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sábado, 12 de abril de 2008


Amigo, coisa de Deus
Maria J Fortuna


Penso em como fazer um perfil de quem, para mim, pode ser um verdadeiro amigo (a). Mesmo que, em minhas limitações eu tenha um pouco de medo em não acreditar que ele realmente exista. Mas como não estou falando de super heróis...
A escolha do amigo com certeza é fruto do nosso processo de individuação, de anos de experiência na Terra. Quando jovem a gente tem certa dificuldade para identificá-los. Com os anos o fruto sazonado do nosso crescimento interior passa a ter a propriedade de escolha acertada.
De repente o amigo está bem perto da gente. É comum a gente só enxergar as estrelas quando não há nuvens. Então peço a Deus que me faça enxergar a luz da amizade para que não fique muito tempo nas trevas.
Percebo que o amigo é aquela pessoa que, em primeiro lugar, batalha seu próprio crescimento. A partir daí nos reconhece. O outro é um exercício constante para que este processo ocorra. A presença de um na existência do outro passa a ser vital em todos os sentidos. Homem algum é uma ilha, disse Thomas Merton.
Aquele a quem chamo de amigo é consciente do seu potencial e o valoriza sem se enaltecer. Faz terapia com a própria vida. Sabe lidar com suas dores, por isto não joga vinagre nas minhas feridas. Se isto acontece, faz uso do perdão. Tento fazer o mesmo quando o magôo. É alguém ótimo para me auto-referenciar. Um exercício constante de auto avaliação existencial.
Afinal o amigo, por identificação temporal, testemunha os mesmo fatos políticos e sociais em que nos vemos ameaçados. Ambos mergulhados na esquizofrenia coletiva provocada pelo esfacelamento da máquina estatal. Entregues ao “poder” dos abutres corruptos que dilaceram o povo impotente, provocando desigualdades econômico-sociais em cores de amarga injustiça. O amigo se indigna junto comigo e somamos alguma coisa, algum projeto para melhorar a situação da gente.
Ambos sofrendo as conseqüências destes tristes fatos.
Afinal estamos num país capitalista neoliberal globalizado e o amigo sofre as mesmas tentações de consumo e tem os mesmos medos que eu tenho de se ver ameaçado pelo povão ferido pela fome e, portanto, perigoso! Temos os mesmo receio de um futuro sombrio para nossos filhos e netos. E temos o mesmo sentimento de impotência diante da corrupção que assola nosso País. A mesma fragilidade diante da doença, da morte.
É provável que o amigo venha de uma família tão controladora e repressora como foi a minha. Será que alguém consegue fugir a este esquema e é criado em meio de mil amores, sem neuroses? Não conheço ninguém das minhas relações que não tenha uma ferida escondida. A maioria somatizada em uma doença qualquer. Ou pelo passado, presente ou por medo do futuro – este desconhecido. Ninguém que não se sinta mais frágil e com desejo de um peito amigo para abraçá-lo. Você conhece?Aliás por isto precisamos de um amigo como o ar que respiramos.
Aí vem um ponto de identificação muito grande a favor da amizade – o amigo é minha referencia existencial. Ambos refletidos no mesmo espelho partido a catar , cada um do seu jeito, nossos pedaços, cheios de reciprocidade. Não existe coisa melhor do que alguém para esta inevitável função.
Meu amigo pode ser tão louco e sonhador quanto sou, para que penetre em meu mundo. E ali veja algo parecido com o surrealismo de Dali e as composições de Strawinsky. Sabe dos meus desfoques de humor que, de vez enquando, cai como chuva cinzenta e também de como busco desesperadamente o sol. Todos nós buscamos. Sabe que posso partir assim, de repente, mas tem a certeza de que estou, quase sempre, viajando para dentro do meu próprio coração, do mesmo modo que espero viajar dentro do coração dele. E espera pacientemente meus retornos. Sabe que minha carência afetiva é proporcional ao desejo de liberdade, o que faz de mim uma equação muito difícil de ser resolvida, principalmente por mim mesma. Apesar disto, espera-me quando me ausento e acolhe-me quando estou de volta. E juro para mim mesma que saberei esperar e acolhe-lo quando estiver sombrio, tentando se reerguer. E que se sua musica estiver estridente eu a ouço do mesmo jeito, mas dentro dos meus limites. Aí cabe o acolhimento do sim e do não que haveremos de pronunciar um para o outro. É importante respeitar o silencio do outro e a necessidade de estar a sós consigo mesmo. O amigo respeita minha solidão e eu a dele.
