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domingo, 1 de novembro de 2009

Reconhecimento







Maria J Fortuna

Olhou bem nos olhos os olhos do outro... Aquela pessoa não lhe parecia estranha. O formato das pálpebras, ligeiramente caídas, a Íris de um castanho suave, cheio de pigmentos escuros, formando uma linda mandala, cujos desenhos convergem para o centro, a retina misteriosa que acompanha os seres vivos até o final de suas vidas e espelha mais do que as coisas conhecidas. Reparou os vincos da pele, ceifada pelo tempo, em volta da boca, que já não estava tão bem modulada, mas ainda trazia boas lembranças, de que ele bem sabia. O nariz afilado, bem feito, e o queixo delicado, bem desenhado, ensaiando uma covinha. Subitamente, sentiu o coração acordando como que de um sono profundo, e a respiração parecia presa como um pássaro azul na gaiola de ouro. Ó céus! Aquele instante era semelhante àquela música: “Azulão, Azulão... “ Onde está você, céu de minha vida?
O sinal de trânsito estava quase fechando e ele teve que acelerar o passo. O encontro dos olhos não durou mais do que um segundo. Atravessavam em direções diferentes. Chegou à calçada e ficou olhando, olhando, para ver para onde aquela pessoa de cabelos tingidos de vermelho se dirigia, após chegar à calçada oposta. Mas... Aqueles cabelos não eram os mesmos... Tinham um colorido cansado, turvo e áspero. Lógico, que depois de 30 anos, muita coisa muda. Mas o olhar... este não mudou em nada!
Limpou o suor, que descia pela face , até o colarinho. O calor estava de matar! Chegou ainda a ver um lampejo da blusa amarela daquela figura tão familiar. Parecia refletir o calor do sol. E o andar quase ligeiro da mulher dos olhos castanhos. Ela não se voltara, para ver seu olhar tão pedinte quanto aquele do velho sentado na esquina da Rua do Ouvidor. As pessoas de olhos dos mais variados tons de olhos, de vários tipos, o empurravam com seus corpos encalorados.
- Será que era ela? E se for? Por que detenho os meus passos e não consigo reatravessar a rua, ir atrás? Preciso me certificar da verdade, encará-la, questionava a si mesmo, em monólogo. E se tivesse certeza, será que teria coragem para se postar diante dela e mergulhar naqueles olhos novamente? Por que ela não se voltou para trás? Medo do confronto? Ou... Talvez não fosse a pessoa do passado num encontro inesperado. Apenas quase semelhante...

3 comentários:

Fragmentos disse...

Querida Maria! Li seu texto logo de manhã e me fez pensar em inúmeras pessoas que passaram por mim... adorei sua descricão dos olhos!!!! Beijos

Eliane Accioly disse...

Mariinha,

e na fração de segundos toda uma vida passa por nós.
É lindo, e pode acontecer com todos nós.
Beijos,

Eliane

Outros Espaços Poéticos disse...

Mariinha:belíssima hitória, aplicável a tantos des/encontros.E o mistério dos olhos ...
Parabéns.Mande me dizer se estará aqui dia 18 (minha posse na Afemil). Mande-me seu telefone do Rio.
Um abraço amigo:
Clevane

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