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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O primeiro homem

                                                                                                                                                                       Maria J Fortuna
Havia na alma de Tercia um buraco sem ponte. Um vácuo sem luz. Uma dor sem alívio, nem esperança. Embora ela dissimulasse muito bem.
Negava-se a acreditar que existisse um homem com jeito de cavaleiro, asas de águia e cheiro de liberdade. Alguém com quem provocasse lembranças como música boa e tivesse o dom de iluminar, como mulher, seus relacionamentos. Que a tivesse amparado e protegido em seus primeiros passos. Alguém poderoso, repleto de sol, pronto a dar-lhe um abraço apertado, gratuitamente, simplesmente porque a amava. Que teria caminhado com ela nos campos de girassol. Com quem pudesse ter lembrança boa de, quando pequenina, ter subido em seus ombros fortes, quando quisesse apanhar uma fruta que amadurecera no alto da copa da árvore. Alguém que lhe tivesse dito seu amor com um simples sorriso e que lhe ter dirigido ternos olhares. E que, quando ela, em estado de adolescência, tivesse feito questão de acompanhá-la na sala dos espelhos, no momento de encarar a si mesma, buscando identidade. Alguém que não lhe provocasse medo todas as vezes que se aproximasse dela.
Mas como isso não ocorreu, ela torceu as raízes daquele amor frustrado na infância de forma que, tal como planta sufocada, não conseguiria crescer como devia. Pior, estendeu sua ansiedade e angústia aos que vieram depois. Por causa disso, nunca se sentiu bem ao contemplar as fotos do seu primeiro amor. E nem de qualquer dos homens com quem se lhe assemelhassem. E nunca se sentiu bem quando falavam sobre ele, com seu jeito rancoroso, autoritário e distante. Porém, os véus que colocava em cima daquela imagem, no decorrer de sua vida, não foram bastante para esconder o grande buraco sem ponte que se criou dentro dela. Era uma equação sem resultado. Em algum momento de sua vida ele a tinha traído e o espelho se partido. Aquele sentimento ruim de quebra, de perda, parecia uma veste que cresceu grudada a seu corpo, delineando lhe, muito a contragosto, suas formas. Não havia bálsamo que a aliviasse do mal estar, nem remédio para sua cura.
A imagem do primeiro homem de sua vida era tão ameaçadoramente imensa, que se projetava em todos os seus amantes, confundindo-se com eles, impelindo-a a exorcizá-los antes que o coração a traísse. Exceto quando suas mucosas sensíveis os procuravam para uma breve relação, puramente instintiva. Apenas para alivio de tensões, como se naquela situação de deserto, houvesse apenas um tipo de flor que destila água que nunca sacia. Assim não correria o risco de entregar-se de verdade ao desconhecido... E era tudo o quanto aspirava sua natureza feminina.
Teria que conviver com aquele nó na garganta, como se observasse o mar sem poder atirar-se nele. Um estado de aspiração em que tornasse as uvas sempre verdes... Com dificuldade de engolir as pétalas indigestas de sua própria vida que dele veio. E que ele lh´as havia oferecido, embebidas no fel da desconfiança. Não era isso que ele lhe fez crer? Que os homens não prestam e querem apenas copular com a fêmea? E que embaixo de um cajueiro ela foi feita apenas por impulso de um amor carnal? Como poderia sequer imaginar que poderia surgir, dentre os homens, algum espécie raro que a ajudasse a atravessar o buraco negro que habitava sua alma? Qual deles seria a ponte que poderia resgatá-la, fazê-la passar para outro lado, onde poderia respirar amar, viver e procriar? Ou romancearia para sempre um arremedo de homem que de nada tinha a ver com a realidade? Talvez tolerasse um D. Quixote, cavaleiro da triste figura... Com o qual não precisaria se armar, pois a luta quixotesca envolvia apenas moinhos de vento... E Dulcinéia era para ele, sempre bela! Por tudo isso ficou claro para ela, que seu homem ideal era aquele que ficasse bem distante... Assim teria o gosto de sofrer por ele.
Mas gostava de seduzir, isso sim, seduzir! Dirigir aos homens velados olhares de fogo, cheios de promessa. Mas... Se houvesse correspondência, ameaça de toque amoroso, ela daria um jeito de sair devagarinho... De outra feita fugiria mais facilmente se o toque fosse ousado, inesperado, transvestido de indecente. Seria bem mais fácil escapar disso. Negar-se-ia a entrar no jogo, procurando saída através da ética, moral e bons costumes, única herança paterna.
Nenhum homem remendaria sua alma de forma que a fizesse saltar sobre aquele abismo. Nenhum merecia isso! O jeito era contorná-lo. Ver-se livre daquela orfandade eterna. Sempre cuidando para que não deixasse transparecer a sombra daquele primeiro amor unilateral. Aceitar ter um só lado. Um só destino. Desistir de vez da ideia romântica de completude. Deixar tudo muito claro aos olhos do coração. Assim não trairia a si mesma, para que não houvesse engano ao prosseguir...

2 comentários:

Eliane Accioly disse...

Amiga, que 2013 seja lindo e abençoado para você e os seus queridos. beijos

Valquiria Imperiano disse...

Gostei muio das suas palavras.

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