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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Deserto


Maria J Fortuna



Sabe, quando a gente acorda com a estranha sensação de estar vivendo no limbo? Aquele lugar onde a Igreja dizia (será que ainda diz?) que ficam para sempre, depois de mortos, os que não foram batizados? Tipo nem salgado, nem doce? Pois é... O tempo fica preguiçoso e se veste de Dorival Caymmi: canções dentro do peito e balanço na rede...
“Se já foraQue importa agoraRetalhar a dor, aiQue doeu outroraInfindada A vez não é nadaPassaram-se agora”
Podia ser. Mas não é. Este estado parecia não incomodá-lo, como a mim aborrece. Para ele, sesta gostosa, para mim, perda de tempo.
É tristeza branca, envolvida por nuvem acinzentada, vestindo a alma... E o colorido não é de fácil mudança, porque mal aparece... Dou graças quando surge algo que me possa sacudir, tirar-me desse estado. É parente da saudade, mas em estado passivo, de lembranças não vêm embrulhadas pela emoção. Na verdade, a alma querendo hibernar, adota o gênero: deixa pra lá, quero mais é ficar quieta... Sem, contudo, tratar-se de inércia.
Não tendo sentimentos opostos para ser conflito, assemelha-se a certo estado de tela, encoberta por filó... Sem que eu tenha o mínimo interesse para desvendar esse véu que a encobre. O que lá existe, é natureza morta, penso eu. E, mesmo com a certeza da presença de tintas e pincéis, nada me motiva a usá-los. O engraçado é que não há sensação de provisório, mas uma espécie de quase estagnação em que os movimentos se tornam pesados e lentos...
Pensou em depressão? Não, não é isso... Acontece uma vontade enorme de ficar na minha, como se diz por aí: calada, de um jeito quase meditativo, sem saber por quê. Nada tem a ver com desesperança! Nem com desespero. Talvez esta forma de manifestar-se, sem muita expressão, tem a ver com um quase sonambulismo, sem conforto dos sonhos bons. Também não trás pesadelo. Posso dizer que é escrita sem exclamação, comida insossa, instrumento musical mudo, nuvens carregadas que não se transformam em chuva... Chato, não é? Também não é crise de fé.
Lembra deserto... Tão belo em sua aridez! Mas hoje também não sinto beleza, como já disse, por causa da quase ausência da Luz.
Em seu livro Deserto, Jean Yves Leloup escreveu: “Afirma-se, às vezes que Deus se retira, que ele nos abandona; Mas não é Deus que não nos abandona; são nossas ilusões, nossas projeções. Não se perde a fé; pelo contrário, começa-se a entrar mais fundo na fé quando se perdem todas as crenças, quando se deixam de lado os apoios das nossas representações.”
Não será este estado de deserto, este limbo, alimento sem sal, nuvens cinzentas sem chuva, este meu deserto interior, a continuidade do processo de esvaziamento que estou vivendo?

3 comentários:

MJFortuna disse...

Recebido por email de Maria do Céu


Mariinha, li a crônica do Deserto. Magistralmente você, com as palavras, as cores, os sentimentos, a lentidão, conseguiu colocar no papel o DESERTO mesmo!
Adorei!

PS: Informo que o LIMBO acabou. Já está fora de moda desde o Vaticano II, mas o golpe final foi dado pelo papa João Paulo II que não se conformava que o irmãozinho natimorto dele ficasse por lá ( isso é que é casuísmo!....)
Pronto! Por decreto tirou o irmão do limbo e, na mesma penada, todas as criancinhas por lá adormecidas
Caso queira saber sobre os bastidores do pontificado do papa polonês compre o livro O PODER E A GLÓRIA do jornalista investigativo inglês David Yallop. Editado pela Planeta, no Brasil.
Este autor tem outros trabalhos a respeito de diversos personagens.

MJFortuna disse...

Eliana Luppi, por email:


Deserto, este estado, quem sabe? Só mesmo você!
Muito lindo, muita inspiração, o vazio em expressão!

beijos,

eliana

Noralia disse...

Mariinha, gostei do seu Deserto. Só não concordei muito com a expressão"esvaziamento". Pois me parece mais um processo de "prenha", renovação, reencontro, com novas luzes num outro grande deserto. Me parece mesmo que se trata de continuidade - o continuum...

Abraços,
Norália

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