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quinta-feira, 16 de julho de 2015

A vigilia


           
                                                                                                                   Maria J Fortuna


Eram raras as noites em que Luma dormia. Quando isso acontecia, no dia seguinte ela acordava energizada e, de forma ansiosa, aproveitava o breve bem-estar  para realizar tarefas que estavam a sua espera durante dias e dias.. Algumas há anos... Mas, o tempo de vigília era curto e as tarefas acumuladas eram muitas... Com isso sua vida produtiva parecia acidental e quase todas as suas ações eram perdidas, partidas, como se ela soubesse o caminho para o fim da jornada, mas devido a inúmeras encruzilhadas, o caminho se tornasse tortuoso e desanimador. O que mais lhe angustiava era não poder sentir com clareza a finalidade de sua existência.
No mais, na rotina do dia a dia, saia-se bem.    Fazia de tudo para não deixar transparecer sua face insone.    O tempo se passava e ela se sentindo como zumbi. Sempre foi assim, desde o dia em que, sozinha numa bolsa de estudos em Londres, aos 22 anos, teve  acesso de pânico ou coisa parecida. Voltou para o Brasil, mas não era mais a pessoa corajosa que partiu para o desconhecido. Voltou frágil e não ficou mais que um ano ausente.
Ao chegar, foi internada, pelos amigos, num Hospital Psiquiátrico. Sofreu com a medicação agressiva e eletrochoques. Levou algum tempo esquecida, mas aparentemente recuperada.
Assim estudava, trabalhava e se relacionava com as pessoas. Mas tudo parecia muito distante, irreal... Quando não a deixavam com os nervos a flor da pele, ficando agressiva, mas por breve período. Sabia como se controlar.
            Em estado de semialerta, não conseguia sentir sua própria presença no que fazia. Poupava ouvidos e coração de músicas que mexiam muito com suas emoções, como os  clássicos e cantos gregorianos. Nada de contato com o que lhe tirasse o esforço para viver a realidade. Mas qual delas? Aquela que vivenciava sem dormir ou a outra em que viviam os mortais?
Assim se passaram 50 anos de sua existência. Sem poder realizar o que sempre quis: ser pianista e falar alemão. Como aprender alguma coisa se a insônia roubava-lhe a capacidade de memorizar alguns fatos corriqueiros?   Mal havia aprendido a falar inglês por sobrevivência. O que não diria em relação ao aprendizado de notas musicais e novas palavras? Tudo lhe trazia assustador tédio...
Algumas pessoas a chamavam de desligada, outras de pacífica, zen e até de uma sábia exótica figura. Só havia uma vantagem... Aquela de não dar muita importância às tragédias que se desenrolavam a sua volta. Tudo parecia pequeno diante daquele estado de insônia! Nada substituía a dor de não estar vivendo as cores fortes dos fatos da vida, por mais dolorosos que fossem.   Queria entranhar seus pés na terra, viver em contato com a vida natural, no campo, nas montanhas, no mar. Alienar-se do mundo capitalista, devorador, desumano. Procurar aconchego no corpo da verdade e no corpo das pessoas que amava e desejava, mas sem intimidade para tal. Queria  esquecer os medos, que não a deixavam dormir... Queria confiar...
Além do tédio, ruim eram as alucinações provocadas pela insônia.  Conforme a brabeza da vigília noturna, via coisas e loisas... De uma forma obscura e dispersa. Algumas, ela deixava pra lá; outras, as fantasias delirantes chegavam a ameaçar sua integridade física. E como tudo aquilo para ela era um caos e o sofrimento indivisível, não se ocupava muito com o que a maioria das pessoas fazem: brigas, confusões, guerras pessoais, comemorações, festas, e outros.

Não se queixava de nada. Nem da falta de amor, que era avassaladora, ou das doenças que ameaçavam chegar de mansinho, anunciando idade mais avançada. Contava apenas com  requintada sensibilidade para as coisas belas. E isso a aproximava de uma realidade maior, transcendente,  que estava sempre presente: um outro despertar!   Isso a ajudava a não se identificar com as alucinações que lhe traziam as noites insones. E chegava a conviver bem com elas. Desde que não contasse a ninguém, para não ser chamada de louca. Mas isso não a livraria da briga com o tempo. Jamais!

3 comentários:

Maria Helena Souza Araujo disse...

Lindo!!! Parabéns pela delicadeza com que retrata seu personagem!!! Beijos!!!

MJFortuna disse...

Obrigada, Maria Helena!

MJFortuna disse...

Comentário de minha fiel leitora que quer permanecer anônima:


"E me vem você com sua LUMA insone, tão parecida com as mulheres  em suas angústias, perdidas em seu interminável que fazer      - na verdade infinito....
Heróica, Luma tentando sobreviver à "INSÔNIA LUMINOSA DOS BRAÇOS DO RELÓGIO" ( alguém escreveu isso, não me lembro mais quem foi...);
Estóica, Luma "vivendo" entre o céu, a terra - quem sabe no inferno, de sua irrealidade quotidiana....Sensação velha conhecida daqueles sobe os quais se abate a angústia extrema.
Trágica, Luma vivendo de seu  não viver."
 

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