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quarta-feira, 29 de abril de 2015

O Pivete



Escrevi esta crônica em 2006 e relendo-a lembrei-me de que está em discussão a maioridade penal, para mim a triste consequência de um problema não resolvido. 


                                                                                                               Maria J Fortuna




                          De repente o pivete apareceu em minha frente.

                   Eu nunca havia parado para olhar nenhuma criança daquelas nos olhos. O medo não permitia. Temos medo de crianças aqui no Brasil. Principalmente quando seus olhos estão vermelhos, denunciando o uso de crack ou cola de sapateiro. De crianças que não são nossos filhos e netos, nem tampouco nossos sobrinhos, vizinhos e conhecidos. Uma mistura de medo, revolta e compaixão, tomou conta de mim. Que dificuldade tive para encará-lo! Ele tinha um olhar de fome... Fome de comida, escola, família. Fome de amor e justiça! Estava cheio de ódio! Dava um medo danado! Ódio da miséria e da fartura dos que tem e o que ele não consegue ter. Ódio da desconfiança sistemática das pessoas, de sua própria imundice corporal que o segrega. Sobretudo ódio de ter vindo a este mundo.

                      Sem saber a quem dirigir tanto ódio, arremessa-o, como flechas, ao primeiro passante que lhe nega uns trocados. Eu senti aquela descarga mortífera. “Cada flecha portadora de um recado: “Vai a puta que te pariu”,” Que se foda”, “Enfia no cu”, daí por diante... Pintados aqui e ali formam um exército sem CIEPS, grande sonho de Darcy Ribeiro, que Moreira Franco destruiu. Onde, certamente eles tornar-se-iam cidadãos. Mas o que vemos é oito milhões de desempregados com suas famílias famintas...

                 Quanto tempo teremos que esperar que pais de família que dantes eram pacíficos se tornem, de repente, feras ambulantes cheias de ódio, com seus filhotes largados ao léu, transformados naqueles pivetes? Com suas meninas prostitutas gerando outros filhos sem teto? Lembrei-me da matança da Candelária. As metralhadoras atirando naqueles corpos infanto-juvenis, sem nenhuma oportunidade de vida ou de defesa. Não eram os corpos de nossos filhos, netos, sobrinhos, pertencente à classe media ou alta.  Eram crianças que incomodam. Que avançam em pessoas nos sinais, que derrubam gente para roubar. Infelizmente só assim conseguem um pão para comer. Ou drogas para usar? São os filhos do nosso país, sem cidadania. Crianças que não sabem como anda o PIB , ou o risco Brasil.

                         Só vêem ceia de natal em folhinhas e nunca tiveram uma alimentação digna do seu crescimento físico, o que não dirá o seu crescimento emocional, social e espiritual... Esses pequenos escravos da miséria não sabem o que lucram os banqueiros do país. A nossa economia não cresce, mas os Bancos têm lucros astronómicos! Só o Banco do Brasil, no ano passado, ( 2006) com um atendimento quase precário, teve um lucro de R$ 1.7 bilhões até o mês de Setembro. Imagine os outros bancos como Bradesco, Banco Real, etc... E nunca ouviram falar nos sonegadores de impostos. Talvez ouçam falar em ladrões do governo, mas não compreendem muito bem do que se trata. Eu fui trinta anos assistente social e sei disto. São seres completamente alienados e nem desconfiam de onde vem seu infortúnio e, mesmo no ódio, acabam conformando-se com sua “sina”.

                     Desconhecem, no entanto, que são fruto de um ramalhete nauseabundo. E que suas mães, quase todas adolescentes, a maioria moradora de rua ou prostituta de algum cortiço, vão parindo bebes sem futuro pelo Brasil a fora. Seres humanos que não conhecem seus pais. Digo, aquele que os gerou no ventre de sua mãe menina. E que, se conseguirem viver até os catorze anos, além de abusos sexuais e de outros tipos de violência, eles serão pais de nova fornada de pivetes, escravos dos traficantes da favela e nunca conhecerão os grandalhões do tráfego. Desconhece a política armamentista dos países desenvolvidos e outros buracos negros que trazem este tipo de fome cruel para o mundo!

