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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Para os que não leram...








A pressão do doutor

Maria J Fortuna


- Você viu o absurdo que o Presidente falou na ONU? Indagou-me do nada, o cardiologista que atende tia Lourdes. Apenas respondi que não.
Encorajado com minha aparente postura alienada e levando a cliente pra trás do biombo, a fim de proceder ao eletrocardiograma, continuou sua fala bem entusiasmado. Acho que confundiu meu silêncio com aprovação, só podia ser. E eu calada...
- Que vexame para o país! Este homem ter coragem de falar que a fome é responsável pelas guerras! Afinal a razão estava com o Bush, que deveria ter invadido o Iraque há muito tempo, sem deixar nenhum terrorista vivo por lá.
Fiquei espantada com aquele doutor que trata corações... O homem ia falando... Falando... E minha tia deitada esperando pelo eletrocardiograma, que apenas ensaiou começar. E gesticulava para lá e para cá, dando continuidade ao rosário de tolices.
- Vexame, continuava repetindo com outras palavras, como pode um homem sem cultura, representar o Brasil lá fora dizendo esta barbaridade! Onde já se viu? A fome justificando terrorismo! O mundo precisa de paz, mas com um monte de terroristas a serem exterminados? ... Não deveria ficar nenhum vivo! O onze de setembro foi um descalabro! O mundo precisa de uma resposta!
E o doutor estava passando de rosa choque ao rosto vermelho e eu calada, observando, e minha tia, quietinha, atrás do biombo esperando o “eletro”.
Em minha mente desfilavam cenas terríveis dos filmes do holocausto judeu. E eu ficava cada vez mais perplexa com o discurso inflamado do cardiologista, que é um deles. Eu vi a figura do doutor virar o próprio Ariel Sharon bem gordo, ocupando toda a tela da TV. (nada contra os judeus). E pensei nas atrocidades que rolam entre Israel e Palestina afora... E a chacina das crianças na Rússia? Saddan matando os curdos e Bush os iraquianos. Cabeças sendo degoladas e o nosso doutor de coração, incentivando a guerra e aprovando Bush como Salvador do mundo! Ali estava a expressão viva do que eu só leio nos jornais. E eu calada... Contemplando o ridículo daquela situação. E o imensurável absurdo de quem defende guerras e elogia carrascos. Ainda mais de quem, que pode ter tido algum parente trucidado pelo SS de Hitler. É de cair o queixo...
De repente, o homem já estava salivando muito, com o rosto meio que lilás E eu continuava quieta, na contemplação silenciosa daquela triste realidade. Apesar de que tal atitude já começava a despertar suspeita e incomodar o doutor. Afinal, havemos de convir que aquela situação inusitada em que eu e minha tia estávamos, era como assistir a uma peça de teatro do absurdo! Ali deveria acontecer uma consulta médica e não um desabafo tão ameaçador!
Finalmente ele começou a fazer o eletrocardiograma. Mas isto não lhe cortou a mofada fala:
- Onde já se viu isto? O mundo está entregue aos perdedores... Quem diria? Continuava o cardiologista, passando de cara lilás para roxa.
A estas alturas, eu já estava pensando no Gandhi. E nos pacificadores como Jesus, vítima de uma macabra engrenagem política e agora sendo usado para fazer política! Pensando em todos os fundamentalistas do mundo! Nas guerras santas, na Inquisição e até nos circos romanos com cristãos jogados as feras! Pensei coisas e loisas...
E o sujeito médico, com o estetoscópio no pescoço, gesticulando agora completamente roxo!
A conversa do doutor era de tal forma nazista que não dava nem pra querer romper o véu do absurdo. Então tive a feliz idéia de propor outro assunto, mais adequado à situação:
- Doutor, comprei este aparelho de pressão digital e gostaria de saber como funciona.
Puxa! Foi um alívio!... Finalmente ele entrou no clima da consulta, pensei.
- Hum... Murmurou, depois de um curto suspiro, a fim de se recolocar no ambiente do seu consultório. Vou colocá-lo em sua tia e a senhora observa como funciona.
Foi atrás do biombo, onde a velha senhora aguardava pacientemente, ainda deitada, o resultado do eletro. E colocou o aparelho em seu pulso.
- Hum... 12 por 6. Tudo bem! A senhora confere aqui, por favor.
A cor do rosto bem feito do doutor foi voltando aos poucos do roxo, ao vermelho e daí para o rosa choque, depois para o rosa menos forte... Mas ele ainda arfava, ainda estava emocionado com o tema de seu discurso, em que alugou nossos ouvidos para ouvir sua explosão tão insípida quanto inconsequente.
- Agora, para testar melhor, vou experimentar em mim mesmo o aparelho, falou com autoridade. E, sentado, colocou o aparelho no seu próprio pulso.
- A minha pressão está... Bem, um momento... Hum... 20!.....
E eu nem fiquei sabendo a mínima... Ele engasgou e não falou.
- Por que estou com a pressão tão alta? E fez uma cômica cara de medo e surpresa. Estava suando por todos os poros e repetiu o procedimento por mais três vezes!... E sempre dava o mesmo resultado.
E o rosto do rosa começou a ficar branquinho... O doutor estava passando mal.
Não perdi tempo:
- Pois é, doutor, se eu fosse o senhor não ficava tão emocionado com estes assuntos de violência... O senhor vê sua pressão, tá lá em cima! Ódio mata, sabia? E desci minha tia da mesa do eletro, finalmente.
Saí dali com uma estranha sensação de vingança. Pra falar verdade, eu realmente adorei a pressão alta do doutor!

Um comentário:

Jean Scharlau disse...

Ahahaha! O cardiologista que é um auto terrorista.

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