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terça-feira, 31 de maio de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A rua suspeita...



Maria J Fortuna







Eu estava atenta para duas questões importantes: a primeira delas é que na década de 60 eu não conhecia bem Belo Horizonte. Outra, de como iria encontrar o ponto de ônibus que me levaria até meu novo endereço.
Já havia rodado vários quarteirões e nada... Havia muito poucas pessoas por ali, naquela rua sombria. Meu coração começou a acelerar e bater descompassado. Lembrei-me daquele fato assustador da minha primeira infância: Na cidade onde passávamos as férias larguei as mãos de minha mãe, para ver o cavalinho de pau na vitrine. E quando de repente olhei para trás, não vi minha mãe. Só parei de chorar quando meu irmão, que comtemplava tudo de longe, apareceu. Deu-me a mão e fomos juntos, procurá-la. Mas aquela rua estranha, já ao cair da noite, fazia-me sentir cada vez mais só.
Apertei junto ao peito os livros que trazia do meu trabalho no Hospital sentindo que ali, definitivamente, não era lugar para ser frequentado por moça séria. E tive certeza disto quando passei por três homens que me olharam de forma desenvergonhada, de cima a baixo, e murmuraram algumas palavras que lhes fizeram gargalhar.
Pouco depois, quando encarei a descida da ladeira, comecei a ver mulheres estranhas, sentadas na mesa de alguns bares, cheios de homens. Elas estavam muito pintadas, quase desnudas, e olhavam de forma provocante para os homens que alisavam as coxas nuas e palpavam-lhes os seios.
Não havia mais dúvida! Eu estava numa famosa rua daquela cidade, chamada de Guaicurus, na zona boêmia de Belo Horizonte, onde se desenrolou a tumultuada vida pregressa de Hilda Furacão, personagem interpretada por Ana Paulo Arósio na TV Globo.
Lembrei-me que, quando criança, tinha inveja dos meus irmãos mais velhos, logo que fiquei sabendo, entre risos e sussurros, que eles frequentavam estranhas paragens, cheias de mulheres... E quem seriam elas? O que havia de tão proibido ali? O que faziam com eles? Eu ficava com a pulga atrás da orelha! Na época, ir à zona boêmia para os meninos, significava provar que haviam se tornado homens. Uma espécie de ritual de passagens da adolescência para a vida adulta. Por que eles tinham tanta liberdade e nós, mulheres, não? Fantasiava vestir-me com roupa masculina e visitar, noite daquela, a tal zona, para perscrutar o que acontecia por lá.Mais tarde, a curiosidade chegou ao máximo! Queria conversar com as prostitutas, fazer amizade, saber o que sentiam quando homens, conhecidos ou não, as abordavam. Se não podiam escolher um, em especial. Elas poderiam me falar como eram os homens que as procuravam. Seriam brutos, degenerados em suas relações sexuais, ou algum deles seria mais carinhoso...
Mas era chocante aquele lugar! Tive tempo para reflietir sobre o que me havia feito favorecida, com tantas oportunidades na vida e aquelas mulheres, talvez, sem nenhuma?
Tudo o que queria era sair correndo dali. Até que me apareceu um rapaz, alto e magro, bem vestido, que me falou para segui-lo sem olhar para trás. Eu me senti a mulher de Ló, citada na Bíblia. Se olhasse para trás poderia virar estátua de sal. Ali a chaga da doença social era muito mais viva!
Subindo a ladeira em silêncio ao meu lado, o moço falou-me bem sério:
- Aqui não é lugar para a senhorita!
Agradeci e peguei o primeiro ônibus que ia passando. Por sorte, era justamente o que me levou para casa.
E o rapaz que me havia feito companhia? O que fazia por lá? Não podia imaginar fazendo sexo com aquelas mulheres... Ou estava enganada? Esta indagação faz parte, até hoje, de minhas lembranças...

domingo, 22 de maio de 2011

Em Transcendência a Oração do Abandono




Um encontro delicioso dentro do coração!




http://precesemcaledoscpio.blogspot.com/2011/05/charles-de-foucauld.html

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Allegro







Maria J Fortuna



Hoje, quando acordei, tudo que eu queria era ouvir a linguagem dos pássaros, voando no céu, celebrando a vida! Sonolenta, fechei os olhos e senti o embalo do respirar que adormentava meu corpo recém-desperto. Aquelas aves cantavam em tamanha harmonia e beleza, que tudo o que quis foi entregar-me àquele momento! Quão distante eu dos conflitos que trazem a guerra, eu me encontrava... Dei asas a imaginação... Podia fantasiar o que quisesse!