Esta calorosa criatura não estranha um telefonema meu, angustiada, no meio da madrugada. Quando algo de ruim acontece. Ou para participar-lhe que estou feliz naquele momento.
Tem coragem para defender-me quando não estou presente. Mesmo que a pessoa acusadora esteja certa. E eu farei o mesmo em relação a ele.
Outra coisa que reconheço numa amizade é o cuidado. Que, de alguma forma, se faz presente. O amigo quer saber como estou. Telefona, chama-me para sair. Embala-me com seus assuntos que eu gosto ou não de discutir. Mas que rolam de qualquer jeito. Se está longe manda um email carinhoso, uma carta, um cartão algo que me faça sentir que não fui esquecida. Que posso contar com sua amizade e vice versa.
Não deixa para lamentar minha ausência quando for ao meu enterro. Valoriza minha presença viva em sua vida, como valorizo a dele. E ambos adoramos um convite para um lanchinho em algum lugar. Só para curtir a presença um do outro.
Quando viajamos para longe sentimos saudades um do outro. Talvez não haja ali ninguém que fale nossa língua, linguagem, código. O amigo faz muita falta quando estamos longe.
Nós nos vemos com uma transparência que não deforma, como ocorre com vidros de garrafa. Por mais coloridas que sejam. Aliás nunca seremos amigos coloridos. Somos – um para o outro – de enorme transparência! Dispensa véus ou subterfúgios.
O amigo chega de mansinho na alma da gente. Pode ser canto de passarinho ou trovão com relâmpagos em céu acinzentado, mas eu o reconheço e o acolho. Não com a perfeição que a lua recebe a luz do sol e o reflete, mas com calor humano que minha alma comporta. Seu perfume e reconhecido pelo meu olfato e pelo coração, porque está impresso em meu ser com selo de garantia.
O amigo é alguém que vive muito tempo num jardim cheio de flores das mais diversas formas, tamanhos e odores. Algumas cheias de espinho, vizinha de caprichosos e repetitivos carrapichos. Apesar desta enorme diversidade sente-se aceito incondicionalmente por mim. Pode como aconteceu comigo, ter percorrido um longo caminho de rejeições. Assim sabe o bastante para valorizar nossa amizade.
Acolher é deixar que todas as estações do nosso corpo e de nossa alma manifestem-se livremente, amplamente, desapegadamente.
A aceitação do outro é o acolher em nossa dimensão humana, sem exigências. Por que tem paciência e esperança consigo mesmo, espera-me sabendo todas as circunstancias que me fazem fugir, às vezes de mim mesma, e da própria vida. Ainda assim seu coração guarda e aguarda. Critica sem machucar, sem pisotear meu ego vaidoso. Sabe que ser humilde é reconhecer nossa própria estatura diante de Deus e dos homens. E com isto trabalhamos, juntos a tolerância.
Você pode encontrar algumas pessoas que simpatizem com você e o tratem bem. Inclusive acolhendo-o num momento difícil, mas talvez ela não tenha condições para acolhê-lo. Pode ter padrões e valores que impedem de aceitá-lo em seu mundo. Quantas vezes transformamos um pretenso amigo em “conhecidos”, “colegas”. Tudo por medo de mostrar quem somos em nossa nudez. Esquecemos que o outro também tem medos. Às vezes vivemos anos ao lado delas mas não há como deixar de ser candidato a nossa amizade. E de quantas pessoas fomos candidato a amigo?
Um amigo nunca se envergonhará de mim diante de quem quer que seja e eu dele.
É aquele que nos rega até o fim, acreditando que ainda que nossos galhos estejam secos, há seiva, espírito e beleza!
Há respiração, suor e troca de energia amorosa. Galhos secos não impedem um abraço.
Reconhecemos, nós amigos, nossas falhas humanas e consideramos o erro como nosso maior Mestre.Depois disto fica mais fácil a gente se perdoar quando parte o coração do amigo. Quando chega a nossa vez de errar com ele. Porque isto quase sempre acontece. Afinal faz parte. É o nosso lado sombra. E sem sombra não temos a síntese de nós mesmos.
Amigo não é alguém que pomos num pedestal acima de nossa estatura. Por que ai fica bem difícil amá-lo como merece.
É aquele que estende as asas da alma para nos abraçar por inteiro, sem preconceitos, Unicamente por conta do amor.
E amor lembra comunhão. E a relação afetiva que nos leva a comungar com alguém de forma tão intensa e preciosa, só pode ser coisa de Deus!




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Um comentário:

Rosa de Saron disse...

Vc é coisa de DEUS.

Obrigada pelo carinho atenção. Adorei seu canto.Me senti em casa com seus textos.
Já adicionei como leitura diária.
Volte sempre.

xero na alma.

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