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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O encanto do perecível




                                                                                                                                                      Maria J Fortuna
 

Eu estava em lágrimas, curtindo o fim de um relacionamento, quando alguém chegou perto de mim e me segredou: “- Olha só, as coisas só são boas porque elas acabam...” Passei, então, dias processando essa valiosíssima informação. Fiquei, então, dividida: Uma parte do meu ser refletia sobre o assunto, mas a face exuberante da minha personalidade dizia-me justamente o contrário, ou seja: no fim é onde existe maior tristeza! Onde está o sentido da vida tão cheia de perdas? Essa divisão interna não me deixava descansar um só momento. O apego ao passado, à lembrança sensorial de tudo o quanto eu tinha vivido, não me permitiam domar o coração frente à negação da perda... Tudo parecia com o velho ditado: “Foi água na fervura!” Isso porque o que eu sentia ainda estava bem longe de ser dissolvido, quiçá fazer-me chegar à conclusão de que tudo tinha sido bom porque acabou. A memória ainda me enviava um volume enorme de imagens de um passado recente, acentuando as cores das lembranças que mais me davam prazer, agora transformado em um sombrio coquetel de prazer e dor. E a insistente memória dos fatos passados estava congelando seu conteúdo, não deixando a vida fluir... Não minha vinha à cabeça de que é nesse movimento que mora a beleza de ser e estar no mundo!
Entrei em ebulição! Eu estava ora em chamas, ora num vazio esquisito, gelado, sem rumo. E por mais profanos que fossem meus pensamentos, lembrava-me das palavras de Jesus: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só, mas se morrer dá muito fruto.” Mas que fruto eu poderia tirar daquela dor, negando-me a essa transformação que implicava aceitar o fim, a morte daquele relacionamento? Sim, eu sabia que teria que morrer para aquela dor e entregar-me àquela alquimia. Por outro lado, se eu me apropriasse de uma linda borboleta azul, prendendo-a numa campânula de vidro para deleitar-me com sua beleza, fatalmente apressaria sua morte. E foi justamente essa ansiedade, tão cheia de medo e pressa, que havia me separado do ser amado. Medo de perder, pressa em segurar. Um dia, a campânula não resistiu e se quebrou. Então, a borboleta se foi... Ela que tinha sido lagarta e casulo. Talvez não tivesse, de repente, consciência de que já era borboleta para encarar a dor do existir. Até a consciência tem movimento! Então, havia chegado à conclusão de que congelar momentos, separar ganhos de perdas, é algo impossível!
E, assim, pensei no que seria melhor para minorar o sofrimento. No caso, senti que a única saída seria mergulhar naquela dor o mais que eu pudesse. Até a última gota! Viver o luto até a ressurreição! Foi quando a esperança retornou trazendo um pouco de sua luz no final do túnel.
Uma vez me certificando de que tudo está em movimento - até a imagem que tenho de Deus - fui conseguindo descongelar, aos poucos, o passado. Senti que a memória com suas lembranças, passou a receber novas imagens em ondas, que foram se sobrepondo umas às outras à medida que novos fatos foram acontecendo. Tudo em cima da fé de que é enorme o potencial humano para amar, o que representa um consolo, porque o amor se renova. Isso me lembra da dança de Zorba, o grego! Quanto mais dor, mais dança! Mais movimento! Assim, consegui dançar aquela dor lançando flores ao abismo da perda inevitável, ligada à própria vida. E concordei com o que disse o amigo: “As coisas só são boas porque acabam...”

 

Um comentário:

Beatriz Guedes disse...

Ei amiga, adorei!!!! Parabéns pela bela crônica. Como diz o nosso Rei Roberto Carlos: "Foi por medo de perder que eu perdi....foi por medo que sofrer que eu sofri...foi pensando só em mim que eu pensei só em você....foi por não querer amar que eu amei....." Agora é deixar a roda da vida girar.....beijos, Beatriz

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