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sábado, 13 de abril de 2013

O conflito

 Aquarela da autora





Maria J Fortuna


Carecia de definição. Coisa que a alma busca toda uma existência. Havia dois homens em sua vida. Pelo menos o fantasma deles. Um era seu pai, símbolo de castração. O outro era Jesus, Homem Deus assexuado. Foi assim que lhe ensinaram. Deste jeito assimilou estes conceitos, mesclados de forte sentimento de dor e impotência diante do macho. Sugou e engoliu isto, junto ao leite de sua primeira mamadeira, já que o seio materno lhe foi negado.
O preço para encontrar Deus era abster-se da vida no sexo. O homem ou era animal violento, ou um ser divino e inalcançável.
Cresceu sentindo dores atrozes, provocadas por esta ferida aberta no coração e no sexo. Sofreu com a auto-sentença: jamais encontraria um ser , espiritualmente hermafrodita, que apenas lhe lambuzasse o sexo e não a penetrasse de forma alguma.
Meninos não brincam com meninas, porque são estúpidos e grosseiros. Assim lhes foram apresentados por suas tias solteironas.
Haveria sempre um véu sutil, aparentemente transparente, entre ela e qualquer homem. Mas havia certo fascínio pelos meandros misteriosos que se passavam no corpo e na alma do macho, que era sempre grosseiro e indecente, mas livre.
Olhava a mão dos homens. Se houvesse aliança, a mão era imunda, indecorosa, tinha licença para percorrer o corpo feminino até as mais proibidas partes.
Talvez o homem ideal estivesse num seminário. Lá os varões eram abstêmios de sexo. Viviam em oração. Sonhavam tornarem-se santos. Dormir com um santo seria sossego para a menina de pernas trançadas para proteger sua vagina e um rombo doloroso. Sofria de repudio a ideia de ser penetrada, mas ao mesmo tempo sentia o hímen como algo que sufocava sua liberdade de ser.
Até então melhor ser virgem como a Virgem, Mãe do Homem que salvara o mundo sem usar seu aparelho genital. O sagrado não podia se fundir ao profano.
Padecia de pecar contra a castidade, o tempo todo vigilante, pelo tema recorrente perturbando a mente todos os dias. Com isto sentia-se pendurada na cruz da autopunição. Não sabia o que fazer com a flor do sexo desabrochando em seu corpo.
Ninguém pensava mais em sexo do que aquela garota! Ou será que suas contemporâneas não viviam o mesmo drama?
Quando criança, vestida de anjo nas procissões, sentada no altar dos santos, morria de vergonha de si mesma, por não ser um anjo verdadeiro. Eles são puros, assexuados, pensava. Sou um falso anjo sujo. Estou enlameando o altar com mau cheiro. Aquilo era um sacrilégio!
Na realidade só tinha permissão de brincar e dormir com as primas da mesma idade.
Era tão incomodo ser mulher que resolveu fantasiar-se de homem. Percorreu com o pensamento às escuras ruas de sua cidade buscando outras mulheres. Assim o fazia seu irmão, que suscitava grande inveja em seu coração. Podiam até ser contaminados por doenças, mas eram livres para procurar aquelas mulheres proibidas. E quanto mais proibidas, mais fascinantes!
Projetava-se nos homens que buscavam as prostitutas que eram encontradas por eles. Descobriu que elas faziam tudo que eles queriam e desgostou-se delas. Mas talvez fosse bom consolá-las no desespero de deitar-se com homens imundos!
A mãe nunca lhe foi modelo. Era santa. Sofreu o martírio da relação com seu pai só para parir filhos. Portanto preparou-se para ser mãe e não mulher. Apesar de temer a dor de botar um filho no mundo.
Motivo de grande vexame foi a primeira menstruação. Sangue quente descendo-lhe da vagina virgem e aquele ridículo absorvente entre as pernas. Enquanto ficava corcunda de tanto esconder as mamas que despontavam rapidamente como no mamoeiro do quintal de sua casa.
Foram muitos momentos solitários de grande humilhação! Por que orgulhar-se de sua condição feminina? O que havia de interessante em ser mulher? Por que despertava interesse dos homens quando passava na rua, apesar de encolher o corpo, procurando fechá-lo todo como fazia uma planta sensitiva? Sonhava que, num passe de mágica, poderia dar sumiço as suas indecorosas curvas. Ver desmoronar todo o trabalho do tempo. O que menos queria era transformar-se em isca fácil para vorazes machos sedentos.
Diante do espelho não podia dizer-se feia. Muito pelo contrário, ela era uma linda e esquiva boneca de carne!
Um dia combinou um encontro com o coroinha da igreja, a fim de acabar com a virgindade mutua. Foram para um apartamento do amigo dele em Botafogo. Mas nada ficou resolvido. O rapaz era incompetente para solucionar o problema. Ele tinha duvidas a respeito de sua masculinidade. E a tal duvida o atormentava, confessou. Tornaram-se cúmplices do mesmo segredo.
Como iria resolver seu próprio teorema existencial? O desfoque total de sua natureza feminina diante do mundo?
Cortou suas lindas madeixas castanhas e vestiu uma blusa masculina azul com jeans e tênis branco. Não era feminina, mas era linda!
Com o passar dos anos outra menina, com o mesmo problema de identidade, tornou-se amiga inseparável. Juntas, descobriram o quanto eram capazes de sentir prazer. Debruçadas uma sobre a outra, cheias de desejo, exploravam reciprocamente seus corpos. Não havia plenitude, mas ternura. Falavam a mesma linguagem e procuravam, no fundo do poço de suas almas, o que poderia completá-las. Meteram-se em buraco fundo. Atoladas nos preconceitos do mundo.
O pai ficou sabendo da relação. Jurou matá-la se a encontrasse com a parceira. A angustia a sufocava. Dilacerava seus intestinos. Com o tempo começou a usar drogas.
Desnutrida, sem sentido para a vida, levaram-na a um psiquiatra. Nada feito. Tentou escapar do mundo de qualquer jeito. Sentia que, com ela, tudo estava errado. Mulher tem que gostar de homem. Mas o que fazer se gostava de outra mulher?
Mas e a família, o futuro emprego, a sociedade de um modo geral?
Depois de longo tratamento com psicotrópicos declarou-se curada. Vestiu uma roupa sensual, calçou sapatos altos, pintou os lábios, recuperou seus longos cabelos e adquiriu uma estranha postura, nada convincente, de que havia se transformado no que os outros queriam que ela fosse.
Não demorou muito para eu ficar sabendo que a garota havia morrido sem encontrar seu lugar no mundo. Os pais choravam, o irmão desesperava-se e os parentes enumeravam suas virtudes e teciam belos comentários a seu respeito. Outros evitavam falar qualquer coisa a respeito do que tinha sido sua vida. Havia vários rostos, várias máscaras. Algumas até bonitas, mas imóveis, como no carnaval de Veneza.
Eu fui ao velório. Ela estava vestida de cor de rosa.


2 comentários:

Monica Puccinelli disse...

A Humanidade se ilude acreditando ser evoluída, infelizmente, ninguém é evoluído se pelo menos não é livre de preconceitos, libertar se, muitas vezes é só na palavra pronunciada, o conflito interior, lentamente, mata, bjs a você grande amiga, um abraço, monica

MJFortuna disse...



Maria Claudia Grillo

21:53 (2 horas atrás)


para mim


Maria,



Adorei sua crônica! Esse trecho inicial, então, é maravilhoso. Parabéns!

Estamos nos devendo um café, não é mesmo ? Espero que seja em breve.


Beijos!


Cláudia.


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