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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A fila preferencial






Maria J Fortuna

- Ei senhora, não precisa entrar nesta fila. A outra é preferencial.
Eu ainda não estava preparada para ouvir isto! Foi na rodoviária de Belo Horizonte. Puxa vida, esta moça está me chamando de velha, pensei. Que sensação estranha de absurdo! Será que minha aparência está tão decadente assim? O que tenho estampado no rosto, na postura, no jeito de estar no mundo, que já posso ser reconhecida como idosa pelas pessoas? Idade... A resposta soou dentro de mim. Ora, mas ela não leu minha identidade... Pensei.
Quanta vez esta rodoviária me viu passar... Quanta vez fiz esta ponte Rio/BH? Mais de quarenta anos! A primeira vez foi aos 22 anos, quando fugi de casa. Uma fila costuma ser cansativa... Por que rejeitar, agora, a fila de idosos?
Sei que tenho um complexo de pequenas rugas abençoando-me o rosto. Fruto, não só do tempo, mas de uma vida de luta e trabalho. Mas ainda não posso achar que é velhice. Há tantas experiências guardadas na memória e no coração... Mas estas prenunciam a existência de honrosa bagagem de conhecimento que busca mais e mais respostas para um número insondável de perguntas. Uma vontade enorme de conhecer os recantos mais distantes, conviver com pessoas que somente somam. Não só idosos, mas todos aqueles que tem o mesmo objetivo de crescer. E sonhar e sonhar...
Lembrei-me de alguns sinais, no meu corpo, aos quais dei pouca importância: dores frequentes nos joelhos, visitas noturnas ao banheiro, e alguns achaques que não me eram comuns. Fora pequenos lapsos de memória. Um troca-troca de nomes até conseguir recordar como se chama aquela pessoa com quem quero falar ou estou falando.
Tudo isto eu não imaginava nunca que iria acontecer comigo - o florescer de um novo tempo! Infelizmente para algo tão simples, tão óbvio, não fomos preparados receber. E agora, José?... Como indaga Drummond.

E fiquei pensando... Que idade tinha Ir. Dorothy Stang quando lutava na Comissão Pastoral da Terra? Setenta e dois anos quando foi assassinada. E Zilda Arns, indicada para prêmio Nobel? Por um acaso tinham elas tempo para pensar que estavam envelhecendo? Eu ficaria aqui muito tempo escrevendo sobre escritoras, poetas, artistas plásticas, atrizes, ex-bailarinas, religiosas, médicas, donas de casa que somam. E como... Porque na verdade elas existiram e existem. E despertam qualquer coração cansado com seus exemplos. Não precisam dizer que estão na “melhor idade”! Em todas as idades a realização dos seus ideais as deixavam repletas de energia!
Melhor ser aliado deste sempre vitorioso sujeito que se abstrai e é completamente indecifrável – o tempo. Melhor não ser nunca inimigo de tão inexorável presença, que trabalha em surdina, modificando-nos a vida em nossos corpos desde que nascemos. Melhor que seja nosso aliado.
A vida toda é uma preparação contínua para uma nova fase. E existe melhor forma de deixar-se envolver por ela do que apaixonar-se? A paixão pelo que estamos fazendo, pela nova idéia que surge e surpreende a nós mesmos, como se de repente a gente achasse pérola dentro de uma ostra. Pelo que a gente continua criando e deixando-se contaminar pelo eco de suas cores na beleza deste repentino.
Interessante... Acho que dentro do buraco onde, como avestruz, às vezes, colocamos as cabeças, tem também uma tela de TV... Não podemos fugir dela... Vemos as rugas de Maria Bethânia, Chico Buarque, Milton Nascimento, Francisco Cuoco, Regina Duarte, e outros que tem o privilégio de nunca parar de trabalhar e que continuam incontestavelmente maravilhosos! Sem contar com os ainda mais idosos como Fernanda Montenegro e outros... Eles nos espelham!
Por outro lado, temos em nosso país, idosos senhores banqueiros, de aparência respeitável, ocupando altos cargos políticos, roubando cinicamente a população, sem ter nem tempo para aproveitar do dinheiro roubado... Estas pessoas inevitavelmente são velhos depressivos.
Há algo dentro de nós que não é afetado pelas coisas deste mundo. Será por um acaso a alma? Tudo que está fora do tempo parece um mistério... Acho que além do corpo desgastado e da mente cansada, algo permanece íntegro e anos luz fora da mediocridade. Algo de que temos nostalgia e que nos faz querer viajar para Pasárgada com Manoel Bandeira. Lá somos amigos do Rei... Sejamos sensuais!
Sobretudo que sejamos sensuais! Neste fogo sagrado está o nascedouro da poesia. Da fertilidade criativa que ilumina o existir.O pacto com a beleza, a luz da caverna que nunca se apaga! É aí que a gente dança, sem ar de cansaço e ama de forma inexplicável e se torna eterno!
Diante daquele toque protetor da mocinha na rodoviária, fui obrigada a reconhecer que realmente havia me tornado alguém que, com certeza, merece fila preferencial.

Um comentário:

MJFortuna disse...

Minha amiga Marielga Girodo me enviou este comentário via email.

É isto aí amiga, a idade chega e precisamos aceitar. Aliás, assim que completei 60 anos passei a utilizar meus "direitos preferenciais" ...

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