sexta-feira, 13 de setembro de 2013


 Obra de Maria J Fortuna
 

Brasileiro, acorde! Una-se aos Invisíveis de Belo Monte!

Maria J Fortuna

A vida nos encaminha para encontros inesperados. Esse foi numa cabine da viação UTIL, quando eu estava indo para Belo Horizonte. Vou lhes contar o que se passou comigo  há duas semanas: tive a honra de conhecer Magnólia de Oliveira, com seu andar determinado, cabelos soltos ao vento e seu olhar sincero e profundo de guerreira. Mas não é qualquer guerreira. Não como as milhares de mulheres também o são. Aquelas que trabalham de sol a sol e ainda criam seus rebentos. O enfrentamento de Magnólia não é somente pela sobrevivência no dia a dia, nem tanto em relação a cobras ou animais perigosos, mas ela vive sim, ombro a ombro, com outro tipo de lamentável perigo: capangas, pagos pelos usineiros, para evitar o movimento de protestos contra a devastação causada pelas  as obras da Usina Belo Monte aos povos  ribeirinhos e extrativistas.  O perigo de sentir uma arma em seu ventre e ela não saber por que não houve disparo.  O confronto com a morte. Assim sendo, o risco iminente é seu companheiro no dia a dia, como de todos que, como aquela moça determinada e apaixonada, lutam por uma Causa. Ela pertence ao grupo dos Invisíveis de Belo Monte.

 

Ouvíamos Magnólia eu, uma moça com um cachorrinho dopado para viagem, ao colo, e uma senhora que se dizia descendente de importante figura, que pelo meu desinteresse, esqueci o nome. À medida que Magnólia falava, senti imediata empatia com os povos sacrificados daquela região.  E me atingiu profundamente como brasileira. Já tinha ouvido falar no assunto, mas não dito por alguém que milita nessa luta!  Meu velho sentimento contra as injustiças circulou-me nas veias e foi parar no coração.  Eis o que foi dito por ela: a hidroelétrica de Tucuruí, no Pará, segunda maior do mundo,  está devastando impiedosamente uma área de  400.000 m2 acima do rio Xingu. Abaixo do rio será seco, onde foram retirados os ribeirinhos e extrativistas. A mineradora Vale está contratando mais de cinco mil homens para a retirada do ouro. Estão trocando nossa Amazônia por indústria de carros e cobiça de ouro no desordeiro e desinfreado capitalismo.

Ela, Magnólia de Oliveira, os franceses Fançois Xavier Pelletier e Caterine Lecroix produziram um filme que se chama Os invisíveis de Belo Monte, Les Invisibles de Belo Monte (França 2012). Encontrei este comentário a respeito do filme:

 
“Foram seis meses de filmagem na Floresta Amazônica, na região de difícil acesso de Volta Grande do Xingu, no Pará, onde está sendo construída a controvertida barragem da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Pelletier e Oliveira explicaram à RFI que o documentário pretende valorizar e mostrar ao mundo o modo de vida dos ribeirinhos que vivem na região. Pelletier ressalta que o objetivo do documentário não é mostrar o impacto da construção da usina para as aldeias indígenas que, segundo ele, já têm bastante apoio de ONGs, mas sim, o prejuízo para os caboclos, ribeirinhos e pescadores.

Segundo estudos do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará, mais de 25 mil pessoas serão afetadas diretamente pela construção da usina. A Volta Grande do Xingu, uma queda de 96 metros, onde o rio quadruplica de largura e forma diversas cachoeiras e ilhas, concentra boa parte do potencial hidrelétrico do rio. Por isso o local foi escolhido para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.”

