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sábado, 11 de outubro de 2008

O milagre das frutas


Já mencionei Clevane Pessoa aqui no blog diversas vezes. É aquela amiga jornalista, psicóloga e poetisa, que escreveu Mulheres de Sal e Afins. Ela tem um magnífico texto, meu predileto, neste livro, que se chama O Pokã. Ela fala da lingua sensual das frutas suculentas. Descrevendo a cena em que a adolescente se rende aos apelos eróticos do namorado, fundindo-se a pokã que ele descasca introduzindo o polegar nas sua reentrâcias...

Clevane consegue expressar sua sensualidade de forma tão delicada, uma artífice das palavras, sabendo colocar tão bem poesia nessa forma de falar sobre esta energia maravilhosa que escorre pelas nossas veias e nos faz pulsar como relógio até quando a vida se esvai... Ai de nós sem tesão pelas coisas prazeirosas e belas que a vida nos traz... Quem já leu o livro do Roberto Freire "Sem tesão não há solução?

A propósito da fruta pokã, escrevi este texto:



Maria J Fortuna



Aquela fruta que eu tentava mastigar, não lembrava em nada a que outrora conheci em idos tempos ditosos... A velha tangerina! Segundo o Aurélio, feminino de tanjão, que em Minas Gerais chama-se de mexerica e lá em S. Luis do Maranhão, minha terra natal, quando é grandona, a gente chama de tanja. Sei lá porque....
Bem, mas a delícia desta fruta está nas boas recordações de algumas pessoas privilegiadas. Posso dizer que sou uma delas.... Algo muito perverso causou dano aquela fruta, que na feira é apelidada de pokã Sua casca é fofa, deixando solta a fruta quase que por inteiro em seu interior. O corpo gomado perdeu sua cor original. Tem aparência murcha e é fácil de descascar, mas difícil de deglutir. Lutando com a mastigação sinto pobres bagaços, quase secos no interior da boca, teimando em não serem moídos pelos dentes, relutando em misturar-se à saliva. Daí a dificuldade que temos para engolir.
Logo sinto ausência daquele caldo maravilhoso que, a pequena mordida, adoçava suavemente o paladar. Mas, esta, que manipulo neste momento, são pedaços inexpressivos de uma fruta cujo suco, concorria como mel das abelhas!
Caiam ao pé da árvore mãe com o prazer de quem amadurece, cumprindo bem a realização plena de sua natureza. Enfeitavam o mato como pontinhos alaranjados, vistos a distância.. Quando tombavam não sentíamos como desperdício porque eram tantos os que a saboreavam dando-lhes prazer: gente, pássaros, abelhas borboletas e pequenos insetos. Não a víamos senão como pequenos enfeites no chão. Além de tornarem-se esterco para outras plantas irmãs, favoreceam o surgimento de novos pés em abundancia! Refrescavam-nos, em forma de suco, matando-nos a sede nos quentes dias no eterno clima de verão nordestino.
Assim como a tangerina, várias outras frutas estão perdendo seu sabor, suas características: perfume , sumo, sua forma peculiar de ser. Tudo transformado, adulterado, melhor dizendo. Foram "tratadas" depressa, para serem vendidas logo, por lucro imediato.
Encontramos a tal tangerina, além da feira, em supermercado e camelôs ambulantes, anunciadas a preço barato como fruta de época, de estação. Mas dá dó vê-las empacotadas ou jogadas num grande suporte de madeira, completamente inexpressivas.
Lembrei-me de uma mulher maravilhosa, que na época da 2ª guerra mundial, morava num sítio chamado Primavera lá no Maranhão.
Naquela época seu marido, único provedor da casa - como acontecia ao homem naqueles tempos - estava desempregado. Os três filhos mais velhos foram estudar em S.Luis acolhidos na casa de suas irmãs e eu, a caçula, que estava ainda fora da faixa etária escolar, permanecia ao seu lado, naquele sitio de farturas mil!
Ficava a comer deliciosos frutos, brincando num velho tanque de azulejos azuis que, tombado no chão, funcionava como cabaninha ou proteção contra os babaçus que caiam em nossas cabeças. Mas aqueles coquinhos duros mergulhavam num próximo e velho poço que a gente acreditava ser a casa da Mãe D'Água, figura do folclore maranhense, mesma coisa que Iemanjá ou Iara em outros recantos do Brasil a fora.
O sítio tinha de tudo... Frutos da Mata Atlântica, que a gente vê agora por aí em polpa, nas geladeiras e lanchonetes, para fazer sucos. Além de buriti, Jussara, açaí, bacuri, caju em diversas tonalidades de amarelo e laranja, mangas coloridas que faziam um ruído peculiar quando caíam no mato, assim como verdes abacates. Tinha também abricó, jaca, jacama, camapum, cupuaçu, sapoti e sapotas (que parece um sapoti grávido) abricó, pitomba, croasinho, ata, (chamada fruta de conde no sudeste) murici, etc. Com exceção de uvas, peras, maçãs e morangos, que só apareciam por lá, importadas, no Natal, para quem tivesse dinheiro.
Corria um rio atrás da casa, perto do milharal, onde as lavadeiras nuas da cintura pra cima - algumas com seios tão fartos quanto grandes frutas maduras - cantavam canções religiosas do Tambô de Mina e de Crioula, grupos ritualísticos de tradição africana muito comum em minha terra.
As frutas cresciam embaladas por aqueles estranhos cânticos que pareciam mantras da fecundidade. Eu ficava embevecida com os tons e semitons com graves e agudos daquelas alegres mulheres cantantes, com ajuda dos pássaros, que vinham pousar nas árvores e tomar banho no rio. Podiam bicar as frutas à vontade. Tinha pra todo mundo! Pra todos os gostos! Que coisa mais sublime e feliz! No ar um perfume gostoso! Mistura das diversas espécies de frutíferas com o frescor do rio e o cheiro da roupa limpa quarando ao sol.
Pois é, meu pai desempregado, a gente no sítio Primavera e a guerra arrebentando na Europa. O paraíso e o inferno!
Minha mãe com mãos de dama, uma sinhá moça crescida com todo mimo, asmática, franzina, fez o grande milagre para que sobrevivêssemos a tudo aquilo. Era como fada, embrenhada no mato frutuoso com sua cestinha de vime. Entrava pelo milharal como a leveza do vento e dali traziam louras espigas, com aqueles fios macios que viravam cabelos de boneca.
Aqueles frutos exóticos eram transubstanciados em doces maravilhosos!
Chamou Antonio, o filho da cozinheira, e o contratou para vender aqueles incríveis quitutes no aeroporto onde aviões de aliados, pertencentes a várias nacionalidades, pousavam. Ficava perto do Sitio Primavera.
Num tabuleiro com tiras presas ao pescoço, Antonio levava manuê, beiju , pamonha e panqueca de milho , derressol – (cocada de coco com rapadura), doces de quase todas as frutas que aqui mencionei. Um coquetel para nenhum daqueles soldados estrangeiros botarem defeito. Bendito ponto estratégico procurado para pouso de aviões!
O rapaz regressava à noitinha, com o tabuleiro vazio todo santo dia!
E eu, alheia a todo aquele esforço de minha mãe, protegida pela minha inocência, pulava, cantava , lambuzada com sumos e sucos de frutas que funcionavam como perfume natural.
Nem me passava pela cabeça que a linda senhora que cheirava a alfazema e tinha postura de dama, havia se associado à natureza para evitar perder o pouco que tínhamos. Na minha cabecinha ela estava brincando de fazer e vender doces, tal era sua disposição para o trabalho e sorriso ao ver o tabuleiro vazio...
Que saudades das frutas que cumpriam seu destino sem que a mão do homem as submetessem ao tratamento transgênico... Saudades delas, puras, sem químicas ou agrotóxicos.
Saudades das daquelas pessoas curtindo a natureza exatamente do jeitinho que ela é... mas até quando?
Saudades dos tempos que não existia tangerina pokã da feira livre, atrás do meu prédio..

