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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Eu queria conhecer a Fernanda

Maria J Fortuna
Nem me recordo mais a hora em que aconteceu o casamento... Só sei que eu queria pelo menos ver a noiva de longe. Aquela Igreja sempre foi muito chique! O pai militar alta patente, o noivo que me detestava, mas de longe eu poderia ver Marília entrar na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, na Rua da Bahia em Belo Horizonte.
Bebi umas caipirinhas e pensei: É... Não dá mesmo para penetrar no espaço da burguesia. Fiquei por ali mesmo, na esquina da rua. Era incômodo, porque toda hora eu tinha que me esconder de algum conhecido que estava indo ao casamento. Eu não queria aparecer para não ficar me justificando porque estava fora da Igreja e naquela situação esdrúxula de bisbilhoteira. Mas era óbvio que jamais iria entrar de calça jeans, blusa de malha azul e tênis num cerimonial daqueles!
Escrevi uma poesia para a noiva que nunca entreguei. Já que eu não podia endereçá-la também ao noivo, por ser desafeto do mesmo. De qualquer forma não tinha grana para comprar presente.
Mas na hora em que Marilia entrou na Igreja, só vi a espuma branca do seu vestido. Nem senti a doçura do seu olhar castanho, nem o contraste de sua pele, ligeiramente morena, no branco do véu de tule. Deve estar lindíssima! Pensei. Afinal desde que eu havia chegado do Rio de Janeiro para BH, ela era a moça mais linda que até então havia encontrado! As caipirinhas já faziam minha cabeça dar mil voltas e a vista começou a ficar desfocada. No fracasso de ver pelo menos a noiva de mais ou menos perto, fui embora com as duas mãos nos bolsos, parecendo um rapazinho. E não quis tentar vê-la na saída da Igreja. Seria risco dobrado!
Puxa! Quanto tempo se passou daquele dia! E a gente morando na mesma cidade... Marilia já com três filhos, duas netas e a gente se encontrando de vez em quando. Nunca fizemos parte do mesmo universo. Mas em termos de afetividade sempre fomos amigas.
Dos três filhos: dois rapazes e uma moça, a Fernanda, é quem eu queria mais conhecer pessoalmente. Um dia vi seu retratinho num dos encontros da turminha do Julia Kubistchek, hospital onde a gente trabalhou durante uma década em Belo Horizonte. Tão linda quanto à mãe! Pensei. E foi aí que apareceu a oportunidade: Fernanda ia casar. Marilia me telefonou:
- Convidei muita gente. Até demais! Tenho que ter a certeza que você vai. Estou deixando de convidar gente por sua causa, viu?
- Quem disse que não irei? Imagina se vou perder a oportunidade de conhecer pessoalmente sua filha e celebrar com você...

Quando desliguei o telefone, apesar do subconsciente falar-me de certo medo do pai, do marido, do ambiente, ou sei lá do que mais, eu disse a mim mesma que aquele evento eu não deveria e nem poderia perder. Era como se minha amiga estivesse renovando convite para o seu casamento. E eu agora, perto dos 60 anos, não iria esconder-me na esquina, com a cara cheia de caipirinha. Afinal não havia mais ditadura militar e talvez, naquela data, o marido não me odiasse tanto... Não era mais aquela menina anarquista de outrora. E dentro desta reflexão, guardei cuidadosamente a velha garota do passado, amante de Max e Freud – o que já é uma loucura – dentro de mim. Eu, a bem humorada chargista da turma, sonhadora e avoada, poeta e boemia dos anos sessenta, iria enfrentar a renovada “burguesia” afinal.
Bem, escolhi uma roupa bonita, pedi sapatos emprestados, fui buscar o colar de perolas, herança da família. Reservei perfume francês guardado para ocasiões especiais. Comecei os preparativos para o grande evento! Fui ao salão de cabeleireiro, fiz as unhas, tomei um banho de espumas, mas... Faltava buscar a menina do passado que estava escondida dentro do peito, para ter certeza de que não o não sentia mais medo.
Quase na hora do casamento como que paralisei. O que estava me segurando? Por que não ia me arrumar? O tempo se cumpria no tic tac dos segundos... Quase quarenta anos haviam se passado do primeiro para o segundo casamento. E naquele eu havia sido era convidada com esmero! Marília deixara de chamar outras pessoas por minha causa, para que eu celebrasse com ela a grande festa de Fernanda! O que estava acontecendo?
Primeiro, pus a culpa na noite... Sempre temi a noite. Como iria chegar sozinha àquelas horas da madrugada, após a recepção no Clube tão distante de minha casa? E os assaltantes? Mas por que iria a recepção? Telefonei para uma amiga que me disse que eu poderia levar meu carro para sua casa e dormir por lá. No dia seguinte viria embora... Mas a casa da amiga ficou, de repente, tão distante...
O tempo se passando... E eu ali, parada.
Lembrei-me então que não havia comprado um bom presente. Um bom presente era fundamental... Mas com tanto tempo para fazê-lo, anteriormente, porque não o havia providenciado algo que me agradasse levar aos noivos?
Mas... E minha filha, que não havia sido convidada? Afinal não constava seu nome no convite... É talvez por causa disto. Mesmo que a Marilia dissesse que lá só havia lugar pra mais um.
Eu ali parada, pensando... Visualizando Fernanda linda, tão linda quanto sua mãe, na década de sessenta, entrando pelo braço do pai, na Igreja toda enfeitada de flores brancas... É isto! O pai sempre me achou meio estranha, marginal, esquerdista... Mas há quanto tempo se deu isso?
Teria sido de fato o presente? O pai militar? O pai da noiva? A filha que não fora convidada? A casa distante da amiga? O que me fez ficar paralisada e não comparecer ao casamento de Fernanda? Eu queria tanto conhecê-la pessoalmente... Por que estava sabotando um encontro tão precioso? Talvez precisasse só de um empurrãozinho de quem me conhece bem no fundo e me levasse na marra. Mas... Não houve isto. Então fiquei um tempão parada, sentindo a noite cair lá fora e dentro do meu coração, durante horas... Até que o tempo se esvaiu...
Não assisti o casamento nem da mãe nem da filha. Não sei serei convidada para as núpcias da neta, caso venha a existir. Aí já nem precisarei de um empurrãozinho, mas talvez possa comparecer apoiada em alguém ou assistir, quem sabe, de outro plano de consciência. Desde que pergunte a mim mesma:
O que me impede de comparecer ao casamento da neta da Marília? Queria tanto conhecê-la!

Um comentário:

Adriana Tanese Nogueira disse...

Maria, gostei muito de sua história. Vc mostra bem o conflito interior, a fraqueza social de um dos lados expressa na agonia da protagonista. O preconceito do outro lado expresso na ausência de convite para a filha da "esquerdista". Assim é que a manutenção dos jogos sociais continua.

Obrigada por partilhar.

Um abraço

Adriana Tanese Nogueira
http://adrianatnogueira.blogspot.com

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