na luta desvairada pelo poder, na correria da sobrevivência, estamos nos perdendo. As máscaras se sucedem, conforme as conveniências e, cada vez mais, ocultam a nossa própria verdade. A violência, a exploração e a injustiça estão presentes o tempo todo, sem data para acabar.

Enquanto tudo isto acontece, alguém acorda absolutamente ausente de si mesmo e, neste estado, consulta o horóscopo do dia, toma um desjejum às pressas, pega condução para o serviço. À noite, ao chegar em casa, liga a TV no noticiário do horror, assiste à novela da onda e vai para a cama dormir ( se conseguir). Acorda no dia seguinte, quando tudo recomeça...

Quem é esta pessoa? Não faço a mínima idéia... Nem ele próprio.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A turma do Jardim Laranjeiras

                                        circodaspulgasduda.blogspot.co


Maria J Fortuna




A criançada estava reunida num terreno baldio ao lado do prédio onde meus pais moravam. Cacau, minha sobrinha, que na verdade se chama Claudia, estava no meio deles. Havia criança de 4 a 10 anos. Aquele terreno, que com sua garganta suja, mostrava os restos mortais de uma antiga casa demolida, era o refúgio da meninada que morava nos prédios circunvizinhos. A brincadeira corria solta quase toda tarde, até quando uma das mães pendurava-se na janela do prédio para chamar o filhote, por que era hora do banho ou do jantar.

Aquele dia turma se reuniu para alimentar uma grande aquisição do grupo: um pintinho, que estava mais ou menos com uma semana de vida, e que já mostrava algumas tenras penas saídas do corpo frágil, amarelo, cheio de penugens. Mas... Mal chegaram ali, viram o pequeno projétil de ave, deitado com as pernas pro ar com os minúsculos pés embolados. O pintinho havia falecido! Foi uma tristeza...

Começaram os preparativos para o enterro da avezinha. Um dos guris buscou uma caixa de sabonete Phebo, que a mãe de algum deles conservava em seus guardados. Outros percorreram a rua para colher flores, a fim de cobrir o corpo e a sepultura do Piu Piu. Era assim que eles o chamavam. Isto porque não sabiam seu sexo. Poderia ser um filhote que viraria alguma galinha gorda, que o grupo, na certa, protegeria da faca. Ou um galo, que se tornaria rei do terreiro. Mas que terreiro? Aquele pintinho deve ter saído de alguma caixa durante a feira que acontecia as sextas e ali todo mundo morava em apartamentos, não dava para acolher o pintinho que talvez tivesse vindo de uma chocadeira. Será que o coitado não conheceu nem mãe, nem pai? Era o que os meninos se indagavam. Algum vendedor de aves se descuidou. Difícil encontrar lugar pra ele que não fosse o tal terreno baldio, sob a proteção da turma.

Depois, dois dos garotos cavaram o chão cheio de cacos, tijolos e vidros da antiga construção, e Piu Piu foi então enterrado perto de um pequeno mamoeiro, que teimava em crescer por ali, naquelas condições precárias, sem água nem nada.

Aí começou a choradeira... As meninas choravam aos borbotões. Os meninos faziam cara de macho: -“Homem não chora! Só se for um bebe!” Puseram uma cruz de pequenos galhos de árvore, amarrando-os com linha do costureiro de alguma outra das mães, e cercaram a sepultura do animalzinho com pedrinhas, no formato de coração. para não esquecerem onde Piu Piu havia sido enterrado.

Em meio à cerimônia do enterro, surgiu Neném, de 4 anos, conhecido por este nome porque ainda usava chupeta. Neném entrou assim meio desconfiado, puxando um carrinho de plástico cheio de pedras. Até então ele estivera viajando com sua família.

Aproximando-se cada vez mais e olhando para os amigos mais velhos, o guri parou, curioso e, em seguida, ficou ali de pé, embaixo do pequeno mamoeiro, impávido! Então, uma das meninas carpideiras, depois de um longo suspiro, ao perceber a presença do recém- chegado, indagou:

- Neném, você não vai chorar?

