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sexta-feira, 23 de março de 2012

A moça de vinte e dois anos...




A moça de vinte e dois anos...

Maria J Fortuna

Tem uma moça de vinte e dois anos brigando dentro de mim. Já lhe falei que ela é coisa antiga, mas insiste em emergir da poeira do passado, para me dizer, com todas as letras que, o que sou hoje, devo a ela. E que, em minhas veias, ainda corre seu sangue. Com menos energia, mas é o mesmo conteúdo herdado e isso justifica um pouco o que chamamos destino. Fala também que, por causa de suas descobertas, brigas, conflitos, tristezas e pequenas alegrias, posso dizer que me superei. Aí ela levanta o véu das águas do tempo para que eu veja, em todas as conchas da praia, o espelho de mim mesma. Foi isso que aconteceu naquele dia em que fui à praia e o mar recuou, imprimindo na areia minha velha imagem molhada e trêmula. Sempre foi assim na ilha em que nasci. Eu, menina pensava: as ondas não ligam pra nada a não ser para cumprir a sua sina, fazendo um barulhão! Nem sabia que as grandes sombras projetadas na areia molhada eram façanha do sol em nossos corpos. Eu me sentia enorme!
Mas a moça de vinte e dois anos me falou que foi definitiva a coragem ao abraçar  minha mãe e o suportar da benção negada do meu pai, quando peguei minha pequena mala e sumi de casa. Tinha que correr quando ainda havia tempo para fazer reparos na alma. E aprender com o que não podia mais ser restaurado.  Nem quero falar, nem escrever o que deixei por lá. Aparentemente nada, mas em cada coração a realidade da vida se amontoava e dizia: Não adianta! Tudo tem que mudar para que haja sobrevivência! Então, naquele dia chuvoso meu corpo sentado na cadeira do ônibus, via a paisagem passar e se transformar. Eu também passava e me transformava...
 Dali nem dá mais para contar os anos que galopam em correria. Quando voltei não quis mergulhar nas ausências. Prossegui. Mas é assim: com o tempo a gente começa a celebrar a paz que fica na alma depois de desbravar florestas e de beber o sereno do cactos benditos, pessoas boas que se encontra pelo caminho.
Pois é. Agora estou aqui com esta saudade morena a percorrer fio a fio o tecido das lembranças. Umas azuis, como nos dias em que acampei na Serra do Cipó, vermelho quando descobri o amor carnal, verde quando perdida nas minhas esperanças, cinza quando nada parecia dar certo, rosa quando os dias me indicavam sossego... Daí pra frente.  Talvez o preto, que o coração não queria aceitar, tenha se misturado àquelas cores no paladar de uma existência de luta salgada, mas sempre havia jeito de ficar aquarelada, mesmo em cores mais escuras. Essa foi a salvação!
A moça de 22 anos me falou que, graças ao amor à Beleza, consegui, apesar de tudo,  mergulhar no meu espaço interior,  no templo da alma e descobrir as artes. Afinal vaguei pelas salas de dança improvisando ao som de Vivaldi, pelos palcos amadores sem coragem para tornar-me personagem de mim mesma, pelos ateliês buscando expressar-me com traços e cores que se misturavam nas telas perdidas...
Aparentemente nada deu certo. Então digo a essa moça, em seus vinte e dois anos, que na busca itinerante das artes,  acabei  tornando-me poeta.

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