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sexta-feira, 9 de março de 2012

Deserto



Maria J Fortuna

Sabe, quando a gente  acorda com a estranha sensação de estar vivendo no limbo? Aquele lugar onde a Igreja dizia (  será que ainda diz?) que  ficam para sempre, depois de mortos, os que não foram batizados? Tipo nem salgado, nem doce?   Pois é... O tempo fica preguiçoso e se veste de Dorival Caymmi: canções dentro do peito  e  balanço  na rede...
“Se já fora
Que importa agora
Retalhar a dor, ai
Que doeu outrora
Infindada
A vez não é nada
Passaram-se agora”
  Podia ser. Mas não é. Este estado parecia não incomodá-lo, como a mim aborrece. Para ele,   sesta gostosa, para mim, perda de tempo.
É tristeza branca, envolvida por nuvem acinzentada, vestindo a alma... E o colorido não é de fácil mudança, porque mal aparece...   Dou graças quando surge algo que me possa sacudir, tirar-me desse estado.  É parente da saudade, mas em estado passivo, de lembranças não vêm embrulhadas pela emoção.  Na verdade,  a alma querendo hibernar, adota o gênero:  deixa pra lá, quero mais é ficar quieta...  Sem, contudo, tratar-se de  inércia.
Não tendo sentimentos opostos para ser conflito, assemelha-se a certo estado de tela,  encoberta por filó... Sem que eu tenha o mínimo interesse para desvendar esse véu que a encobre. O que lá existe, é natureza morta, penso eu. E, mesmo com a certeza da presença de tintas e pincéis,  nada me motiva a usá-los. O engraçado é que  não há sensação de provisório, mas uma espécie de quase estagnação em que os movimentos se tornam pesados e lentos...
Pensou em depressão? Não, não é isso...   Acontece uma vontade enorme de ficar na minha, como se diz por aí:  calada, de um jeito quase meditativo, sem saber por quê.  Nada tem a ver com desesperança! Nem com desespero.  Talvez esta forma de manifestar-se,  sem muita expressão, tem a ver com um quase sonambulismo, sem conforto dos sonhos bons. Também não trás pesadelo. Posso dizer que é escrita sem exclamação, comida insossa, instrumento musical mudo, nuvens carregadas que não se transformam em chuva... Chato, não é? Também não é crise de fé.
Lembra deserto...  Tão belo em sua  aridez! Mas hoje também não sinto beleza, como já disse, por causa da quase ausência da Luz.
  Em seu livro Deserto, Jean Yves Leloup escreveu: “Afirma-se, às vezes que Deus se retira, que ele nos abandona; Mas não é Deus que não nos abandona; são nossas ilusões, nossas projeções. Não se perde a fé; pelo contrário, começa-se a entrar mais fundo na fé quando se perdem todas as crenças, quando se deixam de lado os apoios das nossas representações.”
Não será este estado de deserto,  este limbo,  alimento sem sal,  nuvens cinzentas sem chuva,  este meu deserto interior, a continuidade do processo de esvaziamento que estou vivendo?


4 comentários:

Eliane Accioly disse...

ADOREI A VISITA E O POEMA, VOU PUBLICAR!!!!!!!!
BEIJOS

Eliane Accioly disse...

BEIJOS E SAUDADES!

MJFortuna disse...

Maria do Céu, por email:

Querida, ando me sentindo assim, assim mesmo como suacrônica descreve.

O Limbo acabou , por decisão do Concílio Vaticano II e a penadafinal foi dada por João Paulo, o papa polonês.

Mas este Limbo de que fala existe de verdade. E é irrevogável...Mas passa, e depois volta, e depois vai embora. Um círculo vicioso, ou seriavirtuoso, porque às vezes, é importante uma hibernaçãozinha e volta para nossoavesso. Mas é difícil... Como bem sabe, faz parte da vida e seu MISTÉRIO.

Outro dia li, do Marcelo Gleiser, que “ tanto a Ciência quantoa Religião são um inexorável mistério”. E são mesmo... Sabe-se tão pouco, nãoé?

Obrigada pela bela crônica e por estar por perto, mesmo longe,.

Cecéu.

MJFortuna disse...

Teresa Braga, por email:

M.J FORTUNA,



Lindo o seu texto, se percebe que saiu do fundo d'álma!!!!
Mas é o esperado nessa "Transição Planetária" e o ano mal começou!!!!
Por ser uma TRANSIÇÃO, haveremos que nos ajustar às NOVAS ENERGIAS. E a "quebra de paradigmas" faz parte, sendo essencial para o NOVO que chega!!!!
Muitas tristezas ainda sentiremos todos, sem exceção, nessas MUDANÇAS, que ai já estão!!!!
Mas ao nos unirmos, para que um ampare a tristeza do outro, creio ser a única e fatal saída!!! Pelo menos, é nisso que acredito!!!
Nos fazermos somente "UM" com o "outro" ao lado, não importando se conheço ou não, e o TODO, INEVITAVELMENTE passará a ser "UM" igualmente!!!!!
E vc faz a sua parte para esse encontro de TODOS se tornando "UM" lindamente, com a sua sensibilidade e poesia!!!!
Meu fraterno carinho!!!

TERESA BRAGA

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