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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Julia

Maria J Fortuna

Julia era alguém com dificuldade em se enraizar na existência. Mas tinha um coração inteligente, aquele negado pela maior parte da humanidade durante séculos de história, renegado em prol do poder e ambição.
Por mais que se ligasse as causas sociais, haviam despenteadas horas em que esquecia as pessoas do mundo e navegava em sonhos. Era seu único pecado: excesso de abstração.
Por sofrer de insônia, passava noites em que, desespero a parte, enchia seus cadernos de poesia. Era o que a mantinha viva, apesar do sono no dia seguinte, da fisionomia cansada, mas quase angelical, que a tornava estranha ao grupo da universidade. Este ar de quem não se interessa por frivolidades, de estar em mundo desconhecido, tornava-a carismática, desde que em suas ausências pairava mistério: “onde estará ela agora?”, indagavam as pessoas que a rodeavam.
No momento em que sua existência se desenrolava a crueldade andava solta no Brasil nos idos 1964 - a malfadada ditadura militar.
Julia não tinha competência para entender nem acolher o ódio. Seu perfil tinha traço de resistência natural a grosseria e brutalidades. Quando acontecimentos se tornavam por demais cruéis, refugiava-se na raiz de suas poesias e transcendia no amor as coisas ternas e doces da vida como um gatinho ou uma planta na janela.
Para que se arriscar a ser pisoteada quando em seu coração havia colméia que destilava mel? Contudo abelhas espertas impediam que alguém se aproximasse dela com desrespeito, invasões e maledicência.
Naquele regime militar, torturas eram praticadas em meninos e meninas desarmadas numa luta covarde e desigual. Isto a obrigava sair de seu mundo esquizóide para aterrissar em campo minado pela violência. Mas não conseguia ser agressiva. Havia necessidade de ter paz e estar de volta à liberdade de Deus. Jogava palavras que emergiam do seu inconsciente para colhê-las da memória e fazer delas um arranjo nem sempre perfumado e colorido, mas reconhecido pelas almas mais sensíveis, como expressão do seu ser – a poesia.
Pois foi num desses dias em que ela engrossava fileiras protestando contra a repressão que se abateu sobre o povo brasileiro, que seu sol interior se escondeu por trás de uma nuvem pesada.
Primeiro de maio, dia do trabalho, num dos raros rompantes em sua existência, compareceu a uma reunião de operários sindicalistas e estudantes universitários, no auditório de um prédio em Belo Horizonte. Alguma coisa estranha a seu temperamento crescia dentro de Julia. Pois a cada protesto de um orador mais inflamado, o calor da indignação aquecia seu peito, tomava conta dela que comungava com aquela energia nova e magnífica! Chegou a Levantar os braços com os punhos fechados. Unir-se ao estribilho que brotava da garganta e se transformava em clamor: “– Abaixo a ditadura!”. Espremia dentro de si o tumor da mágoa pela injustiça e transcendia o medo. Unia sua voz a outros com o mesmo calor e esquecia seu caráter de pessoa vulnerável, indecisa e sonhadora.
De repente o tumulto! Uma onda de gás lacrimogêneo penetrou no recinto fechado. Homens fardados, de cassetete nas mãos batiam impiedosamente nos protestantes. Correu para o pátio do prédio e em seguida para o muro que cercava o edifício. Ela e outros jovens companheiros estavam encurralados! De repente apareceu um operário que cruzou os dedos da mão para agasalhar seu pé de proporção infantil. Sugeriu assim que escalasse o muro. Apoiou em seu ombro e foi o que rapidamente fez, em meio à gritaria da multidão ameaçada. Ali no alto do muro viu, por um instante, alguns dos seus amigos gritando e correndo, outros encantoados em várias partes do terreno. Pulou a mais de dois metros de altura, arriscando-se a quebrar os ossos e correu como nunca o tinha feito até então.
Parecia que seu estomago ia sair pra fora! Vomitava uma gosma estranha, enquanto vinha-lhe um choro convulsivo, não sabia de onde, em ondas e golfadas. Do outro lado do muro os militares passavam de dois a dois, com cachorros treinados para atacar. Continuou correndo feito louca com um grupo de colegas para a Praça Raul Soares e ai entrou numa Lanchonete, limpando os olhos com a costa das mãos. Alguns cavalos transportavam homens furiosos que desciam o cassetete em quem se aglomerasse por ali. Em seguida viu um dos companheiros pego pela camisa, com a testa sangrando abaixo do cabelo liso e desgrenhado. Ele lhe jogou um canudo de papel amassado e sujo e foi levado pelos repressores. Naquele momento um soldado segurou-lhe pelos cabelos e arrancando-lhe o papel amassado das mãos. Ela foi quase que arrastada pelos cabelos e jogada no camburão. O que continha aquele papel? Seria um documento? O que queriam que ela confessasse? Como poderia viver dali pra frente atravessada pela lança fumegante da traição. A única coisa que lhe passava pela cabeça era resistir, não dedurar ninguém.
Vou me poupar a mim e meus leitores de descrever o que Julia sofreu no DOPS. Todos nós estamos cansados de assistir violências no lixo televisivo. Mas não vejo noticias do que se passa na alma das pessoas violentadas. Tortura, acredito, é muito pior do que a morte! E não tem nenhuma justificativa para que seja praticada.
Quando finalmente foi solta, parecia qu tinha sido engolida por um buraco negro. Nunca mais foi à mesma. As palavras que alinhava para compor poesia fiicaram congeladas em seu coração. O corpo por muitos anos foi o túmulo e não templo do seu espírito.
Passada uma década daqueles acontecimentos, alguém a amou quando ela ainda tinha suas chagas abertas. Cuidou dela, deu-lhe filhos. Mas não havia em seu, não raro mutismo, aquela expectativa de outrora. Quando ficava absorta em seus pensamentos as pessoas que sabiam sua historia não mais perguntavam “onde ela está agora?” No entanto não resistiam a indagar:
- Quando teremos novas poesias, Julia? E ela respondia sempre:
- Não sei... “Minha alma saiu do corpo, foi embora e nunca mais voltou”...

PS – A frase em aspas foi colocada parafraseando Neusa Ladeira, que em Uma mulher sensível, respondeu no final de sua entrevista: ”quando se é torturado, a alma vai embora. Não volta nunca mais...”

Um comentário:

Alana disse...

Olá Maria, sou eu de novo!
Seu quarto não poderia ser inaugurado de forma mais delicada!
Você é encantadora. Fico sem palavras....
Um beijo.
Alana

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