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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A convidada especial




Maria J Fortuna


Depois de trinta anos em BH voltei ao Rio de Janeiro, onde passei minha infância.
Por aqui já faz um tempinho que estou recuperando o sentido das coisas que me cercam e o significado delas. As circunstâncias vão empurrando a gente como uma bola de futebol num campo lotado de jogadores ganhadores e perdedores Um jogo que não acaba nunca! Até que mudemos de campo... E aí entra o que absolutamente não conhecemos. Mas tenho um fiel propósito de ser coerente com o que sinto e penso até que aconteça a mudança definitiva para o campo de lá, onde um número significativo de parentes e amigos estão existindo.
Então arrumei com carinho meu novo quarto em casa da tia idosa. Fiquei tentada a convidar algumas pessoas para inauguração. Só que lembrei que aqui não tenho mais amigos. Os que tinha quando jovem já casaram, mudaram e não deram mais notícia.
De repente,quando eu estava caminhando na Rua das Laranjeiras, pensei numa pessoa que não faltaria ao evento: minha mãe! Que importa se já está vivendo no campo de lá. E daí?
Fácil, para mim, vê-la com aquele vestido cuja estampa parecia o papel que envolvia o vidro de Sal de Frutas, um remédio usado contra azia e dor no estomago nos idos anos 50 do século passado... O vestido tinha um fundo preto com florinhas coloridas. Minha mãe tão sorridente, magrinha sem asma, pele de jaspe, lindos cabelos castanhos soltos, olhos bondosos, usando aquela meia, quase transparente, com a costura aparecendo atrás e que desfiava toda hora. E ela nem reclamava... Sapatos de saltos quase baixos e uma bolsa de couro, sempre combinando com os sapatos.
Viria com sua sombrinha de cabo madre perola, com os lábios vestidos com discreto batom vermelho, que ela usava só em festas familiares. Não comparecia a nenhuma outra.
Fiquei pensando como é difícil aceitar as maldades do Tempo! Ela teria quase cem anos agora. Sou, além de filha caçula, um rebento nascido tardiamente para aquela época Uma filha temporã, de uma gravidez escondida como se fosse a de uma menina moça que se tornara mãe precocemente. Mas era por vergonha de ter mais um filho em idade mais avançada, com o marido desempregado durante a feia crise pós guerra. Com isto a tive por menos tempo que os outros filhos que eram três.
Ela iria envolver meu quartinho com seu perfume de alfazema misturado ao pó de arroz cheirando a flor de maçã. O privilegio de sentir este doce perfume não era reservado apenas aos que a beijavam na face. Era como se incensasse todo ambiente de uma forma mágica. Manha gostosa de tudo que cheira a mãe. Por fim ser abençoada pelo gesto prazeroso do seu abraço! Eu me sentia como envolta em lençóis de cetim tal a maciez de sua pele!
Sentaria na cadeira de honra - a que tem almofadas bordadas de carinho - iria desfiar um longo rosário de elogios bondosos a minha humilde decoração. Seus dedos suavemente mexeriam com meus cabelos naquele gesto gostoso que sempre precedia a célebre frase em que ela manifestava, delicadamente, sua estranheza a meu respeito:
“- Gostaria tanto de saber o que se passa nesta cabecinha....”
Tenho uma cama confortável, um móvel para computador e nele farei todas as viagens que meu coração pedir. Desde ver fotos antigas, até escrever crônicas e poesias. Faz parte ainda do meu pequeno espaço uma estante com delicadas estatuetas de anjos, um porta CDs que, em sua maioria, são de musicas clássicas e MPB e muitos livros. Há uma janela que dá apenas para a parede de outro prédio e é só. Não cabe mais nada!
De qualquer forma, rompendo as cortinas do tempo, numa visão surrealista, minha convidada de honra acaba de chegar! O abraço é longo, saboroso, acolhedor, apertado, sentido e saudoso! Minha mãe cheia de encantos ilumina completamente meu pequeno quarto. De um jeito tal que aqui só cabe felicidade!
Quem disse que o amor não existe? Quem disse que ele não viaja no tempo e se desloca anos luz ou mais que isto para despertar tudo de bom no coração da gente? Quem disse que aqueles que vivem em nossas lembranças são fantasmas? Quem disse que um grande desejo de encontro se realiza apenas fisicamente? E quem disse que não podemos receber a flor de quem amamos?
Eu e minha mãe dançamos ao som de uma valsa pisando medos magoas e cupins de receios mal fundados. Eu me sinto pequenina em seu regaço, como sentia quando me fazia dormir. Eu lhe digo que o tempo não é tão mau, ele me espreme, cada vez mais, para que nosso encontro aconteça também do lado de lá. Aí será minha vez de chegar, mas não como visita.
Pouco quero saber das maldades do senhor Tempo, que a levou tão cedo para longe de mim. Agora ele não existe. Ela está aqui, acarinhando meu mundo e dando-me notícias de Deus.
Pronto! Meu quarto acaba de ser inaugurado!

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