E ele, cruzando os bracinhos e fazendo cara de amuo, falou com raiva:

- Não vou chorar não.

- Mas por que, Neném? Indagou a turma em coro.

No que Neném respondeu com um ar preocupado:

- Ora, eu não conheci o pintinho!



Esta crônica foi publicada no Jornal João do Rio, onde ocupo um espaço
http://www.joaodorio.com/site/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Brotando no escuro


                                                                                                                           Maria J Fortuna



Guardada nas gavetas da memória, está a doce lembrança daquele dia em que a planta brotou no escuro. Parece incrível, mas aconteceu! Eu a havia comprado num quiosque, desses que existem por aí, nas esquinas do Rio de Janeiro. Aconteceu que ela, aparentemente, parecia ter morrido, sem deixar sementes. Mas não era verdade. Apesar das pequenas flores vermelhas que foram caindo, como lágrimas de sangue, em cima da minha escrivaninha, das folhas que nem sequer foram amassadas pelas mãos do tempo, do caule central ter recolhido as pequenas hastes de tom cinza desbotado, vergando-se até dar a impressão de que iria mergulhar na terra. Apesar de tudo isso...

Eu havia deixado o vaso num quarto fechado e escuro e saí estrada afora, numa viagem ao sol, para Belo Horizonte. Não pensei mais na planta. Só prometi a mim mesma, que não iria comprar outra daquela espécie tão fraca.

Enquanto isso, a vida borbulhava numa semente nova, irmã da falecida, embaixo da terra úmida, no vaso azul pintado com nuvens que imitavam o céu. Quando cheguei de viagem, a surpresa foi grande! A nova plantinha se espreguiçava, através de duas folhinhas verdes como esperança, que balançaram com o vento, causado pela abertura da porta do quarto.

Lembrei-me da gestação da minha mãe, quando me abrigava semente, em seu seio. Ela se conservava em total silêncio, no brotar de nova vida em seu útero. Ninguém podia imaginar que, aquela mulher fragilizada pela doença e pela idade, estava a gerar mais um ser – o quarto filho. Marido desempregado, família morando na casa do pai e lá vem outra gestação! Minha mãe havia perdido a mãe, mas tinha pai e onze irmãos. Alguns casados. Dizer que estava grávida àquelas alturas, soava como falta de juízo. E ela escondeu o mais que pode, o broto que crescia no escuro do seu ventre e que estava dizendo sim à vida, apesar de tudo! Gravidez aos 38 anos também seria de risco. Enfim, tudo ia contra meu eu, enquanto semente, regada pelas lágrimas ocultas da mãe.

Quando estava no quinto mês de gravidez, uma tia, ao visitá-la, notou o ventre crescido e ela teve que contar o que estava acontecendo. Daí teve muita fala de protesto na família, onde culpavam pai e mãe de “irresponsabilidade”. Mas tudo isto ocorreu quando, em plena guerra, centenas de crianças eram assassinadas nos campos de concentração nazistas. Outras crianças foram esmagadas com seus pais e avós, e eu me sinto privilegiada por ter tido o direito de nascer. Ainda mais daquela linda mãe, tão especial, que me acolheu com tanto amor!

Estou certa de que, no mundo, existem duas espécies de seres humanos: os que foram gestados no escuro, mas mesmo assim nasceram, e os que foram desejados e amados de todo o coração. Quando vejo alguém irritado, agressivo, fico pensando de como foi semeado, brotado e recebido, em especial por sua mãe. Geralmente acerto. Há casos em que a consciência da presença de um Amor maior, aquece e ilumina a semente brotada no escuro e ela se desenvolve, apesar da sua luta existencial. Apesar de conhecer, prematuramente, o sofrimento e se expressar com dificuldade. No segundo caso, a pessoa é amorosa e solícita. Suas raízes foram plantadas em terreno amoroso. É cheia de graça e compaixão, tratando os outros com o mesmo acolhimento de como foi recebida no mundo. É alegre e muitas vezes invejada.
 Mas todo tipo de caráter é bom quando concebido amorosamente. Não importam as condições. Brotará, mesmo no escuro..



Quem sou eu

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Sou alguem preocupado em crescer.

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