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sábado, 16 de maio de 2015

A barganha



                                                                                                                                           Maria J Fortuna


Vó Luna era uma mulher muito benquista por quase toda comunidade daquela pequena cidade do interior de Minas. Isso por causa de sua religiosidade e da grande compaixão que tinha para com os pobres. Por isso mesmo, ela trazia dentro do peito a certeza de que sempre fora uma boa cristã e, portanto, fazia jus à fama de santa senhora. Até que um dia, às vésperas do seu aniversário de 85 anos, acordou com aquela sensação estranha que a visitava quase sempre, de que tudo que havia feito na vida até aquele momento, não tinha nenhuma validade junto ao Criador. Sensação de estranha  dissintonia... Por causa disso, achava que nada seria reconhecido por Ele.  Tomara que tivesse equivocada e, que pelo amor do Seu coração, tudo seria relevado!  Toda aquela estranheza de si mesma... Como então justificaria sua existência de anos e anos de barganha com o Altíssimo?  E agora que estava velha, ainda menos sentido encontrava nos dias que se acabavam cada vez mais  rápidos como um cometa rumando ao desconhecido, e sua consciência lhe pedia lucidez.
Tentou distrair a mente com outras coisas. Até com a saudade que sentia do seu marido que há mais de trinta anos havia  partido, deixando com ela o mistério da morte. Lembrou-se  do problema com o filho casado, que enveredou para o alcoolismo, prejudicando a família,  ou  mesmo as lembranças inquietantes da filha que se foi para Europa, e tudo mais.
Levantou-se da cama, sentindo a velha dor nos ossos e um pouco de acidez no estômago.  Necessitava fazer o café da manhã.  Mas algo bem maior do que ela a cutucava e pedia para emergir. Haja vista que havia sonhado que estava boiando num rio de águas gelatinosas. Mas algo exigia confrontação com ela mesma. Não com aquela que, muitas vezes por medo, benzia-se frente a alguma situação difícil, mas com algo genuíno e puro que ocupava todo o seu ser naquela manhã.  Na realidade  ela se sentia como se fosse uma cebola que, à medida que os anos passavam, necessitava fossem-lhe retiradas as diversas camadas  até que se chegasse  até a menor delas, frágil e quase transparente: o núcleo da mandala.  Era assim.  Mesmo que o cheiro não fosse agradável  e seus olhos se enchessem de lágrimas. Afinal, cebola é algo muito estranho... pensou.  Passou anos na dúvida, sem saber se a mesma seria tubérculo, fruta ou flor. Parecida com a indefinição de si mesma que se passava dentro dela.
Mesmo assim, não se deteve muito naquelas coisas que a atormentavam, em pleno  jejum. Então foi à cozinha, pegou a pequena chaleira, ferveu o líquido bendito que saiu da torneira,  e colocou o pó de café. Sentiu o familiar e delicioso perfume do acolhedor líquido negro,  que fazia parte de sua rotina desde a infância.  Depois caminhou vagarosamente e sentou-se na cadeira que havia embalado os filhos e foi sorvendo, gota a gota,  seu cafezinho com pão de queijo guardado de véspera,  dentro de um pote de vidro.
 Nunca havia ouvido com tanta clareza o pássaro cantor que a saudava todos os dias quando acordava. Mas naquele instante fazia eco mais forte em seu coração. O ar estava mais leve. E pensou que  mesmo quase que perdendo o sentido da  vida, não recorreria à velha barganha para com Deus. Não prometeria ser pessoa melhor, sem cair em pensamentos maldosos, controlando seus impulsos, para pedir algo em troca.  Tudo aquilo seria mentira.  Ela e o próprio Deus andavam cansados de barganhas.  Tipo fazer jejum para que Ele ajudasse o filho a libertar-se do álcool. Aquilo era tipo de “dá cá que eu te dou lá” cósmico, que não acabaria mais!
Ali debruçada olhou janela afora. Deu um suspiro e voltou a sentar-se em sua cadeira de couro velho,enfeitada com babados de crochê. Fixou o olhar nas distantes montanhas cor de ferrugem, semicobertas de verde, e fitou o céu.  De como estava azul naquele momento! Então deu grande mergulho para dentro de si mesma e voltou a sondar essa história de barganha com Deus. Valera a pena? Por que ela e milhões de pessoas passam a vida nessa transação com o Criador? Por que, apesar disso, Ele não havia libertado do mal  pessoas como seu filho, apesar de todos os rogos maternos durante tantos anos? Tudo que ela havia acreditado para si mesma a respeito de Deus, nesse aspecto, seria falso? Sentiu sensação da inutilidade. Mas definitivamente não poderia julgar qualquer movimento d´Ele, baseada em sentimentos humanos. Será que como as ondas do rádio ela não estava  realmente sintonizada com Ele? O que faria para que o elo se refizesse?
O gato amarelo deu um pulo ao sentar-se em seu colo, ronronando. Ela passava a mão no pêlo macio do animal e continuava entregue a seus questionamentos e reflexões.  Deve ser porque  sentiram  o Divino silêncio que muitas pessoas sentem quando abandonam suas religiões, pensou. Ou não souberam interpretá-lo, como acontecia com ela.  Outras perguntas brotavam em sua mente, aos borbotões, até que começou a ficar cansada. Só se ouvia o ronronar do gato e o canto do pássaro. Tudo mais estava em  silêncio...
Teve, de repente,  certeza de que algumas pessoas chegavam à santidade quando abandonavam a barganha. E os ateus, que não tinham Deus para barganhar?  Naquele momento sentiu que havia tirado a última camada da cebola. E se via menina, procurando alguma coisa escondida e o grupo de amiguinhos gritando: - Está frio, morno, quente, quenteeeee! À medida que se aproximava do objeto procurado. Então, falou baixinho:  Deus, se Você quiser me favorecer tenho certeza de que o fará de Graça. Se quiser... E ainda está em tempo...
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3 comentários:

