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quinta-feira, 10 de maio de 2012
Transcendência
Maria J Fortuna
Aconteceu quando a emoção tomou conta de mim... Foi-se o marasmo, e ficou o coração batendo forte, enquanto os nervos pululavam e provocavam-me lágrimas nos olhos. Não havia motivo aparente, só uma lembrança: a do dia em que senti Deus pela primeira vez.
Eu tinha doze anos e uma infância entremeada por acidentes de percurso. Quando eu ía caminhando caía. Não meu corpo, mas alguma coisa que trazia na alma, e com o andar da carruagem, partia-se em mil pedaços. Não cabia tentar colar um no outro, mas caminhar para alguma coisa similar àquilo que havia perdido. Havia sim, um denominador comum entre um e outro: o que perdi e o que passei ao almejar. Mudava apenas a forma. Por exemplo: eu queria ser bailarina e, como não consegui credibilidade para que os adultos acreditassem naquilo, trilhei o caminho da escultura em argila. Praticava no quintal da minha casa. Mas como não sabia que havia fornos para queimar as peças, esfarelavam-se de uma hora pra outra. E assim fui me reconstruindo pelos anos afora numa rota muito solitária.
Certo dia, quando estava contemplando um céu muito azul com poucas nuvens, foi que se deu o acontecido. Depois de ficar assim por muito tempo, no deleite de mergulhar meus olhos no céu. E fui me desligando naquele momento, de tudo! Aos poucos foi desaparecendo a sala, a varanda onde eu estava, nosso prédio e o da vizinhança. Os sons da rua foram-se calando, como as vozes do pai e da mãe conversando baixinho num dos quartos. E eu olhando para o céu... Estava extática diante da imensidão infinita daquele momento em meu ser. Então me vi diluída no espaço. Foram segundos... Mas parecera a eternidade! Eu era uma com tudo. Senti que todas as coisas estavam em perfeita harmonia e que infelicidade não existia. Definitivamente, eu estava diante de Algo tão imenso No qual eu não cabia . Ultrapassava alhures todas as vezes que senti algum prazer mundano. Um sentimento de amor brotou com tal força em meu coração, que tudo o mais não tinha importância. Só aquele momento de comunhão. Como comportar tal sentimento incomensurável num coração humano e tão pequeno...Não queria que aquele estado de graça passasse. O meu lugar era sem lugar... O sentimento era de liberdade!
Quando os meus sentidos retornaram, eu ali, parada, com toda energia do mundo, senti que todas as conquistas do homem não se igualavam ao sentimento de totalidade, de harmonia e, sobretudo, de Amor! Senti a ilusão das coisas do mundo e lamentei quando ouvi a voz suave da minha mãe chamando-me para tomar um lanche.
Como daquela vez, nunca mais tive uma experiência semelhante. Mas todas as vezes que duvido da existência de Deus, me vem a lembrança daquele meu encontro com Ele.
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2 comentários:
Linda crônica minha querida,
Deus, as vezes, parece ter esquecido da gente, as vezes conseguimos lembrar apenas os momentos ruins, as dificuldades... pensar em momentos como esses que vc citou, nos traz de volta para a lucidez, a realidade.
Beijo nas tuas maos!
daufen bach.
Meu bem, meu bem meu mau!!!!!!!!!!!!!! Canto esta música para meus netos. Vamos encantar, como dizia Guimarães, nosso Rosa... Amor e saudades
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