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sábado, 30 de agosto de 2008

Eu odeio este homem!




Maria J Fortuna

- Eu odeio este homem!
Ouvi uma menina de pais evangélicos, aos cinco anos de idade, dizer quando um padre da Igreja Católica dava inicio a um programa de TV.
Ao indagar-lhe o porquê de tanto ódio, a criança respondeu de forma categórica:
- Ele está cantando a cantiga de Deus da minha Igreja!
- Mas... de Quem é mesmo a canção? Perguntei
- De Deus, respondeu mais que depressa.
- Mas se é de Deus não pode ser só de sua Igreja, falei surpresa.
- Mas é da minha Igreja, teimou a menina com as mãozinhas fechadas e a pequena boca comprimida em sinal de revolta.
- Quem manda na sua Igreja? Indaguei
- O Pastor, respondeu com firmeza
- E o Pastor serve a quem?
- O Pastor serve a Jesus, respondeu, já meio intrigada
- Bem, mas Jesus não ensina a odiar os outros, ensina?
A menina não sabia o que dizer.
E tentando ajudá-la a refletir falei pausadamente:
- Fiquei sabendo que Jesus ensina a amar...
Fingiu que não escutou e saiu dali um pouco confusa, o mais depressa que pode.
Uma legítima representante da nova geração de humanos fundamentalistas, pensei.
Se entre as Igrejas cristãs não existe paz, como teremos paz no mundo? O que são os budistas, mulçumanos e maometanos para os cristãos evangélicos? Católicos, sei – são idolatras, adoram santos. Mas e os que nem tem Jesus como Senhor Absoluto?
Vieram-me muitas perguntas. Perguntas que me chegavam de longe... Sobre as escolhas humanas e a trascendência...
Pensei nos conflitos do oriente médio. Os judeus e palestinos. Todas as guerras santas da história da humanidade e fiquei muito, muito triste...
Refleti sobre os seres humanos que não tem liberdade para pensarem por si mesmos. Que pertencem a uma casta ou religião dogmática, que os prepara desde pequeninos para acreditarem no que o clã os impõe. Ao nascer já estão entrando numa determinada forma, torcendo o nariz para quem tem outra linha de pensamento. Com o tempo vai nascendo o ódio por quem não reza na mesma cartilha.
Por que algumas pessoas dão tanto valor às coisas materiais e outras chegam a uma total doação de suas vidas por uma causa, numa percepção profunda de que tudo é transitório, só importando o espírito que é eterno e imortal? Como estas pessoas vêm isto?
Por que a cultura da Índia continua cultivando o desapego quando o mal do consumo da sociedade capitalista já invadiu aquelas terras?
Por que os tibetanos adquiriram a consciência do transitório enquanto o homem do ocidente continua pendura-se nas horas, minutos e segundos, procurando interromper o curso da vida - velhice e morte? O que aprende a criança cristã sobre a morte?
Por que na memória do budista está tão claro a efemeridade do apego às coisas matérias e a sociedade cristã se deixa sugar pelo consumo?
Como chegar a uma síntese destas duas coisas tão opostas – a materialidade ou espiritualidade nas sociedades se ambas estão doentes?
Como ter paz no mundo em que entre os próprios cristãos há divisões e ódios tão profundos?
Quando a ignorância será banida da face da terra? O preconceito, filhote da ignorância, está cada vez mais presente, sendo que pela lei da evolução humana já deveria ter sido extinto das diversas culturas.
A criança é como a argila mole que de repente toma uma determinada forma. A maioria, não tem como escapar do original. Ficará a vida toda daquele jeito, a não ser que a peça de argila, agora endurecida, caia e se espatife. E se isto ocorre, não pode mais recompor a forma de origem. Inicia-se o processo de mudança, encima do sofrimento, se tiver sorte.
Os excessivamente ligados à matéria, sofrem terrivelmente danos e perdas naturais da vida, muito mais que o segundo grupo. É como uma teia de aranha fabricada com pressa, por isto tão frágil que ao sopro do vento se rasga e nunca mais será a mesma. Os que vivem no dogmatismo sectário religioso, são como a aranha que prepara a teia para conseguir cada vez mais adeptos. Os que cultivam a espiritualidade, irmã da liberdade, não estão nem na teia nem na aranha, mas no sopro renovador que traz consigo a verdadeira paz.
O caminho do meio foi mostrado por Siddhartha Gautama – o Buda.
O equilíbrio, o não radicalismo, o não fanatismo. Um convite para o autoconhecimento.
Mas por que será que os cristãos não seguem o exemplo do seu Mestre – o caminho do Amor? E com isto da compaixão e da tolerância?
Alguns materialistas de carteirinha ressentem-se, cada vez mais, do vazio... Da dificuldade de lidar com este buraco que não tem nenhum significado – viver sem chance de vida pós morte. Outros ficam deitados na rede da aspiração, embalados por uma enorme frustração do não ter, que não tem nada a haver com o ser. Mas existem outros que trabalham pelo ideal de uma sociedade mais justa, mais equânime. Chegam a morrer por uma causa humanitária. Acho-os bem mais parecidos com Jesus de Nazareth em sua trajetória.
E por falar em Amor, fico muito triste ao ver uma criança de cinco anos, fiel representante da intolerância religiosa, multiplicada em milhares que existem neste mundo na mesma situação de intransigência. Este mesmo mundo que preparamos para nossos filhos no amor e na liberdade.
E neste tabuleiro de xadrez movido pelo fundamentalismo estão os grandes conflitos individuais, sociais, mundiais de que temos convivemos e temos diariamente noticias.
Experimentei uma sensação de impotência total e absoluta, frente aquela menina de cinco anos. Não há o que fazer, ou melhor, nada que se possa fazer vai demovê-la do caminho traçado por seus pais. Abominará aqueles que não crêem no que ela crê. E acrescentará ao seu rebanho, a grande massa a que pertence. E o ódio pelas diferenças crescerá cada vez mais dentro dela. Só sua Igreja poderá cantar a cantiga de Deus!

Um comentário:

Carla disse...

actual e profundo o teu etxto.
Como é que uma igreja que deve promover o amor...pactua com tanto ódio, principalmente quando há crianças envolvida
beijos

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