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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Marta, uma nobre russa







Maria J Fortuna

Foi neste inverno, quando as folhas das amendoeiras se negam a amarelar, que em pensamento, reencontrei Marta, com seu olhar firme, triste e bondoso de quem, apesar dos anos, ainda se encantava com o farfalhar das asas dos pombos e pardais, que comiam nacos de pão em sua janela. Sua nacionalidade era russa. Isso se deu quando me assentei num dos bancos da praça, onde há uma fonte em que aquelas aves se banham.
Morava em São Paulo, capital, na companhia de um gato que, estranhamente, fazia pipi no vaso sanitário com todo treinamento que lhe foi dado. Gostava de tomar chá e era procurada por escritores, poetas e pessoas marginais, portadoras de alguma rotulada doença psiquiátrica. Estas gostavam de ouvir sua opinião a respeito de suas obras ou descansar a alma de algum conflito sério, que parecia só ser compreendido por ela, dentro do seu imenso universo de amor e compaixão. Fiquei conhecendo uma dúzia dessas pessoas de asas feridas.
Pouco falava de si mesma. Sabemos que havia saído de Moscou às carreiras, por pertencer a uma família aristocrata, durante a revolução comunista. Ela e o esposo. Durante a viagem de navio, aportou em Mônaco, quando conheceu o grande amor de sua vida, mas por respeito ao marido, não se entregou a esse amor. As fotos mostram que era bela! Magra, esguia, olhos azuis-violeta e cabelos castanho claro, com fios dourados, e um ar de indiscutível nobreza!
Bem, sabemos que durante a longa viagem para o Brasil, quando se deparou com a belíssima paisagem da Guanabara, no Rio de Janeiro, procurou pelo esposo para partilhar seu encantamento e o encontrou morto no camarote do navio. Não sabia uma palavra de português quando desembarcou sozinha no cais do porto. Alguém no navio, informado de que falava cinco línguas, apresentou-a a um gerente de hotel, com grande frequência de estrangeiros, e ela ali permaneceu como tradutora, até que conhecesse bem a língua portuguesa e passasse a ser recepcionista do estabelecimento. Foram anos recebendo pessoas das mais variadas nacionalidades que, cativos de sua delicadeza e simpatia, acabavam por criar laços de amizade com Martinha, como passou a ser carinhosamente chamada.
Por feliz coincidência, essa nobre mulher “exilada” pelas circunstâncias no Brasil, reencontrou seu amor de Mônaco e tornou-se sua esposa. Não teve filhos. Anos mais tarde enviuvou e, quando aposentada, passou a receber os amigos em seu pequeno apartamento.
Quando lá cheguei, acompanhada de uma amiga francesa, imediatamente encantei-me por Martinha. O que eu vi, naquela senhora de 92 anos, foi algo indescritível para minha alma! A nobreza daquela mulher não estava em seus títulos ou seu dinheiro. Não havia mais um ou outro. Senti em seu olhar um desapego imenso a tudo que a cercava. E uma chama de sabedoria que incendiava quem estivesse por perto. O vigor de sua doçura era tão forte que custei a acreditar que ela existisse realmente. Tornou-se para mim, naquele momento, atemporal. Depois de ouvi-la em alguns dos seus conceitos, percebi que ela tinha ciência de seu grau de evolução sem nenhum orgulho do fato. Uma paciência infinita com os que ainda tateiam na escuridão da ignorância. Despojada de tudo o quanto fosse supérfluo, tinha, em sua cabeceira, um monte de livros cujo os autores pediam para que os lesse e opinasse a respeito. Em sua maioria livros com temas transcendentais. Ela era profundamente estudiosa do Tarô e publicou um livro sobre Os Arcanos Menores.
Martinha lia cuidadosamente cada frase sem nenhuma prepotência e sempre incentivando os autores. A conselho da amiga francesa entreguei-lhe alguns poemas meus. Ela gostou especialmente deste:

Estou e não estou aqui
Avelã de cachos dourados
Onde há trevas
Luz há
A areia consome o mar
Aves negras
Tornam-se brancas
A graça da vida
Mora n´alma da morte
Poucos dias depois ela se despediu deste mundo. Teria percebido meu poema como premonição? Ninguém pode dizer nada sobre isso. Como é misteriosa a energia dos grandes espíritos que se encantam na morte!
Todas as vezes que ouço o farfalhar das asas de uma ave, sobretudo pombos, que são marginais por causa dos piolhos, lembro-me de quem não tenho realmente palavras para descrever. Desculpe-me Martinha, são apenas esboços e rabiscos...


3 comentários:

Ana Cristina Costa Siqueira disse...

Prezada Maria Fortuna:

Visitarei seu blog outras vezes. Muito belo o seu texto, poético.
Um abraço.

Ana cristina Costa Siqueira
http://rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?id=1385


Em tempo: Nem sempre ler é tão agradável e nos conduz ao fio do sentimento.

Ana Cristina Costa Siqueira disse...

Prezada Maria Fortuna:

Visitarei o seu blog outras vezes. Obrigada por repassar os textos por meio da REBRA. Nem sempre ler é tão agradável ou nos conduz ao fio dos sentimentos, com profundidade.
Um abraço e muito sucesso.
Ana Cristina Costa Siqueira
http://rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?id=1385

MJFortuna disse...

Eliana Luppi, por email:

Me parece que você está cada vez mais inspirada e suas crônicas mais românticas e saudosas!
Muito linda a crônica de Marta, a nobre russa, na simplicidade de seu texto.

Beijos.

eliana

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