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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O fisioterapeuta


Maria J Fortuna

Tenho uma tia que é uma autêntica Sinhá Moça aos 97 anos! Chama-se Esveraldina.
Diz que a velhice, finalmente, está chegando... E por isto ela tem que se cuidar. Decidiu que a pintura do seu cabelo agora seria loiro, que se aproxima do branco e que iria descansar, depois do almoço, numa poltrona mais fofinha. Fora isto gosta de shows no Canecão e é fã de Roberto Carlos, Bruno e Marrone e Alcione. Assiste todas as novelas da Globo e aprecia programa de fofocas.
Foi providenciado pela família, um fisioterapeuta, já que dispensa cuidados médicos. Salvo o cardiologista que controla sua pressão, mas depois de uma repentina queda da mesma, esta se estabilizou e não foi mais preciso freqüentar aquele consultório. Para que cardiologista? Gaba-se de que enxerga sem óculos, desconhecendo que colocou lente interna na operação de catarata.
Bem, voltando ao assunto, o fisioterapeuta contratado pela família é um homem lindíssimo! Alto, moreno, robusto, com um vozeirão cheio de charme e, sobretudo, muito atencioso.
Antes das sessões de fisioterapia o perfume ronda a casa! Entra no banheiro e sai na cozinha...Ronda a vizinhança do prédio. Esveraldina se aromatiza da cabeça aos pés para recebê-lo que comparece duas vezes por semana.
Tal sinal a gente observa nas adolescentes quando se apaixonam por alguém. Quem pensou que a nossa Menina Moça de 97 anos apaixonou-se pelo fisioterapeuta, acertou.
Pensando que fisioterapia é ginástica, arrumou uma incrível roupa de “malhação”, novela que assiste todos os dias. Na noite que antecede a “ginástica” ela não dorme. Acorda assustada de repente com medo de perder a hora em que o “professor” costuma chegar... Vai pra cozinha bem cedo saborear seu desjejum, toma banho e procede ao ritual do perfume...
Depois que o amado se vai, com aquele porte, aquela voz tão bonita, aquele jeito de passar creme em seus braços e pernas, ela fica com ar de garota sonhadora, até que o tempo sopre, de leve, sua querida lembrança.
Claro que só ouvindo um CD romântico do rei Roberto Carlos para deixar o tempo passar mais rápido até a próxima sessão. E assim, sonhadora, embalando-se na cadeira de vime, pensando nos velhos tempos de mocinha, fica devaneando até a hora do almoço. Isto desde os remotos 93 anos vem acontecendo...
O fisioterapeuta atende também sua irmã de 94 anos que infelizmente “saiu do ar”, como diz nossa Menina Moça.Sempre se gabando de que ela está muito melhor em forma do que a irmã caçula.
- Lulu não sabe mais de nada, tá completamente “débélóide” coitada, repete toda vez que visita a irmã, abrindo bem as vogais.
Ocorre que outro dia chegou estapafúrdia noticia de que a irmã fez streap tease em plena sessão de fisioterapia para seu príncipe encantado! Foi um Deus nos acuda!
- Meu Deus que vergonha, que vergonha! Falava Esveraldina ininterruptamente pela casa com as mãos na cabeça! Como Lulu teve coragem de fazer isto?
- Mas tia, ela não sabe mais o que faz... Consolava eu.
- Não tem desculpa para uma coisa dessas, ai meu Deus! Repetia desesperada!
Resolveu apurar de perto a inusitada noticia e indagou as acompanhantes de Lulu se ela teve coragem mesmo para fazer aquilo.
Na afirmativa do evento ocorrido ficou mais inconsolável ainda.
- Eu não vou mais poder encará-lo. Na hora da ginástica eu não vou olhar mais para a cara dele, nunca mais!
- Não fique assim, tia. Ele já esqueceu. E compreenda que ela não sabe o que faz... Falava a neta, tentando acalmá-la. Aí veio a reflexão surpresa para todos nós da família... Tia Esveraldina, sacudindo nervosamente a perna, falou em alto e bom tom:
- Pelo menos se fosse eu, que ainda tenho tudo no lugar, mas Lulu com aqueles peitões caídos...


Este fato se deu ano passado. Agora, aos 98 anos, a "ginástica" continua sem o mesmo entusiasmo. O fisioterapeuta casou-se e Lulu foi para outra dimensão da vida.

2 comentários:

MJFortuna disse...

Comentário por email

Em nome de todas as tuas leitoras preguiçosas, venho comentar, com alegria, tua escrita que muito me compraz. é como estar com voce, na varanda,na cozinha, te escutando falar, tocando nossos corações e nessa intimidade de amigas, compartilhar um viver, no falar de nossas lidas femininas, e unidas, brindar à vida que nos liga, nessa boa liga de nobres metais.
através de nossas escritas, vamos nos unindo em tão orgânica teia, dando voz, cor, forma, aroma, textura, corpo, alma ao Espírito de tantas luzes que se acendem em festa, por se fazerem presentes no verso da menina-poetisa, na pena da mulher escritora.
tens mais que uma leitora, uma fã, e aplaudirei teu gesto que ensina e abençoa.
quase aos sessenta, tua irmã-rebra, maria alice rodovalho de souza

MJFortuna disse...

Recebi da amiga mineira Eliana o seguinte comentário por email:

Tá pensando o quê, minha amiga! Estou envelhecendo mas ainda sou mulher e tem mais, mulher de muito bom gosto. Afinal, quem mandou contratarem um jovem tão lindo e com uma voz maravilhosa dessas!
Todos pensavam que eu estava com vergonha porque Lulu se despiu na frente do "professor", mas, na verdade, eu estava era com inveja dela... rsrsrs

Parabéns! Adorei. Sua crônica é muito simpática.
Abraço,
eliana

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