MJFortuna disse...

Beatriz Campos no Face


Adorei Maria!!!! Barganhar para quê? Sempre será feita a vontade Dele! O resto é ilusão! Beijos e ótimo domingo....
Descurtir · Responder · 1 · 16 h

MJFortuna disse...

Eliana Angélica de Sousa
11:06 (Há 5 minutos)


Que chic esta crônica. Uma história que não queremos para de ler quando iniciamos e sempre querendo saber do final.
Que final para gostosa, meu sorriso estampou em minha face diante da proposta da Vó Luna.
Muito linda! Parabéns!
Grata.
Bjs.

eliana

MJFortuna disse...


Minha assídua leitora que não quer assinar seus textos:


Belíssima a sua BARGANHA!
Senti que Vó Luna experimenta muitas das angústias que experimento. E, aposto, muita gente também!
O desconforto interior, o sentimento de impotência frente a tanta coisa na vida e seu MISTÉRIO, que nos leva a Barganhar com Deus.
As perguntas que nunca encontram resposta. Afinal, tudo é um imenso mistério....
O “ conforto” que trazem os sacrifícios em prol de nossas causas...
O que é a BARGANHA da qual você fala, e muito bem? Talvez uma forma mágica e mais leve para lidar com as dores da vida.
Para amenizá-las, para se ter ESPERANÇA, nós que somos tão frágeis e desvalidos.
Se Deus não é por nós quem o será?

A metáfora da cebola é genial.
Um dia li que o tempo / a vida é como um esmeril que vai desgastando tudo até chegar ao final.....

Na última casca da cebola, o insight de Vó Luna.

O “ Divino Silêncio” de seu texto também se abateu sobre mim. Vou caminhar pensando neste silêncio......

Obrigada pela crônica maravilhosa, filosofia pura, que me chegou através de você.

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