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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A menina de cabelos vermelhos

Por absoluta falta de tempo para me dedicar a escrever uma nova crônica esta semana, estou repostando A menina de cabelos vermelhos, publicada em 2009. Muita gente que visita Artes e artes, ainda não leu.



Maria J Fortuna                    O leite, trazido por um jumento para o café da manhã, chegava bem cedinho. Eu tomava café com beiju e corria em direção à janela para ver a última atração da rua: uma menina de cabelos vermelhos!
                     Ela havia aparecido certa tarde na porta de casa. Minha irmã quem viu primeiro e gritou para mim: - Vem ver uma coisa muito engraçada... Corri curiosa para conferir o que ela estava dizendo. Dei com uma menina de uns 6 anos de idade, debruçada na janela de sua casa, só de calcinha, comendo uma goiaba. Nossa! Era verdade! Muito estranha aquela menina! Tinha sardas no rosto feito ferrugem e tinha cabelo vermelho, todo assanhado, parecendo raios de sol. Daqueles que a gente vê nos livros de estórias... Por que será que aquela menina havia nascido daquele jeito, com cabelos de fogo? Seria de uma raça de gente estranha, de um lugar distante que a gente não conhecia? Ou foi assim, de repente, que seu cabelo havia ficado daquele jeito? Pensava eu, nos meus cinco anos de idade. Será que ela ficou assim porque era muito levada, ou porque a mãe tinha aquele cabelo? Ou pai, quem sabe... Teria mais crianças de cabelo vermelho naquela casa? No quintal, havia um galo que tinha as penas da mesma cor do cabelo da menina, e meu pai dizia que era da raça dos ro-dis-lande, soletrava eu, mentalmente, sem compreender muito aquela palavra. Será que ela era ro-dis-lande também?
                    Estava chegando o Natal e com isto nossa casa ia receber uvas, passas, pera e maçã, coisa que a gente só vê por ocasião daquelas festas, no nordeste do Brasil. A menina devia ter vindo do mesmo lugar que aquelas frutas, pensei. Elas não eram comidas durante todo o ano no Maranhão. Só mesmo no Natal e Ano Novo. Assim mesmo, para quem tinha dinheiro. Não era nosso caso, mas o namorado da minha tia levava pra gente. Aquela menina só podia ter vindo do mesmo lugar... Era tão rara como o farnel das festas no final de ano... E quando ela fosse à escola? Será que iriam rir dela? Será que ela brincava como toda criança? Seria menos ou mais inteligente que o normal das crianças? Gostaria de pegar nos fios de cabelo da menina. Será que ela deixaria? Será que ela era feliz com aquela cor de cabelo?
                    Não fiz amizade com a garota. Nunca me aproximei dela. Até hoje não sei porque. Mas o acontecido, me faz refletir quanto às diferenças... Que infelizmente, na vida adulta, alimentam o preconceito. O que é um sentimento de agradável surpresa de uma criança para outra, é motivo de discriminação no mundo adulto. Claro que no nordeste moreno de cabelos e olhos escuros, uma menina de cabelos de fogo parecia de outro planeta! Algumas crianças que eram maltratadas em casa podem ter agredido aquele anjo ruivo, mas passa, quando outras crianças de cabelos vermelhos aparecem. O que, infelizmente, não ocorre quando o preconceito é alimentado e o sadismo anda solto...
                    Ficou a frustração de nunca ter brincado com aquela menina linda, e nem sequer ficar sabendo seu nome...

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