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sábado, 13 de julho de 2013

A pior idade




Maria J Fortuna

O ensinamento vem do Oriente: tempo e morte são um só. Viver o tempo significa viver a morte, diz o mestre indiano, já falecido,  Bagwan Sri Rajneesh, chamado hoje de Osho. E continuando,  ele diz que a partir do momento em que o tempo desaparece, a morte desaparece também.
Aqui no Ocidente, nunca o tempo se torna tão presente quanto o desejo do consumo que se faz em nossas vidas.  Possuir dá certa ilusão de que assim a existência individual ficará mais estável, segura, quando é justamente o contrário. É na insegurança que reside a sabedoria. (Allan Watts escreveu um livro sobre o assunto).  Quando em nossas vidas o  ter substitui ,  quase que integralmente,  o  ser, o desastre se faz!  Mergulhamos na expectativa do impossível: como deter, por exemplo,  o avanço das rugas, dos cabelos brancos, da flacidez da pele, sintomas  que também são nossos, usando tais e tais produtos, que segundo o efeito prometido, são cada vez mais caros.  E caro quer dizer também querido.
A maioria das pessoas deixa sua verdadeira essência para buscar o ilusório, o que perfuma e fantasia a realidade.  Isso me faz pensar e sentir, que aquele que se preocupa muito com o passar do tempo, fica paralisado pela pressa em querer, a todo custo, operacionalizar seu potencial numa estação que não permite mais o brotar de algumas sementes. Foi aí que o surto da pior idade se fez em mim.  Foi  ontem, quando olhei para a tela que pintava, e a voz do tempo vestido de consumo, sussurrou aos meus ouvidos:   - Puxa! A pintura poderia ter saído melhor se você tivesse tido incentivo. Se meus pais ou alguém tivessem descoberto seu talento quando você ainda era  jovem...    E agora? Como crescer e amadurecer na arte a essas alturas?  Indaguei a mim mesma: Que vertentes tomar que possam  levar-me a sentir o domino da técnica, encontrar o verdadeiro sentido da minha arte e bem exprimi-lo? Nesse momento a vida tomou tons amarelados e cinzas.
                Foi assim que me senti ontem: numa pressa desenxabida tomando conta do ego. Bateu uma ansiedade neurótica e inútil ao coração.  Fiquei pensando nas circunstâncias que não me deixaram ter sido bailarina, atriz e por fim artista plástica. Tudo o que poderia justificar minha existência. E agora? Como esquecer que não há mais tempo?
Reclamei do Criador porque não nasci no Oriente, onde a pessoa aprende, desde cedo a meditar, chegando a ficar completamente silenciosa, sem nenhum pensamento buzinando na mente e tornando-a ainda mais barulhenta, com coisas indesejáveis, como a sensação de fragilidade e impotência que a velhice nos trás. Onde não existe o se... Se isso... Se aquilo... Em vista disso, senti que estava tendo mesmo o tal surto. Aquele de quem vive no tempo da pressa, na ânsia pelo impossível, no querer resgatar o que não mais nos pertence. De fechar os caminhos da esperança e gelar o coração.
           Os Sufis dão voz a Jesus, fora dos Evangelhos, quando contam o seguinte episódio: um peregrino perguntou a Ele sobre o que seria a coisa mais importante no reino de Deus. No que Jesus respondeu: “O tempo não mais será".

   A solução que busquei para amenizar o surto foi eliminar, a princípio mentalmente, o que na verdade não me interessa e ficar com o essencial. No que ainda  posso me realizar  por aqui, por esse mundo de luz e sombras. Pensei que cada pincelada que faço na tela leva consigo a emoção que desafia e transforma! Que não interessa se não consigo me expressar bem dentro de um código acadêmico mas,  como o faço em relação às minhas poesias, vai todo o coração em cada pincelada. E isso está fora do tempo.  Bem como os sentimentos e emoções que tingem a tela da minha vida. Abençoar cada palavra que escrevo sem pensar qual será minha última palavra.   Dar luz à imagem que existe dentro de mim mesma, feia ou bonita, luminosa ou escura, limitada ou não. Procurar o essencial.
  A pior idade é, com certeza, quando abrimos a porta para o tempo que se passou, esquecendo o que ainda pode ser feito.   É aquela em que a gente busca desesperadamente o que não nos cabe mais. O Buda considerou o desejo como fonte de todo sofrimento. Do desejo consumista vem a loucura do mundo!
  Por mais dura que tenha sido a negação dos dons de si mesmo, ser pleno do que se faz é o segredo da criatividade. E esta é inesgotável!
 Sei que o surto vai voltar, mas quando acontecer devo lhe dizer que não existe coisa mais inútil que me fazer sentir assim.

2 comentários:

MJFortuna disse...


Norália de Mello Castro, por email:

Não sei se meu comentário chegará até você... Pela crônica de hoje, parabéns. Excelente por excelência... gostei demais... Parabéns. Abraços, Norália

MJFortuna disse...




MARIA DO CÉU


09:34 (6 horas atrás)


Obrigada , querida Mariinha, por partilhar comigo seus muitos talentos e sua SABEDORIA!
Gostei demais da crônica sobre a pior idade. Reflexões que levam o leitor a uma melhor compreensão da existência.

Carinho, Cecéu.




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