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sábado, 22 de novembro de 2008

"Pisando em ovos"



Maria J Fortuna

Todo cuidado é pouco, pensava eu quando saía do supermercado com seis ovos agasalhados num plástico fino. Se esbarrar em alguém ou em alguma coisa, se deixar cair ou se levo um tombo, estará tudo acabado! Difícil protegê-los no meio de tanta gente num dia de sexta feira. Por que não os comprei dentro da embalagem? Mesmo que não os consumisse, seria melhor negócio. Até a maneira de pisar o chão ficou diferente: redobrei a cautela com buracos na calçada e coloquei mais firmeza no caminhar. Será que existe na natureza algo mais frágil que ovos?
Durante o percurso para casa pensei: tem gente que parece um ovo ambulante. A imagem me fez rir, prefiro dizer que parecem serem feitas do mesmo material, tão frágil quanto. Muitíssimo vulneráveis! Algumas delas são muito educadas, de modo geral caladas, principalmente diante de alguma ameaça; outras são muito agressivas previnem a gente de que “têm estopim curto” e, de uma hora para outra, ficam com “ovo virado”. Nos dois casos ocultam enorme fragilidade interior gerada pelo medo da dor de agressão ou injustiça. Na maioria das vezes houve um caminhar por ruas tortuosas durante a infância. “Pisamos em ovos” em nossa convivência com elas. Muito cuidado com o que dizemos ou indagamos. Tal hipersensibilidade é mais incômoda do que carregar os tais ovos a pé para casa. A convivência fica sob vigília e, se insistimos em manter a relação, vem o desgaste e um cansaço triste que nada acrescenta, até que resolvamos sair lamentando: pessoa tão boa podia ser tão diferente...
Mas quem não se sentiu fragilizado em algum momento da vida? Quem não tem dentro de si alguma ferida que fecha e reabre de vez em quando? Qual embalagem protegeria um coração para que não se partisse? Por um tempo fica tão insuportável a relação de superproteção do ego consigo próprio que a gente prefere deixar pra lá e voltar a se expor. Afinal como disse Guimarães Rosa, viver é muito perigoso. Ficar na defensiva de nada adianta em nosso processo de crescimento. Se a gente se reveste de pele de ovo, tal fragilidade pode virar uma forte couraça que nos isola de outros seres humanos, principalmente do que amamos. Preparar nossa própria armadilha.
Uma plantinha sensitiva diante de um leve toque de mão fecha-se abruptamente. Existe no ser humano o mesmo movimento natural de fechamento quando nos sentimos ameaçados por alguma invasão em nosso espaço interior. Afinal toda ação gera uma reação, como nos ensina a experiência. Mas existe o que ofende e o que se deixa ofender. No caso da sensitiva a diferença é que, dentro em pouco, ela reabre suas folhinhas para o sol com a maior facilidade. O coração humano não. Uma voz mais agressiva, uma “resposta atravessada”, um olhar meio torto e pronto, entra num período de hibernação. Alguns saltam três estações e permanecem no inverno, dentro da toca.
Contudo vulnerabilidade é um traço que pertence a todos nós. Só varia a intensidade da agressão e os motivos de cada um para fugir da convivência com o outro. Seria bom dar uma parada, refletir, sentir porque aquela amizade não está acrescentando. Não precisamos conviver com alguém que “pisa em ovos”, ou que tem medo de conversar sobre o motivo da “agressão”, mas pelo menos seria bom procurar esclarecer as coisas, já que o sensitivo não tem coragem para fazê-lo. E se ele não se resolve dentro da questão, pode ser que saia dali queixando-se, fazendo-se de vitima, ruminando uma mágoa eterna quando tudo pode ser reconstruído. Desde nos perdoemos sermos pessoas em processo de crescimento, sempre!
Afinal o coração é nicho onde o amor se reproduz. Não pode ficar tão enfermo... Faz-se necessário rever a amizade. Avaliar nossas expectativas em relação às pessoas queridas e sentirmos o significado de cada uma delas em nossas vidas. Evitar que o ovo da amizade se quebre em nosso interior sem uma chance...









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