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domingo, 11 de abril de 2010

O bode



Maria J Fortuna



Eu tinha seis anos incompletos quando vi bode Simão pela primeira vez. Um homem com cara de bonzinho, havia amarrado a corda que ciculava o pescoço do bicho, num poste, perto da Pirâmide de Beckman, monumento que fica na Beira-mar, em São Luis do Maranhão, onde eu morava.A cara do animal sempre havia me intrigado. Ele parecia com aqueles senhores sérios, dignos de muito respeito. Ainda por cima, tinha barba como o vovô da padaria. Qualquer maltrato àquele bicho sizudo seria uma afronta, um desrespeito. Mas o olhar dele me intrigava... Parecia que queria me segredar alguma coisa...- Este bode quer fazer amizade comigo, pensava eu. Como sempre fui uma criança que se sentia muito só, achei que devia ser amiga e confidente do bode. Afinal sua liguagem se resumia num béééé, que podia dizer muita coisa, só que ninguém compreendia. Parecia o som de quem estava se queixando de alguma coisa.... Seria absurdo desrespeitar aquele bode, pensava eu. Seu jeito lento de comer capim devia ser de bicho velhinho... Bode Simão, nome dado por mim, passou a fazer parte do meu universo. Era como se ele conhecesse meus segredos e eu os dele, daquele animal quase silencioso que eu visitava todos os dias. Certa vez criei coragem e afaguei-lhe o pelo, que era ao mesmo tempo macio e áspero. A coisa estava ficando séria, porque a amizade estava se estreitando... Ele tinha um odor meio forte, mas não desagradável para mim, sua amiga. Passei a ficar muito preocupada quando chovia, porque o bode podia estar dormindo na chuva e sentindo frio, apesar do calor do nordeste.Ou alguém podia até bater nele, sendo cruel, chutando-o ou jogando-lhe pedras, como infelizmente eu assistia muitas vezes em relação aos gatos, que corriam no muro do quintal. Havia qualquer coisa de telepático na minha convivência com Simão. A gente se ligava através do pensamento e ninguém sabia o segredo de nossa comunicação.Era só o caboclo amarrar a corda do pescoço do amigão no poste que eu aparecia na janela de casa, com minha cabeça cheia de cachinhos, esperando oportunidade para me aproximar novamente do bode ancião. Aí começava o diálogo mental:- Quantos anos tu tens? indagava eu- Não sei bem, mas já estou velho... imaginava eu sua resposta.- Teu dono é bonzinho pra ti?- Às vezes... - Tu tens pai, mãe e irmãos?- Não sei por onde andam...- Se alguém te maltratar tu me falas.- Está bem... eu falo.Numa destas ocasiões, eu subi em dois barris que estavam ali jogados. Coloquei um pé num barril e outro pé no outro. E tentei me equilibrar. Mas eis que os barris estavam vazios e cada um rolou numa direção, o que me fez desequilibrar e eu caí em cheio no chão de terra. Senti a dor do tombo nos ossos da bacia e fui chorar debruçada no corpo do bode. Só pelo calorzinho daqueles pelos macios e sentindo sua respiração, fui me acalmando... Parei de chorar e limpei os olhos. A dor passou e tudo ficou bem.Olhei para o amigo, que me fitava com aqueles olhos castanhos e mansos e disse:- Obrigada, viu?- De nada, espero que fiques bem, imaginei a resposta do amigo.Num dia claro, cheio daquelas nuvens que parecem carneirinhos, saí para encontrar com o amigo. Quando cheguei percebi que ele estava solto. A corda se arrastava pelo chão. Então me aproximei curiosa e confiante em nossa intimidade. Afaguei-lhe a cabeça como sempre, conversamos um poquinho, não me lembro o que, quando ouvi a voz de minha mãe me chamando.- Fica aí e não foge, viu? disse para o bode Simão, que me olhou fundo. Começou então a dar uma espécie de ré, o que eu interpretei como timidez. Deixei pra lá, virando-me em direção à porta de entrada da minha casa. Lembro-me direitinho da enorme pancada no traseiro, que me fez cair esborrachada no chão duro, como os chifres do bode. Entre revolta e decepção, vi que o considerado então amigo, havia me traído pelas costas, e com isto veio o fim da nossa grande amizade!Troquei de mal e nunca mais conversei com ele. Marrada inesquecível!

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