Endereço do blog de Clevane Pessoa: http://www.clevanepessoa.net/blog.php


2 comentários:

MJFortuna disse...

Comentário de Marielga Girodo

Agora com um pouco mais de tempo, posso lhe dizer que li outros mais escritos seus. É bom saber que ainda tem pessoas que vêem a vida e o próximo com os olhos do coração. E desculpe por não dar um alô e perguntar como foi de viagem. É que, ansiosa respondi e dei uma de mal-educada. No entanto, agora que já li suas estórias, sei também sobre sua viagem, lançamento do livro, e não posso deixar de dizer que dei boas risadas com o dialogo quando da venda de 'suas terrinhas' no Bosque da Esperança. Você me desculpe se não responder aos seus emails e não tecer comentários qdo eu acessar seu blog, mas às vezes fico tão pouco no computador que não dá tempo para fazer tudo que gostaria. Mas é isto aí, siga em frente, ocupada intelectualmente, tenho dúvidas se a velhice irá lhe amedrontar, acredito mesmo, que você nem a verá chegar e passar, estará preocupada com suas estórias para a alegria de todos nós, e parabéns... vi suas fotos e achei-a linda e maravilhosa como sempre. E muito bem conservada... está vendo? é o bom astral buscando conexão com o Divino através dos seus préstimos para a vida. Bjs.

Alana disse...

Ola Maria.. que delícia ler seus textos...
Saudade de você.
fiquei com água na boca e com saudade de uma realidade que nunca vivi..
Beijo grande!

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