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sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Faz tempo que eu brigo com o tempo...
Maria J Fortuna
O maior texto, que já escrevi até hoje, foi sobre um assunto que sempre me intrigou – o velho novo tempo... Nele, confundo tempo com Deus, energia, correnteza, vento brabo, tudo o que passa correndo, e julgando esta abstração estupenda de um mau gosto inexplicável! Pois é capaz de fazer de mim um punhado de células que envelhecem, afastando meus amigos de infância e juventude, levando entes queridos sempre, a meu ver, prematuramente, para lugar desconhecido, e ainda prometendo fazer o mesmo comigo. Sempre fui avessa às aulas de História, porque falavam de um passado, para mim, inútil, que pode ter sido deturpado no relato oral ou escrito dos antepassados. Por tudo isto eu achava o tempo um absurdo eterno, sem lógica.
Finalmente, encontro uma forma, não de compreendê-lo, mas de pará-lo! De uma vez extasiada, nem perceber sua presença... De não questioná-lo, mas apenas permitir que a luz me preencha todas as células, tornando-me atemporal! É isto: o tempo existe para que possamos nos reconhecer na infinitude do Amor! Quem ousa questionar o tempo quando isto acontece?
O estado de amor é a via mais rápida para chegar à transcendência, o que me deixa totalmente fora do tempo. Que me reúne e me faz valorizar o que aconteceu no passado e no futuro. Que me faz reviver a Santa Ceia como se eu estivesse ali, com os discípulos, na presença do Mestre. Contemplar, embevecida, as obras de Da Vinci, como se tivessem saído, naquele momento, do pincel para a tela. Emocionar-me com a poesia de Cecília Meireles, como se as letras ainda estivessem frescas no branco do papel em sua velha escrivaninha. Alegrar-me com as estórias do Sítio do Pica Pau Amarelo recém-escrito por Monteiro Lobato, enquanto eu ainda criança.
O belo é atemporal! O estado de Amor, além de um mergulho no belo, ainda nos faz viver tudo o que se passou no que se passa. E o que se passa no que se passará.
Em estado de amor, não se julga. Reconhece e acolhe a pessoa velha que fui, e a nova pessoa em que me torno a cada instante. Reconhece, igualmente, o outro do mesmo jeito. Assim consigo vislumbrá-lo, por mais inflexível que seja, em seu processo de mudança. Basta que o amor chegue de repente, sem nenhum aviso prévio, com seu jeito profano e sagrado, humano e divino. O tempo não ousa existir quando a gente está mergulhada nele. O tic-tac do relógio nada tem a ver com as descompassadas batidas do coração humano quando ama, pois só o amor vence o tempo...
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3 comentários:
Eliana Luppi, por email
Maravilhosa essa sua crônica!!!
A Obscuro também, mas me identifico melhor com
o "sem tempo" ou o "atemporal"... adorei!!!
beijos,
eliana
Legal, Eliana! O Obscuro é muito sofrido. Melhor identificar-se com um tema mais alegre.
Um abraço
Ana Freitas por email:
Que maravilha de texto, fiquei encantada.
Parabéns!
Bjs. Ana Freitas
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