Ao ouvir Magnólia fiquei pensando nos jovens brasileiros dos anos 60 e 70, na luta contra a ditadura militar no Brasil. Muitos torturados, mortos e desaparecidos.  Por que os jovens de agora não canalizam sua energia para essa Causa Universal? Mas o assunto parece esquecido... Não é noticiado pela TV ou rádio. A sociedade cruza os braços e diz: -“Fazer o  quê? Quem pode lutar contra todo um projeto apoiado pelo governo?”
O Planeta está cansado. A construção dessas usinas quebra sua harmonia. Deixem que os rios sigam seu curso natural. A cada explosão, milhares de peixes são mortos. E eles são o alimento dos povos ribeirinhos, que ficam perdidos, sem rumo.  A energia da Terra e a energia do amor estão sempre em comunhão. Não pode ser fragmentada.
O discurso de Magnólia não foi em vão. De qualquer forma, senti que como brasileira, eu teria que fazer alguma coisa. Resta-me noticiar, denunciar, sacudir a memória de quem já teve notícia do que anda acontecendo, convocar para a luta, entrar em comunhão. Foi muito bom ter conhecido Magnólia!
 Aquarela de Maria J Fortuna
 

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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Transcendendo está renascendo... Veja!

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Até que enfim...


Até que enfim...

Maria J Fortuna

Minha agonia começou aos quatro anos de idade quando ainda não compreendia o  significado da maldade humana. Não entendia, por exemplo,  como um ente dito tão amado pelos homens como Jeshua ou Jesus de Nazareth, foi acabar pregado numa cruz. Nem tinha entendimento suficiente para  compreender o milagre da ressurreição. Muito menos, por que os adultos cultuavam, insistentemente,  a imagem do seu sofrimento e  morte.  Por causa desse meu espanto e revolta oculta, retirei, com minhas mãozinhas nervosas e desajeitadas, todos os quatro Cristos pregados nas cruzinhas de madeira que ficavam amarradas com lacinhos de fita,  na cama das minhas quatro tias solteiras. Lembro-me que no dia seguinte do  ocorrido hove um bafafá! Elas descobriram o “crime” . As cruzinhas estavam vazias e só  ficaram  as mãos das imagens que se pareciam com os soldadinhos de chumbo do meu irmão.  Os quatro corpos da representação de Cristo,   amputados,  foram parar entre meus brinquedos numa cama de boneca. E com não conseguia descer-lhes os braços , parecia que um corpo abraçava o outro. Enfim estavam ali, cobertos por pequenos retalhos de fazenda que eu pensava aquecê-los,  na tentativa diminuir-me a  angústia. 
Passado algum tempo,  as tias me perdoaram e até  riram  da travessura comentando com outros parentes e amigos.   Entenderam que eu os havia arrancado  das cruzes para brincar, mas na realidade o simbolismo da ação era bem outro: eu estava experimentando o sentimento da compaixão. Queria acolher   e até cantar para os quatro Cristos,   uma canção de ninar.  Só não conseguia abaixar-lhes os braços e isto dava-me  certa impaciência!
Aquela foi a grande referência para que eu tomasse consciência das torturas do mundo!  No Colégio da Irmãs Dorotéias, a Via Sacra me pesava...  A Semana Santa  me arrastava para o fundo do poço.  Se eu pudesse, mandaria retirar  dos cinemas e  locadoras, todos os filmes que mostram tortura explícita.
Finalmente, alguém me chama atenção para o crucifixo do novo Papa.  Nele se vê Cristo com os braços cruzados sobre o peito, carregando uma ovelha e cercado por muitas  delas. Sem  que elas, as mãos estejam  paralizadas por pregos.   Ele está em plena ação! Recebi de uma amiga um arquivo que comenta á respeito desse crucifixo:
 
 
 
"No Centro da Cruz está a Cabeça do Cristo, simbolizando a Mente de Deus e também suas mãos juntas, trabalhando junto a seu Coração, o coração de Deus, tomando em suas mãos a Humanidade, o Rebanho do Pastor, os filhos dos homens que são os Filhos de Deus.
Fala de um Cristo Vivo e Ressuscitado, Trabalhando e Servindo, Amando e Redimindo." 
 
Eu sabia que algum dia alguém apareceria para mostrar algo maior do que a cruz sem negá-la. Já que para o cristão católico ela é o maior dos símbolos sagrados.   Sabia que essa pessoa, diferente, que enxerga mais além, seria reconhecida por mim e teria todo meu afeto e respeito. Finalmente não estou mais só.  
Tomara que a Igreja Católica continue mostrar aos fies o lado glorioso do Cristo : Transformação, crescimento e renovação. É por isso que valeu Seu sacrifício.

