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sábado, 2 de abril de 2011

José Alencar


Maria J Fortuna


Diz uma lenda sufi que Deus necessitava da matéria-prima para criar o homem. Mas nenhum dos seus anjos queria buscá-la, porque sabiam que, ao trazer ao ser humano a vida, também lhe trariam a morte. Até que Izrail, um anjo corajoso, a trouxe e, a partir daí foi chamado O Anjo da Coragem!


A meu ver, cada vez que um casal gera um filho, imita Izrail. Sabe que aquele novo ser herdará seu destino e estará irremediavelmente comprometido com a luz da vida e as trevas da morte. Tanto gerar quanto deixar nascer é um ato de coragem! Mas como o ser humano esquece sua origem vinda do nada, reluta em voltar para o nada. Mas será que viemos do nada mesmo? Se fomos originados de coisa nenhuma, logicamente voltaremos para o estágio zero. Não foi isso que nosso simpático mineiro José Alencar mostrou com sua experiência no assunto. Nunca ninguém tão famoso, como no seu caso, levou as pessoas a valorizar tanto a vida e aceitar com tanta tranquilidade a morte. Com isso, ele nos deu enorme contribuição. A nós, gente do Ocidente. Cheios de medo do grande desconhecido! Mostrou-nos, com humor e simplicidade, que o câncer deve ser nomeado e que há como lutar contra ele até o fim, mesmo sabendo que se pode perder. Isto quer dizer ter esperança! Não me recordo de ter visto outra pessoa que tenha apresentado à mídia assunto tão tabu, com um sorriso tão bonito no rosto, como esse brasileiro notável! Penso que ele próprio não sabia o quanto estava contribuindo para que as pessoas reflitam sobre a impermanência de todas as coisas e se tornem lúdicos para enfrentar a seriedade destes assuntos.


A maior parte das vezes, fingimos que somos imortais e procuramos preencher nossas lacunas com algum vício ou outra forma de consumo. Acontece que a alma humana tem sede do Belo, e com isso, esta enorme insatisfação é, com certeza, a nostalgia que existe em sua ausência.


Desde que eu era muito pequena, o assunto da morte me deixa curiosa. Quando criança, a gente não tem medo da morte, mas dos fantasmas que existem dentro do adulto com quem convivemos. E, se não os exorcizamos no decorrer do tempo, farão barulho dentro de nossas mentes e corações pelo resto de nossas vidas. Até que se dê um basta! Mas creio que 90 % da humanidade não dá este basta. E, como sonâmbulos, nadam num mar de preconceitos e tabus, embalados pelo medo.


Dizem os sufis, que após a produção do homem, vindo da matéria prima trazida por Izrail, a alma humana não queria habitar aquele corpo feito pelo Criador. Como atraí-lo para o corpo? Indagou a Si mesmo o Senhor. Então ordenou que um anjo o habitasse por algum tempo, e uma vez nele, tocasse uma flauta... Então, ao ouvir a flauta, o homem se encantou e, finalmente, entrou em sua morada de carne. Assim aconteceu a José Alencar. Mas a diferença foi que o anjo tocou lá no céu, sua nova e verdadeira morada. José ouviu, se encantou e saiu depressinha do corpo, finalmente, para morar com o Criador.


Como disse Guimarães Rosa, gente que é gente não morre, fica encantado!

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