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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Mar, medo e liberdade



Praia sem sol nunca é a mesma coisa, mas resolvi levar a pequena Talita de seis anos à praia de Copacabana. O mau tempo enfumaçava as montanhas e o mar acinzentou. O vento nos envolvia com muita força e, por isto mesmo, as ondas se tornavam ousadas, altas e barulhentas. Talita não tem muito costume de visitar o mar. Mora longe, no subúrbio, e praia é coisa de zona sul. Mesmo assim ela não deu a mínima bola para o tempo cinza, cheio de vento, com suas caretas.
Tirou a roupinha e, já de biquíni, saiu louquinha para abraçar o marzão. Fiquei pasma com sua coragem! Ela atirava os braços abertos em direção ao mar, como quem chamar para si um velho companheiro de brincadeiras. Fiquei de sobreaviso. Ela não tem medo e pode se afogar pensei temerosa. E fui depressa ao seu encontro sem ter tempo para livrar-me a roupa que cobria o maiô. Nunca soube nadar e a praia estava sem salva vidas.
Enquanto isto a menina entrava e saia do mar, pulando as ondas rasteiras que já haviam perdido a força e apenas espumavam como refrigerante recém despejado num copo. E ela se divertia com isto, completamente livre do medo... Com isso ia avançando em direção as ondas mais altas que, para se formar, recuam com muita força para formar imensos corpos líquidos.
Eu me vi pequenina, na idade da garota, lá nas praia de S, José de Ribamar no Maranhão, onde nasci. Vi minha irmã, que se dizia índia guerreira, segurando-me pela mão, com força, para deter minha corrida corajosa para o mar carregando pequeno balde na mão. Ela gritava aflita:
- Não faz isto, menina. O balde está cheio de água doce. Se você jogar no mar vai acontecer pororoca!
- O que é pororoca? Indaguei curiosa.
- Mistura água doce com água salgada... Referindo-se ao fenômeno do encontro do rio com o mar.
- E tu vais ver o que acontece, falou de forma ameaçadora.
Recuei mais que depressa. E aconteceu um fato estranho: perdi a vontade de brincar. Queria ir para casa. Havia perdido a excitação que me impulsionava e me enchia de vida.
Minha irmã tinha pouca idade, mas como eu era muito miúda, ela parecia gigante perto de mim. E tudo que ela falava eu acreditava piamente. O sentimento de que algo fora do controle me ameaçava deu-me um baita medo do mar. E este sentimento paralisa e enfumaça nossa paisagem interior. Parece que o sol nunca mais retorna. Então o trovão seria uma pororoca no céu? E passei também a ter medo de trovão.
Ao contemplar a pequena Talita e seu desafio ao grande mar, refleti no que significa ser livre do medo. Pensei em minha vida e o preço que paguei pela luta para conquistar esta dama poderosa – a liberdade!
Como foi difícil separar-me da família em busca de uma vida sem algemas. Meu medo de casar, ter filhos, repetir o padrão da família: virar mulher submissa e servil, sem condições para proteger sequer a prole da tirania do macho.
Como foi difícil sair de casa aos 22 anos sem que estivesse ligada a um grupo de pessoas onde pudesse alimentar meu sentimento de pertinência, tão vital ao ser humano. . O medo da liberdade deixa-nos paralisados! Eu havia desafiado aquelas ondas, Havia-me lançado como água doce, estranha a natureza salgada do oceano. E com isso sentia como que uma pororoca me revirasse do avesso. E eu ali como peixe pescado: molhada de paixão e seca de amor. Ansiava pela liberdade e quando a tinha nas mãos, não sabia fazer uso dela. Ninguém me havia ensinado a ser livre. Estava entregue ao desconhecido, sem resistência, mas me debatia perdendo, não poucas vezes, a esperança de enxergar um porto seguro.
Agora estou vendo Talita. Seguro sua mãozinha digo-lhe que sou proteção, sem saber nadar. Ou dou um jeito de não deixar que enfrente o mar. Mas não contei para ela que só aprendi a nadar em oceanos de concreto.


Um comentário:

Ana Jácomo disse...

Maravilhoso, Mariinha!
Beijos

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