Em cada trinado das aves, lembrava-me do Allegro 3:14 de Vivaldi. Subitamente, a presença da bailarina uruguaia Graciela* aqueceu-me o pensamento. Com seus movimentos de borboleta, ela expressava como ninguém, e entre outros sentimentos, a alegria, quando se movimentava no palco, com seus saltos espetaculares! Eu me vestida de vermelho, descalça, com os cabelos revoltos, junto a ela numa nova coreografia. Saltávamos e rodopiávamos e nos elevávamos do chão como folhas ao vento, enquanto o tempo trabalhava suas nervuras roubando-lhe o verde. E a lembrança daquele bailado está, para sempre, bordada em filigrana, em minh´alma!

O tempo não existe... A velhice é fantasia que mostra, no espelho da vida, uma camada externa dos nossos corpos em erosão. Só isto. É uma forma de nos levar, folhas secas, para o outro lado da vida, sem arrependimentos. O palco está armado e eu ali, com uma recordação tão plena do que vivi naqueles tempos de ditadura militar no Brasil! Como foi bom, hoje cedinho, a realização de um sonho antigo: dançar com Graciela!

Se quisermos, em brevíssimos momentos, realizaremos outros sonhos que guardamos no baú do coração. Sobretudo, se ainda acreditamos na brincadeira do faz de conta... Coisas de amor são eternas! Amar é a chance de reencontrarmos a esperança perdida. É permitir que o rio corra livre por cima das pedras, que o falcão voe, em todas as direções e a flecha possa errar seu alvo... E às vezes, precisamos dançar a vida como diz Roger Garaudy. Assim como Rolf Gelewiski , interpretando, com o corpo, seus próprios sentimentos. Se não pudemos fazê-lo no momento, que dancemos na memória ou imaginação. De preferência, sem sapatilhas, voando como pássaros dançarinos.

As artes são notas musicais, cores do arco-íris, que compõem a sinfonia da Beleza.

Hoje acordei com os pássaros. Quero aproveitar os momentos de oásis que o deserto me traz. Saint Exupéry sentiu que o deserto é belo porque dentro dele há um poço, que ninguém vê. Quero então dormir com a revoada do por-do-sol, quando os pássaros, aos poucos, silenciam. Silêncio tão sagrado quanto Aquele cujo Nome ninguém ousa pronunciar.



* Graciela Figueroa, Integrante do grupo de Dança de Twyla Tharp, respeitadíssima nos Estados Unidos, em Nova York, Graciela optou por ficar na América do Sul e no Brasil, e dedicar seu talento exuberante à criação de um trabalho que privilegiasse o sentir humano.

sábado, 14 de maio de 2011

Atenção! Sakineh não pode ser esquecida!




Maria J Fortuna




Por causa das grandes manifestações contra as ditaduras árabes e a repercussão do que está acontecendo pelo mundo, Sakineh está sendo esquecida, como diz Mina Ahadi, sua compatriota e Presidente do Comité Internacional contra o apedrejamento. (Revista Época desta semana) “ Sakneh sofre de depressão porque não sabe o que vai acontecer a ela. Tem medo de ser executada. A Justiça ainda não suspendeu a sentença de apedrejamento. Há mais de 30 anos pessoas são apedrejadas, e mulheres não tem direito. Há mais 24 mulheres e dois homens que correm o risco de serem executados dessa maneira no país.”

É inconcebível estarmos no século XXI e ainda ocorrer este tipo horrendo de barbárie na face deste sofrido planeta Terra! Recordo-me da Salve Rainha, uma oração da Igreja Católica, que me ensinaram a rezar quando pequenina. Por que lembrei disso? Porque a Mãe de Jesus é invocada como Mãe da misericórdia, a mulher que é vida, doçura e esperança nossa. Há, no entanto, duas frases interligadas na oração, que sempre me chamaram atenção, e custei a aceitar: “A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A nós suspirando, gemendo e chorando neste vale de lágrimas....”

Gemendo e chorando neste vale de lágrimas... Eu não queria aceitar isto. Principalmente quando criança e adolescente. Até que, com a chegada dos anos, a oração começou a fazer sentido para mim. É só escutar no radio e nos noticiários das TVS para constatar a existência desse vale... A terrível da sombra do planeta propalada por todos os cantos.

Só num vale de lágrimas estes absurdos podem acontecer. Curioso é que alguns revolucionários católicos, quando presos e torturados na época da ditadura militar no Brasil, cantavam: Salve Regina, Mater misericordiae, vita, ducédo et spes nostra. Ad te clamamos, éxsules filii Evae. Ad te supeirámus gementes et flentes em hac lacrimárum valle. Que é essa mesma oração cantada em latim.