 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A beleza da arte de Selma Jacob

Gosto de descansar os olhos nas diversas telas dos artistas que pintam nos corredores do Parque Lage. Lá estão vários estilos em colorido e forma que expressam a alma de cada um. Mas de uns tempos para cá tenho parado em frente as telas de Selma Jacob. Dali é difícil arredar o pé. Adoro as cores com que ela trabalha, tingindo o traço firme com a delicadeza com que maneja o pincel, através de movimentos rápidos e espontâneos! As obras dessa carioquíssima que começou seu namoro com as artes em 1999. Exigente consigo mesma, está sempre com os trabalhos em andamento... Parece nunca está satisfeita com o resultado final. Enquanto isso, a gente se encanta... Vejam as fotos que tirei na aula de segunda feira:


 
 
Vejam o retrato do saudoso Grande Otelo pintado por Selma Jacob
 
 

                       Prometo trazer fotos de outras obras da autora para deleite dos leitores de Artes e artes. Já que agora, com minha sede insaciável de conviver com a beleza, estou acompanhando seu trabalho.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O cisma


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O impossível, obra de Maria Martins

                                                                       Maria J Fortuna



Pela vivência, tenho certeza de que o coração humano não tem sido preparado para o amor. Mas perdeu-se no mundo das paixões, também  necessárias à nossa sobrevivência humana.  Talvez a maioria não concorde, mas sinto, na convivência comigo mesma e com o mundo, que são raros os de nós que foram gerados e paridos  e criados na fluidez do amor. E caso tenham sido, para muitos, esse alimento indispensável para nosso crescimento, algum dia se perdeu.  Por isso não o reconhecemos quando ele chega, sutilmente, mostrando flores e espargindo perfume, insinuando dias felizes.  
Nascemos, em esmagadora maioria, de toda uma ascendência mal amada, de uma geração não suprida em suas carências afetivas, e a árvore genealógica pode estar cheia de cupins e parasitas. Salvo um galho ou outro que conseguiu alimentar-se de uma seiva mais sadia vinda de alguma veia especial da árvore, a partir de alguma raiz bendita. As raízes são nossos antepassados que por sua vez talvez tenham se perdido do amor pelos caminhos das borboletas...  
 No entanto estamos aqui e dizemos sim à vida, apesar de tudo. Talvez possamos chamar de amor à tentativa de sobrevivência própria e da família, que vai se reproduzindo conforme o instinto ou desejo de perpetuação da espécie.  Acredito que o primeiro homem nasceu desse puro amor de que tanta nostalgia temos. E que toda a humanidade sofre a partir da sua ruptura. Esse drama ocorrido há muitos séculos, continua acontecendo no interior do coração humano. Cada um tem sua ruptura primordial! Aquela que nos deixa assustados e confusos, indefesos e, sobretudo com tanto medo, que acabamos não reconhecendo ou negando a presença do amor quando chega. Às vezes por pouco tempo. Um olhar, um batimento cardíaco mais acelerado, um suspiro... Mas a gente nega as evidências.  Se o amor insiste, fica como um inquilino desajustado, inquieto, até pular fora na primeira ordem que lhe damos de despejo, porque não combina com a forma que adotamos para a nossa vida, de querer controlar, possuir e defendendo-nos dele. É como apagar a luz do coração. Isso me lembra dos girassóis, que se entregam à luz solar que energiza suas sementes, garantindo sua descendência no calor amoroso do Criador. Quem nos dera sermos  como girassóis!
 O amor não compra e muito menos paga aluguel em nossos corações.  Sua hospedagem tem que ser gratuita. Estamos tão acostumados a pagar nessa sociedade capitalista que até para o afeto damos preço ou somos cobrados. Hoje a gente paga para ser bem tratado.
Tudo é tão misterioso...  Por que o amor bate em retirada deixando a humanidade na escuridão? Esta semana, no Egito morreram mais de quinhentas pessoas numa praça de guerra! E a antiga ditadura está renascendo por lá, prenunciando mais tempos de trevas.    A ausência deste sentimento gera e cria o preconceito que aparta, divide, diminui o ser humano. Então o substituímos pela paixão, que nos deixa tão confusos...  Em nome dela, quantos arroubos estimulam nossos impulsos instintivos?
 Seria consequência do pecado original o rompimento com o simples, o espontâneo, com a dádiva inocente que nos acolhe em dias felizes?  Mas que pecado é esse que nos afasta do amor, transformando seu suave e repousante rosa pelo agressivo vermelho da paixão?   Quem nos traiu? Qual foi a mentira original que rompeu nosso sentimento de confiança quando ainda éramos crianças? Quem nos privou do amor próprio que nos prepara para a dança com outros amores?
Em nossa dificuldade com o amor há que insistir na pergunta: - Como e quando isso aconteceu?  Qual foi a data do cisma,  que nos deixou no desamparo? Por que negamos o amor e nos entregamos à paixão que de positivo tem o lançar à ação, mas muitas vezes nos deixa tão sofridos? Quando e como ocorreu esse terrível acidente?  Mas, porque vestir o coração de luto, se o amor continua vivo e bate em nossa porta várias vezes durante a vida?