                  Infelizmente a palavra de ordem no país é de submissão aos que estão no poder, enquanto os corruptos compram apartamentos em Miami e lavam dinheiro em paraísos fiscais. O lucro do capitalismo continua sendo o bem supremo. Por não saber dessas coisas, o pivete mantém seu ódio frio contra a população de classe média, que não sabe mais o que faça para se proteger. Principalmente os anciãos.

                      Somos o país de maior desigualdade social no mundo. Nós e a Índia. Além dos políticos corruptos e corruptores, temos religiosos hipócritas que amedrontam o povo humilde, pondo-lhes sentimento de medo e culpa para roubar-lhe o minguado salário dos que ainda tem um modesto emprego de salário mínimo. E pelos meninos de rua, nada é feito. Aqueles que almejam o poder em nome de Cristo.

               Latifundiários, empresários, banqueiros que vivem devastando o planeta, acabando com a Amazônia, se cuidassem de um só desses brasileiros sem cidadania... Crianças que são como rios poluídos, pequenas árvores arrancadas precocemente do solo, ou do seu tronco familiar, quando são espancados em casa e atirados na rua por se uma boca, já crescidinha, a mais. Mata incendiada por dor e agonia.

                          Somos uma fabrica de pivetes. A todo o momento sai mais de uma fornada deles. A cada recorrência virão mais impostos. Aumentam os desempregos, o atendimento social e a maior falta de expansão dos investimentos públicos. Com isto aumentam os problemas sociais. Não há pivete tipo exportação. Temos que arcar com todos por este triste preço...
Alguns europeus vêem buscar nossos meninos para serem seus filhos. Mas os recolhem em casa de caridade ou creches, ainda muito pequenos, mas não os que estão em nossas ruas.

                       Enquanto alguns dos nossos jovens de classe média alta se alienam com drogas e com o lixo televisivo da Globo. Essas crianças – adultos precoces no mundo do crime – adoram os Rambos do tráfico e cheiram cola para esquecer a fome. Dormem debaixo de marquises e planejam assaltos. Com a loucura do capitalismo selvagem que não sabemos quantos filhos de família rica e bem alimentada tem olhar de pivete, olhar de fome, de carência. De repente eles têm teto, terra e educação. Vão até para fora do país aprender outra língua. Em muitos casos esses privilégios, fora a mesada, não pagam o bem supremo que não recebem – o amor.

                            Ah! Como eu gostaria que aquele pivete, a quem ousei encarar, soubesse do que se passa. De quem são verdadeiros responsáveis por sua miséria. Quem são para eles os adoradores do poder? Afinal é triste ser pára-raios dos olhares de revolta desses meninos e adolescentes que cospem quando a gente passa.

Se aqui roubam para comer, imagino o que não seria viver num país culturalmente evoluído! Como se torna este sonho distante deles anos luz... Só um milagre traria um bom prato de comida com todas as proteínas e vitaminas de que precisam. Roupas limpas, escola, teto, família... Enfim algo que lhes estimule o sentimento de pertencer a uma comunidade que os ame e os respeite como cidadãos.

                           Utopicamente pensei em ver aquele olhar transformado por tantas formas de alimento. Até ouvindo Noturno de Chopin, dançando sob as estrelas ao som de uma valsa de Strauss, sorrindo com os dentes brancos a amostra. Cheirando as flores silvestres. Com um olhar doce dos que conhecem o amor e a beleza!

                         Refletindo sobre as flores mortas da irresponsabilidade, quase pus um par de asas no pivete... Para que ele voasse através da minha utopia!  Um pensamento quase surrealista. Eu o vi virando índio em minha frente. Comendo mandioca e outras iguarias das selvas. Dançando as danças de louvor a Tupã e pescando nos rios de águas frescas da Amazônia. Caçando com arco e flecha, namorando uma mocinha da tribo. Sendo pai de curumins apesar de que estão dizimando nossos índios também. De repente ouvi aquela voz debochada, abusada:

                        - Tá olhando o que, dona?

                         Como não havia o que responder, acordei do sonho, repentinamente. Então sai de fininho respeitando aquele ódio todo e com muito medo ainda.

                         Ao chegar a casa escrevi na minha agenda:

Flor
Pedra
Menino sem pão
Poesia cega





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