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domingo, 30 de novembro de 2008

Olhares









Maria J Fortuna

Quando eu era menina as freiras do meu colégio colocaram na parede do banheiro:

“Olha que Deus te olha
Olha que Ele está olhando
Olha que vais morrer
Olha que não sabes quando...”

Parece que o maior pecado que existia no mundo acontecia no banheiro. Fiquei com medo daquele olhar, que me agredia e congelava a alma. Que parecia vigiar até minha sombra e, muitas vezes, quando eu cometia algum pequeno deslize, vinha à frase fantasmagórica e ameaçadora: “Olha que Ele está olhando...” E ainda dizem que Deus é amoroso... pensava eu. Acho que foi ai que adquiri enorme percepção daqueles que me cercam. Toda revelação está nos olhos. Esta leitura parece esquecida pela maioria das pessoas que acreditam mais no que ouvem do que naquilo que vêem.

Cresci ouvindo dizer que os olhos são janelas da alma. É verdade. Os olhos da minha mãe eram de veludo, como os de Omar Sharif. Olhos bondosos, profundos, cheios de misteriosa forma de dizer que nos amava. Ela sabia transmitir, através deles, a linguagem da ternura.
Já experimentei o toque expressivo do olhar de quem tem um só olho, como foi o de um dos meus irmãos. Traduziam timidez, interrogação e tristeza. Um olho enevoado, mas com vida; o outro, da prótese, era intruso, com pálpebra aberta demais. Um acidente que lhe deformou o rosto levou-lhe o olho esquerdo quando tinha apenas dezoito anos e era um belo rapaz! Daí manifestou psicose bi polar e na fase da depressão tudo que queria era fechar o olho verdadeiro para dormir, enquanto que o esquerdo - o artificial passava a noite inteira fitando o teto. Parece muito engraçado, mas não era.
Já o olhar do meu irmão mais velho era sempre de lado, quase nunca de frente. Era o chamado olhar enviesado. Nunca quis saber o porquê daquele olhar, mas era inocente e eu achava divertido.
Minha irmã tem, até hoje, um aspecto inteligente ao mesmo tempo triste nos olhar que, às vezes, se torna desafiador. Há certa magoa boiando dentro deles, como se tivesse sempre sendo vitima de a uma injustiça eterna.
Meu pai era um homem que se fazia de duro. Era implicante, às vezes injusto. No entanto próximo a sua morte, seu olhar se modificou, desde que nossa mãe foi para o outro lado da vida. Quando entrei pela porta do seu pequeno apartamento exclamou referindo-se a mim: - você está toda iluminada, minha filha. No que percebi pela primeira vez, amor em seus olhos!
O olhar das crianças é transparente como asa de libélula. A visão de um mundo colorido, cheio de bolhas de sabão. Quando eu era criança não havia coisa que me encantava mais do que ver cores do mundo refletido naquelas bolhas! Eu ficava me interrogando por que elas acabavam tão depressa. As crianças, mesmo quando estão doentes ou foram maltratadas, tem olhar interrogativo, não compreendem a violência. Os adolescentes têm olhos de esperança, mesmo com ar de rebeldia
Olhos da maioria das prostitutas denunciam volúpia não consentida pela alma, mas que trazem o pão de cada dia. Olhar embargado, na maioria delas por uso de álcool e drogas, que lhe permitem fugir, mesmo por pouco tempo, de seus corpos alugados e macerados.
Já senti o arrepio de ser vista pelos olhos suplicantes, do ser humano com fome. Não só de alimento, mas de amor e reconhecimento.
Algumas pessoas têm olhar fugitivo. Elas me fazem sentir aflição. Parece que o portador tem alguma culpa prestes a ser denunciada no fundo dos olhos. Talvez escondam alguma coisa até pequena, mas que a auto-acusação velada transforma em grande.
Já me deparei com o olhar de um santo no elevador do Maracãnzinho. D. Helder Câmara estava ali, sorrindo feito uma criança. Olhar que lembrava estrela em céu escuro, anjo azul, nuvem branquinha, amor brincando de roda, simplicidade, despojamento, pureza.
Um dia tentei libertar um preso que estava tuberculoso contaminando os companheiros de cela. Eu era uma jovem assistente social, estagiária. No cárcere os olhares em revolta partiram como lanças em minha direção, quase uniformes! Havia um ar indecente, zombeteiro e debochado no ar. Olhos que pareciam despir punir, cuspir e babar encima de mim. Apesar de tudo, alguma coisa inóspita mexeu comigo. Cheguei a pedir perdão pela boa condição social e profissional que contribuiu para que eu nunca estivesse atrás das grades.
Durante longo período de nove anos, trabalhei no setor de Psiquiatria. A maioria dos “pacientes” tinha olhar vago, imbecil. Outros eram umas espécies de quebra cabeça cujas peças não se encaixavam. Havia o olhar correndo de um lado para outro, como azougue de termômetro. Durante uma entrevista eu esperava longamente por um momento de lucidez que poderia ser doloroso, quando voltavam do muito longe, sabe Deus onde... Lembrava a frase de D.Quixote de Cervantes: “Viver assim me mata; morrer me dá a vida”
Passaram pela minha vida olhares confiantes e desconfiados. Cheios de alegria, dor, medo, gratidão, desespero e esperança. Alguns trazem graça e bênçãos; outros só conseguem enxergar o lado obscuro das pessoas, como se proibido fosse ver a luz.
Que posso dizer do meu olhar no espelho? Quantas pessoas reconhecem o que sou e o que estou sentindo? O que pareço aos olhos do outro? E aos olhos de mim mesma? E quanto aos olhos de Deus?

2 comentários:

Luiz disse...

"São os olhos a lâmpada do corpo.São os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso;
se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que m ti há seja trevas, que grandes trevas serão!" Palavras de Jesus em Mateus 6:22,23. Parabéns pelo blog, Maria de Jesus. Gostei.....
Luiz Fernando.

Alana disse...

Sempre um prazer vir visitar seu blog...

Beijos

Alana.

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