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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Jogo de Paciência


 


Maria J Fortuna


Outro dia, eu estava numa festa de aniversário de criança.  Logo que cheguei ouvi os sons da música misturada aos das falas e risos. Dali há pouco eu estava tonta! Pensei como iria aguentar uma  festa tão barulhenta! Como não conhecia quase ninguém, após cumprimentar o pequeno aniversariante e família, fiquei num canto,  sem saber o que faria dali pra frente... E comecei a observar  a fisionomia de alguma pessoa em volta.  Mas como  o barulho  estava ensurdecedor ,  não dava para conversar com alguém conhecido ou não, “fechei-me em copas” e, com o tempo, quando vi que o rebu não parava,  comecei a fazer o seguinte joguinho: olhava para o convidado velho e imaginava como ele teria sido quando jovem ou criança; olhava uma criança e a imaginava adulta ou já  velha. Fiquei muito tempo nessa... E as pessoas nem desconfiavam o que estava acontecendo por trás dos meus óculos.  Isso costuma acontecer  quando me sinto enfarada de algum lugar e quero voltar pra casa.  Nesse jogo de vai e vem, eu me projeto nessa ou naquela pessoa e começo a sentir  alegria, tédio ou cansaço...  O que não é mais surpresa para mim.
 

 Que forma mais medíocre para passar o tempo pensei. Por que não aparece alguém com quem eu possa conversar sobre algum assunto interessante?  Mas com aquele barulho quem queria conversar desanimou. Pessoas conhecidas e desconhecidas desfilaram em minha frente. Cumprimentavam, sorriam  e ficavam de um lugar para outro aqui e ali.
Enquanto isso a mãe da criança, um menino que estava completando cinco anos, dividia-se entre receber e manter alguma conversa com os convidados e atender as necessidades do filho e  seus amiguinhos. E sempre aparece, nessas festas, um tio ou tia espalhafatosa que enche a casa com  exclamações aos altos berros elogiando a festa!    Mas ali nem dava para ouvir o que diziam por causa da música somada aos barulhos de vozes e os gritinhos e risadas gostosas das crianças.  Era divertido ver as pessoas abrindo os braços, gesticulando alegres, distribuindo abraços e beijinhos. Mas com o tempo e a repetição a cena começou a cansar...
Os homens recuados num canto,  conversavam sobre politica e futebol, assunto sempre recorrente nas alas masculinas. As mulheres falando das domésticas e trocando receitas.  Muito aborrecido.

Daí, entre um brigadeiro e outro,  avancei no jogo “adivinhatório”  e comecei  o ensaio sobre qual é a profissão das pessoas que ali estavam.... Aquele tem jeito de advogado... Se tiver um dentista aqui vai ser difícil adivinhar, pensei.  Eu nunca identifiquei, até hoje,  um dentista...  Mas com certeza aquela é funcionária pública, não sei porquê...  Mas pode bem  ser juíza, contadora, advogada, sei lá... Aquela moça simpática deve ser do tipo nove do Eneagrama.*Deve adorar festas! 
Sem ninguém interessante que desafiasse o barulho e sentasse ao meu lado para ficar esgoelando o tempo todo e sair dali rouca, o jeito era  voltar a elucubrar sobre as pessoas, mesmo sabendo que isso  não leva a nada. Só pra passar o tempo...  De vez em quando, aparecia alguém interrompendo meu “jogo”,  para me elogiar ou tecer um comentário aos berros,  a respeito do que eu teria feito na pintura ou  literatura.  E  aproveitavam para perguntar se minha filha estava indo bem no casamento e se eu já tinha neto. E voltavam a deambular pela sala.
O tempo passando, a música sempre altíssima machucando-me os tímpanos, salgadinhos e doces enchendo as bochechas e  eu ali,  bebericando uma cervejinha que milagrosamente apareceu naquele canto.  Foi a festa! Mal acabava de tomar um gole, o garçom enchia novamente o copo. E eu na adivinhação...    A bexiga começou a reclamar. O jogo agora era adivinhar  o signo dos convidados... Aquela, por exemplo, deve ser geminiana. Olha como é comunicativa! Aquele com certeza é de peixes:  quieto, introvertido, com ar sonhador. Identifiquei vários sagitarianos e um canceriano. Aquilo de ficar classificando as pessoas por categoria zodiacal começou  também a  encher-me o saco!
Mas acabei me aprofundando no jogo do passatempo... Afinal já estava no terceiro copo de cerveja...  A pergunta era: Quem estava verdadeiramente feliz naquela festa? Sem dúvida as crianças. Mas tem gente mascarando preocupação com sorriso amarelo... A moça ao lado está doida para ir embora, feito eu. Olha só a cara... Mas o filho está tão animado brincando de pula-pula... Aquela adolescente deve estar morrendo de excitação. Não para de lamber a orelha do namorado. Aquele outro de chapeuzinho de aniversário parece um menino, talvez o adereço infantil tenha lhe soltado a criança que existe dentro dele. Parece...
Enfim os Parabéns! Graças a Deus! Todos reunidos para ver o garoto soprar as cinco velinhas! Depois o corte do bolo, que estava uma delicia! E, finalmente, o alívio  de pegar a bolsa, dizer tchau para todos e  voltar pra casa e dizer a mim mesma: nunca mais quero ir a aniversários barulhentos!  Nem só, nem acompanhada!  Seja de adulto ou criança!  Ficar inventando  jogo de adivinhação  pra passar o tempo não dá.  Só muita paciência!

 

O Eneagrama (do grego Ennea = nove e grammos = figura ou desenho) é um antigo sistema de sabedoria, criado há cerca de 2500 anos (autores situam sua origem entre 3.500 e 2.000 anos atrás), provavelmente no Egito. Seu conhecimento foi mantido sigiloso durante muitos séculos sobre os nove tipos de caráter.


 

Um comentário:

MJFortuna disse...


Eliana Angélica de Sousa, por e-mail.


11:22 (Há 1 hora)



E ponha paciência nisto!!!! Fiquei exausta só de imaginar-me neste ambiente!!! rsrsrs
Muito bom. Parabéns!
Bjs.

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