 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Gotas de orvalho


 
                                                                                                                                    Maria J Fortuna
 
Após assistir ao programa Saia Justa desta semana na GNT, onde quatro mulheres famosas falam sobre diversos assuntos, selecionei para comentar o mais comum entre todos os temas: a preocupação com a velhice. Predominou, claro, a apreensão quanto à estética. Como  já estou envolta nos véus do inverno das quatro estações da vida, fica bem mais fácil, para mim, abordar este tema.  A gente fala bem daquilo que vivência.
Fora a preocupação com a saúde, sempre fui uma dissimulada vaidosa.  Estou superando na medida do possível, a erosão do tempo, ao sentir que os anos que me restam são como gotas de orvalho no deserto. Cada dia uma gota para sorver com o prazer de quem está saboreando aquele quitute que, quase chegando ao fim, fica ainda mais saboroso!  O sentimento é de estranheza, não nego. Mas os dias, as horas, os minutos passam a ser muito mais preciosos! Não há mais tempo para o desejo de voltar atrás. A vida continua fluindo e refluindo sempre e, para cada vida, o tempo tem um conta-gotas.  Há um apelo para não desperdiçar esse orvalho com futilidades. Há que se receber cada uma dessas gotas de vida com profundo agradecimento. Nisso reside toda a força que temos para enfrentar o que não pode ser mudado.
Estou grata pela minha lucidez e completamente apaixonada pela  Arte em suas múltiplas formas!  Aí está a motivação para não mais procurar com atalhos inúteis.   A Arte é para mim, um grande lago bendito, onde mergulho todos os dias e me sinto em estado de Graça!  Um projeto de vida. Tenha as dores que tiver. Mesmo em dias mais frios e noites mais escuras.
   As flores murcham ainda mais depressa sem o reconhecimento das gotas orvalhadas que nos ressuscitam a cada dia.  Não há tempo a perder na preocupação com as plásticas, botox , maquiagens, etc. Não mais...    Muitos dos nossos parentes e amigos já se foram. Estamos caminhando para além das aparências.  Não há tempo para seduzir ninguém com os encantos da primavera. Esta passa a morar na gestação de cada obra.  O procriar sedutor dá lugar à  criatividade e à gestação nas artes, das quais me sinto permanentemente grávida. É tempo de ruminar, mastigar e engolir lições de sabedoria. De beber lentamente um cálice de vinho. De degustar as coisas da alma. Com isso nossa linguagem se torna mais serena, a tolerância maior. Assim como o controle dos impulsos pela clareza das consequências, pois o sol e a chuva do tempo continuam dia e noite. Bem como os dias nublados. Como também o rosário de perdas e ganhos, erros e acertos que nos fazem humanos.
 Enquanto tivermos consciência crítica no caminho do autoconhecimento, beberemos desse orvalho com o melhor de nós mesmos. Lembrando sempre o eterno fluir do aprendizado de cada hora das coisas que nos cercam! Para isso é importante ter amigos. Caminhar junto, pois lhes digo que todas essas coisas acontecem no exercício do amor.
 
 



 



 
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