Colocando de lado a vocação da Igreja para enaltecer o sofrimento, há muita gente gemendo e chorando neste vale... Entre outros tristes acontecimentos, vemos pessoas, principalmente mulheres, sendo apedrejados até a morte enquanto o mundo, diante disto, sente-se impotente. Mas, o que podemos fazer?

“Lula chamava Ahmadinejad de amigo e nunca disse uma palavra sobre as barbaridades do regime”, disse a porta-voz iraniana. Ela tem esperança que a presidente Dilma Roussef que declarou “não tolerar práticas medievais como o apedrejamento”, e a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, possam auxiliar na libertação de Sakineh. Mina Ahadi diz, na entrevista com a Época, que elas “podem ajudar mais ativamente as mulheres e outras vítimas do Irã criticando publicamente o regime iraniano.

De qualquer forma as ditaduras estão sendo questionadas e derrubadas com muito sague jorrando por ai. O regime iraniano está sendo pressionado pelos países orientais e ocidentais.

Quando estive na Europa em 2008, vi inúmeras fotos de Sakineh exposta em praças e lojas em vários países. Estou voltando este ano. Vamos ver se ainda estão por lá... ou se já estão apagadas no papel e na memória dos povos.

sábado, 7 de maio de 2011

Um recado para você

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Dar e receber



Maria J Fortuna

Um Mestre de doze discípulos resolve favorecer um deles. Sem saber por que foi beneficiado e os outros não, naquele momento, quais tipos de sentimentos o favorecido tem para com seu doador?
Por que ele não se sente confortável com a benesse? Por que questiona o espírito de justiça do seu Mestre? Por que se recusa a aceitar simplesmente e confiar nas intensões do mesmo? Por que não desfruta daquele benefício sendo que, fora do tempo e do espaço, a relação do Mestre com cada um dos seus discípulos é inteiramente diferenciada? Por que tanta dificuldade para reconhecer a simplicidade e gratuidade da graça? Por que o fato de ter sido o único presenteado lhe trazia preocupação e constrangimento perante os outros?

Assim acontece em nossa relação com o Criador. Por que não estamos vivendo o inferno do tsunami no Japão? Por que no Holocausto judeu alguns escaparam para contar a história e tantos inocentes morreram? Por que algumas vítimas na Ditadura Militar no Brasil foram barbaramente torturadas e mortas, e outros seguiram suas vidas testemunhando a violência? Por que no grande espetáculo da vida alguns caminham pela Terra com coerência e justiça e são mortos, e psicopatas andam soltos por aí fazendo barbaridades? Nunca vamos compreender a intercessão divina na Terra. O mistério está sempre fora do tempo e do espaço.
Por um momento, fecho os olhos e me deixo levar através da meditação. Não sem antes perceber a presença deste caos imenso que rola no planeta, e sentir que os tsunamis e terremotos internos são bem mais avassaladores que os externos. Como não aceitar o cálice de vinho que refrigera a alma? Creio que as dores da alma são bem mais intensas que as circunstâncias externas, por piores que sejam. Isto é fato.

Na verdade, pouco sabemos o que ocorre dentro de nós próprios a esse respeito e o que existe no coração de cada um. A quantas andam a abertura de nossas consciências para o amor, e a recepção para a dádiva? Também não sabemos das traições e sabotagens que cada um faz a si mesmo, quando se nega a receber de quem lhe quer bem. Em algum momento da vida perdemos a confiança em nós mesmos e consequentemente em Deus e no próximo. Fica assim difícil aceitar a oferenda de Quem nos ama e conhece se não O reconhecemos. Eu pergunto novamente: será que sabemos realmente do que necessitamos? Será que queremos mesmo aquilo que pode nos transformar e dirigir rumo à felicidade?

Sob o ponto de vista humano se não tivermos a simplicidade da criança, nunca aceitaremos de fato que o outro nos dá dentro dos limites de suas possibilidades. Não falo somente do objeto, mas da pessoa do doador. Recebemos do outro a medida do que ele tem para nos dar, repito. Quem de nós desconhece isso? É muito gratificante para nós o dar, mas podemos dizer o mesmo em relação ao receber? Chego à conclusão que é bem mais difícil receber porque necessita de humildade.

Nem sempre é preciso ter confiança em alguém para presenteá-lo, mas para receber de alguém, com o coração, sim.

Quem sou eu

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Sou alguem preocupado em crescer.

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